É novembro, e faz um frio!
Eu então é que ando em braza!
Pudera! se o senhorio
me pede a renda da casa!
Réles cobre em vão recruto
no lidar da vida insano.
Desertam n'um só minuto
as vis poupanças d'um anno.
Embora á carne dê tratos,
á velha carne exigente,
deixando passar os pratos
sem pôr nos piteus o dente;
Embora esguia quinzena
traga já no extremo fio,
e córte a rara melena
só pelas calmas, no estio:
Não coalha esta formiga
nem grão, nem sequer paveia!
Sempre na mesma fadiga,
enche... vasa... o pé da meia!
Sob o teimoso aguaceiro
de tanta renda de casas,
depennado, em meu poleiro,
metto a cabeça nas azas.
Cança o sorrir da ventura;
o rigor da sorte cança;
só por entre o que não dura
vae sempre durando a esp'rança.
Eu espero a moradia,
onde de graça me acoite,
no seio da terra fria;
nas sombras da infinda noite!
Ao menos no eterno gelo,
nos fundos antros escuros,
não terei por pesadêlo
meus senhorios futuros!
Um é Deus: a esse um amigo
satisfaça em padre-nossos.
Outro é o verme: eu cá o espigo
dando-lhe em paga os meus ossos.