É noite de São Martinho,
rival do velho Noé.
Cae agua em logar de vinho,
e—milagre!—o meu visinho
entra em casa por seu pé!...
Memorias do alegre santo,
porque é que tanto duraes
se eu já nem bailo nem canto
dês que me deram quebranto
as peças originaes?!
Até as caras meninas,
socias minhas na funcção,
rosas, d'antes, purpurinas,
por muito favor—cravinas...
d'Ambrosio cravinas são.
Martinho, ao que chega a gente!
Ellas feitas uns pasteis
de carne velha e doente;
eu comprando cada dente
por tres e quatro mil reis!
Bem me toucaram taes flôres!
Bem com ellas me touquei!
Da cabeça agora as dôres
quem m'as faz são os tenores,
as portarias, e a lei!
A lei!... a eterna cantiga!
o eterno sarapatel!
Na nossa edade, e na antiga,
lá para uns certos—espiga;
lá para uns outros—papel.
Só uma córta direito:
só a lei da morte é egual.
Para calcular-lhe o effeito
vou, deitado no meu leito,
dormir um somno real.