Num sônho angustioso, eu vi passar por entre as oliveiras
desoladas um caixão branco, com muitas fitas rôxas...
Era ao sol-posto. Pelo ceu, uns farrapitos de nuvens, roxeádas
pelo sol agonisante, pareciam goivos sepulcráis a desfolharem-se
amarguradamente, desconsoladamente...
Atraz do caixão carpiam-se muitas virgens, vestidas de luto,
olhos ardidos pelas lagrimas...
E eu disse para as virgens:
Ó virgens, quem é aquela
Que levam prá sepultura?
Virgens, virgens! Quem é ela,
Tão nova e tão sem-ventura?!
E as virgens, desgrenhadas, lacrimosamente responderam-me:
É a linda morgadinha,
Que levam a enterrar...
Morreu ontem, á noitinha,
Ao despontar do luar...
Era a mais rica e mais bela,
Mais enleváda de amor;
E morrêu... Que sorte a déla!
Não faz idéa, senhor...
De que valeu ser tão cheia
De inteligencia e belêza?!
Chora tudo lá na aldeia:
Que tristêza! Que tristêza...
Cismava nos áureos planos
Do seu proximo noivádo:
E fêz só dezoito ânos
Pelo setembro passado...
Mais infeliz nunca vi!
Em vez de noivar, morreu...
O bom Deus quí-la pra Si:
Levou-a da terra ao Céu.
Ela era o anjo da graça,
Sempre a sorrir e a cantar...
Tudo passa! tudo passa...
Morreu!—Deixái-nos chorar.
Em noites de escamisádas,
Que se faziam pla aldeia,
Soltava canções airádas,
Ao clarão da lua cheia...
Tardes mornas de novênas,
Quando íamos enflorádas,
Como irisádas falênas,
Como rôlas desvairádas...
Ela era a flôr da alegria,
Bôca rubra, olhar de luz...
Roubou-a a morte sombría!
Roubou-a... Jesus! Jesus!
Chorái, ó brancas falênas;
Chorái, brisas murmurosas;
Chorái, ó rôlas serênas;
Chorái, relvas; chorái rosas...
De que nos vale a belêza,
Que a Morte pode roubar?!
Ai!—que vida, que tristêza.
É só penar, só penar!
E eu, muito comovido, muito triste, disse ás virgens, com
lágrimas na vóz:
Tendes razão, raparigas...
Que valem sonhos, encantos,
Loucas ilusões antigas?...
Tudo se desfáz em prantos!
Aquela tenra floríta,
Desfolhada pela morte...
—Não lhe choreis a desdita.
Não pranteêis sua sorte...
Pois, donzelas, quem nos diz
A nós—corações airádos,
Que ela não foi a feliz,
E nós os desventurados?...
Pois, afinal, esta vida,
Mesmo á luz ideal do amôr,
Sempre incerta e combalída,
—O que é ela, senão dôr?!
Uma tristêza mortal
Repassa as nossas folganças...
Ai! cachópas, ai! crianças,
Nem é bom falar em tal...
Quando ides prás romarias,
Entre murtas e alamêdas,
Como doidas cotovías,
Chilreando airádas, lêdas,
Não pensáis nesta agonía,
Que nos punge o coração...
—Levais a alma irradía,
Céguínha pla ilusão...
Mas á noite, junto ao leito,
Cismáis, á luz do luar,
Em tanto sonho desfeito...
E desatáis a chorar!
A vida é uma dôr infinda!
Por isso eu vos digo a vós
Que essa defunta tão linda
Foi mais feliz do que nós...
É déla a paz celestial.
(Olhái que faces de arcanjo...)
Morrêu santa, virginal,
Santa e pura como um anjo
*
Ó tisicas lacrimosas,
Que á tardinha, a passear,
Sfalfadítas de chorar,
Dizeis queixumes ás rosas...
Tendes saudades da vida?
Para quê?—Não vale a pêna...
Gozarêis a paz querida
Da celeste luz serêna...
E o luar irá beijar
As vossas campas musgosas.
Que dôce amigo o luar,
Ó tísicas lacrimosas...
*
E vós, cachópas, que assim
Pranteáis a que morreu,
Não solucêis, porque enfim
Ela é um anjo no Céu...
E olhái:—se a desônra um dia
Vos tem de vir, (Vossa mãe
Morreria de agonia...)
—Mais vale morrêrdes tambem
E as virgens, acenando-me um adeus, sufocádas pelas lagrimas,
lá foram seguindo o caixão, como anjos do desespêro, soluçando
em côro:
Chorái, ó rôlas serênas;
Chorái, brisas murmurosas;
Chorái, ó brancas falênas;
Chorái, relvas; chorái, rosas...
Chorái, estrelas cadentes
Como lágrimas de luz...
Chorái, ó aguas correntes...
Ai! Jesus! Jesus! Jesus!