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PoetósferaLa BibliotecaFrancisco Palha

Francisco Palha · Modernismo

O meu tinteiro

portugués

Era em agosto. O norte, desabrido,
mugindo como um toiro, sacudia
os troncos do arvoredo. Ia-se o dia:
um dia d'amarguras tão comprido
que eu cheguei a pensar que a Eternidade
nas chammas infernaes já me envolvia!
Por meu mal terminou! que um outro veio
depois d'aquelle, e foi peior mil vezes!
A minha irmã, á dôce companheira
da longinqua, saudosa mocidade,
coubera, nova ainda, a feliz sorte
de ter, após tres longos, tristes mezes
d'um filho haver perdido, achado a morte.

Antes d'ella expirar, á cabeceira,
em torno do seu leito, se agrupára
tudo quanto durante a vida inteira
fôra por ella amado, e tanto a amára.
Eu, fingindo sorrir, assim dizia:

«Agora estás melhor. No rosto as rosas
da antiga primavera! Olhos em fogo!
Uns olhos como d'antes! Vês, Maria,
que estás melhor agora?! Em desafogo
respira o peito já! Estas nervosas
dão vontade de rir! Que espalhafato!
Um cortejo de coisas! Raça estranha!
Por isso o outro fez com que a montanha
désse, aturdindo a terra, á luz um rato!
Vae a galope a enferma que melhora.
Ámanhã, ou depois, saltarás fóra
d'essa importuna cama. O que te cança
é ter o corpo ahi. Vamos a Piza
passar o inverno todo. Alli serenos
são sempre os ceus. Alli tepida a briza
dá vida a um velho! Então a uma criança!

«Tontinha é o que tu és! que estás chorando!
sem que saibas porquê, aposto, ao menos!
Iremos todos, grandes e pequenos!
Quasi uma romaria, um cirio, um bando
d'alegres passarinhos chilreando
por essa Europa além! Tu, pregoando:
Quem quer saude? Quem? Vende-se e dá-se!
irás distribuindo, co'a mão cheia
d'essas papoilas, um bouquet vermelho
que pouco e pouco a desbotada face
ha de tingir-te e... até fazer-te feia!»

—Iremos todos, sim!—fraca, tossindo,
a pobre interrompeu:—Sim!... Vamos indo.
É então ámanhã que eu d'aqui saio?
Depressa ámanhã vem! Dá-me esse espelho.
Se tu não mentes devo estar um Maio!—
Mirando-se, volveu:—A minha pena
é que... ellas... me não vejam n'este instante
em que finda a comedia e deixo a scena!
Se eu não soubesse que este mundo é um sonho;
se trouxesse o meu Deus de mim distante;
como este despertar fôra medonho!—

Depois foi repartindo as suas prendas
por quantos eram lá.

—A ti... primeiro.
Lego-te... dou-te... aquelle meu tinteiro.
Tu fazes versos. Sei que não te emendas;
sempre te serve aquillo!—

Desde ess'hora,
e já lá vão cumpridos bons trinta annos,
quando me engano a mim n'esses enganos
da musa brincalhona, raro mólho
a penna folgazã que me não traga
nos bicos uma lagrima.

Ai!... Eu ólho...
aos abysmos do mar pergunto: «A vaga,
que eu vi sumir-se, onde é?»

E o mar afaga
a praia em que a deixei, e vae-se embora,
e volta, e vae! mas não responde; chora.

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Autor
Francisco Palha
Título
O meu tinteiro
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-meu-tinteiro--francisco-palha-aa8c25
Cita recomendada
Francisco Palha, «O meu tinteiro», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-meu-tinteiro--francisco-palha-aa8c25.html

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