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António Gomes Leal · Vanguardias / s. XX

Noutes de chuva

portugués

Eu não sei, ó meu bem, cheio de graças!
Se tu amas no Outomno—já sem rosas!—
A longa e lenta chuva nas vidraças,
E as noutes glaciaes e pluviosas!

N'essas noutes sem luz, que—visionarios—
Temos chymeras misticas, celestes,
E scismamos nos pobres solitarios
Que tiritam debaixo dos cyprestes!

Que evocamos os liricos passados,
As chymeras, e as horas infelizes,
Os velhos casos tristes olvidados,—
E os mortos corações sob as raizes!

N'essas noutes, meu bem! em que desfeito
Cae o frio granizo nas estradas,
E tanto apraz, sonhando, sobre o leito,
Ouvir a longa chuva nas calçadas!

N'essas noutes, electricas, nervosas,
Todas cheias d'aromas outonaes,
Que a tristeza tem formas monstruosas
Como n'um sonho os porticos claustraes.

Noutes só em que o sabio acha prazeres,
—Tão ignorados dos crueis profanos!—
E em que as nervosas, mysticas mulheres,
Desfallecem chorando nos pianos.

N'essas noutes, meu bem! é que os poetas
Tem ás vezes seus sonhos mais brilhantes,
Folheam suas obras predilectas...
—E evocam rostos... e visões distantes!

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Dónde vive
La Biblioteca

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Expediente

Autor
António Gomes Leal
Título
Noutes de chuva
Lengua
portugués
Época
Vanguardias / s. XX
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-noutes-de-chuva--antonio-gomes-leal-38a5b7
Cita recomendada
António Gomes Leal, «Noutes de chuva», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-noutes-de-chuva--antonio-gomes-leal-38a5b7.html

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