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Francisco Palha · Modernismo

Carta

portugués

Tratante d'inspector, cuidei-te amigo
e sácas-te a mangar assim commigo!
Traição! insidia! roubo! Eu, um pelintra
que nem posso comprar um burro em Cintra,
onde a commenda magna em chammas brilha
sobre o manto azulado de escumilha
que Deus usa no v'rão, e a natureza
ironica sorri da pequeneza
d'esta baixa comedia, eu—velho! eu—calvo!
á publica irrisão a servir d'alvo?!...
Qual foi meu crime? Qual? Era deveras
menos duro entregar-me inteiro ás feras.
Ridiculo não ha na gente morta.
Fôra uma vez um Palha!... A questão corta
e não se falla mais.—
Por não ter guines,
tratante d'inspector, não me apepines.

Eu amo a sombra fria. Odeio a moda.
No bulicio d'um baile anda-me á roda
a caixa do miolo; um labyrintho
onde, perdido, entontecer-me sinto.
Moem-me as praxes; pesam-me etiquetas,
e tudo sei rasgar... menos baetas.
Por mais que mire uns outros enfeitados,
tão contentes de si, e tão coitados
que julgam ser alguem!, não sei... não acho
nem honra nem razão no berbicacho
dourado, reluzente, sol d'esmalte,
do qual em cada raio não ressalte,
ante luz de gloriosa eternidade,
um feito illustre a bem da humanidade.

D'outro modo o que é? Um mau bocado
de pão de rala a cães famintos dado:
d'um réles charlatão a taboleta,
na qual, quem passa, lê: Dom Paparrêta!
ou lê inda peior!
Mette-me á bulha,
terás aqui o rol de quanto pulha
grande se fez tal qual se torna grande
o bácoro a fossar e a comer lande.
Ai! no me pique usted! Sob o arminho
busca, e talvez encontres pergaminho
lavrado a ferro e sangue, fresco ainda,
nos coiros fuscos de infeliz cabinda.
Nem titulos pomposos nem veneras
valem dez reis furados n'estas eras.
Hoje o premio a heroes dá-se ao dinheiro.
Importa lá se é falso ou verdadeiro?!
Comprou? Correu? O mais é tudo historia.
Nem o nome villão fica em memoria.
Uma coisa é escalracho, outra—papoila.
Onde era a nódoa poz-se a lentejoila.

Ha excepções, bem sei. Dou-lhes apreço.
Morro d'amor por essas que eu conheço;
mas como a estes raros não pertenço,
e menos inda aos outros, o bom senso
manda que eu te agradeça os teus favores
e ria da mercê.
Quando tu fores,
saudade ao peito, encasacado, sério,
despedir-te de mim no cemiterio,
verás que desço á terra, oh! vista horrenda!
nusinho tal qual vim; e por commenda
inerte o coração, gasto da vida
na rude, pertinaz, obscura lida.

Tu mesmo então, artista d'olho fino,
dirás á turba:
«Emfim o peregrino
na paz eterna vai dormir agora!
Andou mettido a vida inteira á nora
d'este poço sem fundo de miserias.
Abusava do riso, das pilherias,
e d'outras coisas mais em que não fallo.
Foi Job em vez de ser Sardanapálo.
Uma raia da Sorte. Ella faz d'isto:
dá impérios ao démo, a cruz ao Christo.
Mas resta-nos, amigos, um consolo:
tudo seria... excepto um grande tolo.»

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Autor
Francisco Palha
Título
Carta
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-carta--francisco-palha-7fc489
Cita recomendada
Francisco Palha, «Carta», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-carta--francisco-palha-7fc489.html

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