CADA PIEZA VIVE EN UNA DIRECCIÓN · NADA VIVE EN UNA SOLA SALA  

PoetósferaLa BibliotecaAlmeida Garrett

Almeida Garrett · Romanticismo

Pelo zurro o burro. Conto academico

portugués

Naturam expellas
Furca, tamen usque recurral.

MORAT.

Era uma vez: diz mestre Lafontaine,
Que lh’o dissera Phedro seu amigo,
Que lh’o dissera um grego corcovado...
Pois tudo n’este mundo vai por dittos,
Tudo se diz porque outros o disseram...
E talvez que não fôsse Lafontaine,
Mas foi outro que tal, que vale o mesmo:
Um dia... mas o fio á minha historia
Não o tórno a quebrar por coisa alguma;
Poema que tem muitos episodios
Nunca póde ser bom, nem bons ser elles:
Diz padre Horacio ou outro tal como elle
D’estes que intentam accanhar o genio
Com leis servis por elles arranjadas
Que, segundo a moderna guapa eschola,
As não póde soffrer de taes birbantes.
Um dia pois o pae d’homens e numes,
Como eu ia contando aos meus leitores...
—Se é que a sorte, que os nega a bons poetas,
M’os deparar a mim, chulo trovista—
A rogos, mas de quem ja me não lembra,
Asno felpudo de orelhões cahidos
Quiz transformar em fervido ginete;
E ao bom Mercurio, seu fiel ministro,
Manda que o longo pêllo lhe tosquie
E um bom naco cerceie das orelhas.

Era grande o burrico, nedeo e gordo,
E por milagre do supremo Jove,
Que sempre faz como este bons milagres,
Ei-lo desimpennado e mui lampeiro,
Qual andaluz corcel ou egua arabia,
A par d’outros corceis se vai trotando.
O povo cavallar na fórma nova
Não reconhece a burrical maranha.
Como elles folgazão retouça e pulla,
Ladeia, faz corcovos, trava o passo,
Emfim parece—Tanto podem numes
E tal é o podêr de um bom milagre!—
Cavallo mestre e feito em picaria.
—Qual rustico peão de bronca aldea
De tamancos nos pés, no sacco a broa,
Que vem para imbarcar lá da provincia,
E para um tio, que é senhor d’ingenho,
Ricasso em pretos, em arroz, mellaço,
Ingoiado apprendiz vai ser caixeiro:
Morre-lhe o tio, eis o rapaz n’um sino,
Vende pretos e pretas e mellaço,
E vem, Cresso de cocos e patacas,
Metter toda Lisboa n’um chinello;
Ja por boas, luzentes amarellas
Serodeo compra fidalguesco fôro...
D’antes—que hoje a visita da saude,
Em cheirando a caturra, a bordo o prende,
E é ja barão quando põe pé em terra.
Ei-lo que alteia os hombros incolhidos,
Intufa em vento as bochechudas belfas,
Impina a pansa, ingrossa a voz pausada,
E no tropel dos nobres involvido,
Se o não conheces, crêra-lo provindo
Dos que nos velhos pergaminhos vivem.
Tal ja desorelhado e uffano o burro
Entre altivos ginetes campeava.
Mas, oh fado infeliz, mesquinha sorte!
Quando entre os novos ledos companheiros
Se vai trotando com pimpão meneio,
Ei-lo depara com villan jumenta
De hirsuta felpa e de costado esguio,
Que os fios corta d’alma a quem a via,
Como bem diz Latino-luso vate
De mui gaiata e festival memória.
Subito esquece o recem-nobre estado,
Lembram-lhe antigos, burricaes requebros
E o tom gallanteador de asnal namôro:
Estira amante o beijador focinho,
E em notas de invejar por um Lablache,
Psalmeia airoso, compassado orneio,
Deixa os amigos e a azzurrar se fica!

Ora pois, como fez o senhor Jove,
Fez certo gran’senhor de lettras gordas
E protector das magras.—Foi milagre
Que pela intercessão foi operado
De uma a que chamam deusa da Sandice,
De outra Impostura e de outra Pedantice.

Começa o caso c’o outro parecido.

Havia em certa terra muito longe,
Lá nas pontas dos pés d’este hemispherio,
Que dizem fôra outr’ora povoada
Por certo beberrão feitor de Baccho,
Havia uma familia de animalculos,
Zoophytos, e quasi mycroscopicos,
Aos quaes Lineu, que achou nomes a tudo,
Nunca deu nome, nem especie ou genero,
Nem eu lh’o sei tambem, só sei que arrotam
Textos, medalhas, chymicas rançosas,
Que trazem n’algibeira um compassinho,
Muito accanhado, curto e pequenino,
Talhado ao molde dos miollos d’elles,
Com que querem medir todo este mundo.
D’estes pois—e aqui vai o gran’milagre—
Burros na fórma, na sciencia burros,
Mas burros mais que tudo na cacholla,
Quiz o tal gran’senhor citado acima
Fazer—ó musa o quê?—Dize, não temas,
Não fujas, dize e vai-te.—‘Uma académia’
Disse a musa e safou-se ás gargalhadas.
Mas que académia!—Oh! venham as brilhantes
De Londres, de Paris, de Petersburgo
Beber aqui sciencia não sabida
De assopradas, pomposas ninharias.
Que producções, que producções! Oh quanto
Quanto seria mais se um deus maligno,
Inimigo dos guapos academicos,
Das tres que Deus nos deu potencias d’alma
Lhes não saccasse duas á surrelfa,
Deixando só memorias e memorias...
Quanto sería mais, quanto fulgira
Em gordos, grossos, grandes calhamaços
A portugueza, majestosa lingua,
Se os novos sabios, no comêço á emprêsa,
A antigas manhas não perdendo o affinco,
Não incontrassem por desgraça nossa
C’um perfido azzurrar—zurrar malditto!...
Ficaram no azzurrar sempre zurrando.

Coimbra—1818.

Sigue explorando

Por su autor
Almeida Garrett · 66 piezas más en la casa
Dónde vive
La Biblioteca

← Os Lusiadas. Epilogo de PaggiPerfume da rosa →

Expediente

Autor
Almeida Garrett
Título
Pelo zurro o burro. Conto academico
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-pelo-zurro-o-burro-conto-academico--almeida-garrett-015c65
Cita recomendada
Almeida Garrett, «Pelo zurro o burro. Conto academico», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-pelo-zurro-o-burro-conto-academico--almeida-garrett-015c65.html

Las obras de dominio público se reproducen íntegras, con atribución y en la ortografía de su impreso. ¿Ves una errata o conoces una fuente mejor? Escríbenos desde Sobre la casa.