CADA PIEZA VIVE EN UNA DIRECCIÓN · NADA VIVE EN UNA SOLA SALA  

PoetósferaLa BibliotecaFrancisco Palha

Francisco Palha · Modernismo

O lobo e o cão

portugués

Traducção da fabula de Lafontaine—Le Loup et le Chien

Não tinha um lobo mais que a pelle e o osso.
Signal é que de orelha arrebitada
bem vigilante andava a canzoada.
Encontra o lobo um dógue forte, grosso,
nutrido, luzidio, uma belleza!
que distraído abandonára a estrada.
Sorri-lhe a nedia preza!
Saltar-lhe logo ali, fazêl-a em postas
o seu desejo fôra. Dura empreza!
A lucta era infallivel. Voltar costas
não usam perros quando são valentes,
e, mais, os brutos! dão ás vezes cabo
do fero contendor! Diabo!... Diabo!
Então aquelle, com aquelles dentes!

*

Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda;
chega-se ao cão; abaixa-lhe a cabeça;
puxa conversa; diz que folga em vêl-o,
que deixe que elle admire, que elle applauda
topal-o assim... e com tão bom cabello!...
e rijo! e gordo! Um frade! Uma abbadessa!

«Esplendido senhor»,—o cão responde;—
«de vós depende o ter igual gordura.
Fugí dos bosques, onde
por teima da desgraça
de fome e frio só achaes fartura,
vós, senhor lobo, e a vossa pifia raça.
Dias e dias sem comerem nada!
e lá por festas, raras, esquecidas,
um petisquinho conquistado á espada,
tragado ás escondidas!
Ahi é certa a morte!
Furtae-vos a seus braços!
Seguí... seguí meus passos;
tereis outro destino e melhor sorte.»
—Mas como?—volve o lobo.
—Fazer então que devo?—
«Bagatella:
nem morte d'homem nem de egreja roubo;
simplesmente estas coisas: não dar tregoa
á santa gente rôta, mendicante,
bordão n'uma das mãos, n'outra a tigela,
que vem inda a distancia d'uma legoa
e já tresanda a essencia de tratante.
Lamber as mãos ao dono; ser submisso...
dar cóca, é o termo proprio, ao dono e a todo
quanto bicho careta houver em casa.
Salario apanhareis que vos apraza:
ossos das aves, rodas de chouriço,
restos vindos da mesa, e tudo a rôdo!
Até uns tagatés em cima d'isso!»

*

Tendo prestado ao cão attento ouvido
o lobo, coitadinho!
com perspectiva tal enternecido
não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho.

*

Iam caminho já do povoado
quando o lobo notou que no pescoço
o cão era pellado.
—Que tens ahi?—pergunta em alvoroço.
«Nada, que eu saiba.»
—Nada?!—
«Frioleira.»
—Mas afinal o que é?—
«Ora!... A colleira
com que á noite me prendem junto á porta...»
—Prender-te?!—o lobo exclama.—Não saes fóra,
não corres livre pela terra inteira
quando te dá na gana, e a toda a hora?—
«Nem sempre. Isso que importa?!»
—Tanto importa que toda a trincadeira
com que me acenas, um thesouro embora,
por tal preço não quero.—
O lobo finda;
põe-se logo na perna, e corre ainda.

Sigue explorando

Por su autor
Francisco Palha · 22 piezas más en la casa
Dónde vive
La Biblioteca

← N'um albumO meu tinteiro →

Expediente

Autor
Francisco Palha
Título
O lobo e o cão
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-lobo-e-o-cao--francisco-palha-91a47e
Cita recomendada
Francisco Palha, «O lobo e o cão», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-lobo-e-o-cao--francisco-palha-91a47e.html

Las obras de dominio público se reproducen íntegras, con atribución y en la ortografía de su impreso. ¿Ves una errata o conoces una fuente mejor? Escríbenos desde Sobre la casa.