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António Gomes Leal · Vanguardias / s. XX

Nova ballada do rei de Thule

portugués

N'um paiz nada visinho...
Em Thule até mui distante,
Houve outr'ora um rei farçante,
Um rei amigo de vinho.

Quando sua amante fiel
Mimosa e cheia de graça,
Morreu, deixou-lhe uma taça
Que semelhava um tonel.

Era tamanha a grandeza
Da taça que nada iguala!
—Ficava sempre ao esgotal-a,
El-rei debaixo da mesa.

Quasi sempe ao lusco-fusco,
De noute, até horas mortas,
Folgava, as pernas já tortas,
Este rei velho e patusco!

Em noute d'agreste vento,
Na sua mais alta torre,
Pensando em que tudo morre,
Tratou do seu testamento.

A sua amisade céga
Legava a todos dinheiro,
E a seu filho e seu herdeiro
Seu reino, seu povo... e a adega.

Da sua amisade em prova
A todos dava uma graça,
Só aquella enorme taça
Levava o rei para a cova!

Um dia, os altos barões,
Fez juntar para uma orgia,
N'uma sala, onde dormia
As suas indigestões.

E ali, depois de libar...
Passados curtos momentos,
Começou a vêr, aos ventos,
Os seus castellos dançar.

Assoma, trocando o pé,
De taça em punho, á janella,
Mas n'isto, tropeça... e ella
Vae levada da maré...

E afunda-se... mas tal revéz
Tomba o rei morto de magoa!
—Era esta a primeira vez
Que a taça se enchia d'agua!

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Expediente

Autor
António Gomes Leal
Título
Nova ballada do rei de Thule
Lengua
portugués
Época
Vanguardias / s. XX
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-nova-ballada-do-rei-de-thule--antonio-gomes-leal-28d7c9
Cita recomendada
António Gomes Leal, «Nova ballada do rei de Thule», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-nova-ballada-do-rei-de-thule--antonio-gomes-leal-28d7c9.html

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