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PoetósferaLa BibliotecaAntónio Gomes Leal

António Gomes Leal · Vanguardias / s. XX

O Peccado

portugués

Nunca cessamos de peccar
(Imitação de Christo)

I

*Ubique doemon*

Bem sei... e mais que o sei, claro luar!
Que segundo a severa theologia,
Pelas noutes sonoras de poesia
O aroma dos lyrios faz peccar!

Quem vos diría!... madresilvas, mar,
Lilazes, claros rios, cotovia!
Que ao dizer da tirannica theoria,
Vós farieis a Carne triumphar!

Ah! Natureza, pois, se és criminosa,
E nos levam ao mal urnas da rosa,
Bom coração de Christo imaculado!...

Quantos não vês morrer, do ceu prufundo,
Cheios de sangue, como heroes no mundo,
—Exhautos dos mil golpes do Peccado!?—

II

*O Peccado*

Elle é antigo, tragico e venal,
Amando a Carne, o Crime e os assassinos,
E como a folha acerba d'um punhal,
—É quem golpeia os seios femeninos!—

É complicado, mystico, mortal,
Com sombrios escrupulos divinos,
E é quem faz estorcer os braços finos,
E escorregar a lagrima final.

No entanto, grato e funebre Peccado!
Atrahente, gostoso e desejado,
Negro nome de vicio e perdição!...

A Egreja vê em tudo as tuas chagas;
E ha muito tempo já que o mundo esmagas,
E te embriaga o sangue da Paixão!

III

*A Cidade*

Em vão busco na velha e hostil Cidade,
Beata amante, de gangrenas cheia,
As dispersas raizes da Verdade,
—Como uma flor n'um pateo de cadeia.

Quando, alta noute, D. Juan passeia,
Ella põe-lhe em leilão a mocidade,
Tratada com a mystica anciedade
Com que um sabio cultiva a flor da Idea.

Mas, comtudo ninguem receia tanto
O aspero Deus, e o lenho sacrosanto
Da dorida tragedia do Calvario!

E, ó D. Juan, ás luzes das estrellas,
Tu bem sabes se encontras nas viellas
Mais de uma vez, perdido algum rosario!...

IV

*O Inimigo*

Á genoux! Je suis Pan!
(Victor Hugo)

Ha muito que é chamado o Aborrecido,
O rebelde, o leproso, o descontente,
E eterno tentador sempre vencido,
Que habita o Ar, a Terra, e o Fogo ardente.

Elle é a hydra, a Carne, o incontinente,
O orgulho nos abysmos submergido,
O que anda sempre em nós, o cão batido,
O espirito da Duvida, a Serpente,

Mas, mau grado, ó Egreja, a tua ira,
Elle não é nem Vicio, nem Mentira,
Nem synonimo de Mal e de Impureza!...

E eu bem sei, negro symbolo apupado,
Velho satyro, vil, calumniado,
Diabo! que te chamas «Natureza!»

V

*Em toda a parte*

Elles tem dito e escripto que o Peccado
Anda disperso e roe o mundo inteiro,
Que habita o duro coração guerreiro,
E o peito femenino e delicado.

Que anda no ar, em nós, da flor no cheiro,
Das pugnas no ruido desolado,
No vinho, na paz doce do mosteiro,
—No corpo da mulher perfeito e amado!—

É portanto, homem timido e sujeito,
Quer te encostes, ou não, ao vão Direito,
O teu funebre gozo e teu tormento!

Habitua-te a tel-o na Desgraça,
No ar, no chão, na flor, no som que passa,
—E até, serpente vil, no Pensamento!

VI

*Á Janella*

Altas horas da noute, quando a rua
É deserta da onda crapulosa,
No seu caminho em meio, vagarosa,
—Abro a minha janella a ver a lua.

Como uma branca divindade nua
Ella avança celeste, e, á luz ditosa,
Qual copo de cristal que enche uma rosa,
O goivo do Peccado em luz fluctua.

Fluctua, e é nestas horas recolhidas
Que me ergo então ás cupulas subidas
D'onde se avista o mystico ideal...

E rio, e admiro o vulgo obsecado
Que cuida ver, nas beiras d'um telhado,
Abrir-se n'um craveiro a flor do Mal!

VII

*Ella*

Quando ella emfim morrer, verão os vivos
Cortando o ar uns ais de sentimento,
Como os lugubres córos dos captivos
N'um triumpho, ou n'um grande saímento.

Ouvir-se-hão soluços pelo vento,
Elogios, ais fundos, fugitivos,
Que dirão:—«Lá se vão meus lenitivos!
Morreu a Espada, a Lei, Guia e Sustento!»

O seu tumulo terá goivos e rosas,
E vãs estatuas lividas, chorosas,
E epitaphios em lugubre latim.

Terá palmas mais verdes que a Esperança;
—Mas a alma, em cima, escreverá:—Descança!
Serpente, irmã de Judas e Cain!

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Autor
António Gomes Leal
Título
O Peccado
Lengua
portugués
Época
Vanguardias / s. XX
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-peccado--antonio-gomes-leal-c3a864
Cita recomendada
António Gomes Leal, «O Peccado», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-peccado--antonio-gomes-leal-c3a864.html

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