I.
Co’a doce voz o cysne lusitano
Assim as proprias feras abrandava;
Mas nem o Tejo, de seu canto ufano,
Nem as ingratas Tagides tocava:
De seu impio destino deshumano
Nunca as íras fataes, nunca domava;
Nem achou entre os seus humanidade
Quem moveria as pedras á piedade.
II.
Ingrata patria, o ingenho sublimado
Digno de um capitolio em Roma antiga,
Tu não o ergueste d’esse baixo estado
Em que só por tua glória se affadiga!
O ingenho que te inveja mallogrado
Toda a nação de meritos amiga,
Tu na vida em miserias o deixaste,
E em leito vil á fome o assacinaste!
III.
Vai! Sua glória é mais hoje a maravilha
Das gentes, porque mais o perseguiste;
Morre o teu nome quando o seu mais brilha,
Despojam delle a tua lingua triste;
Iberia o adoptou, França o perfilha,
Britannia o quer; e agora eterno existe,
Que n’um e n’outro italico idioma
Entre os seus vates o colloca Roma.
IV.
Tu fica-te c’os ossos deshonrados
Que te accusam de ingrata ao ceo e á terra;
Seu spirito, esse vai onde prezados
São virtude e talento, e onde ímpia guerra
Stulto o podêr não faz aos mais honrados:
Mais de outros ja que teu, ja não se incerra
N’um canto do orbe sua altiva fama,
Que Augusto a ampara e um Alexandre a acclama
V.
Lá onde surge de alto monte, e brilha
Sôbre a escolhida grey de Deus a estrêlla,
E egual áquella antiga maravilha
Que os reis guiou a Deus, sôbre os reis véla,
Lá onde ao merito o podêr se humilha,
Beja a paz da justiça a face bella,
E de illustre carvalho á sombra amena
Descança Roma no velar de Siena,
VI.
Lá vai, minha obra, e d’esta luz roubada
Tu leva á patria musa esses primores;
Em falla ignota estava sepultada,
Raios de extranho sol são seus fulgores.
Vai, viverás: tambem com luz furtada
Deu vida Prometheu. Se mais não fores,
Serás reflexo de belleza, lustre,
E de eterno splendor émula illustre.