Eu nunca fui poeta. Era loucura
mostrar depois de velho pretensões
quando as não tive em horas de ventura,
de tão dôces, mas breves, illusões.
Então era a minh'alma que gemia
no vago anceio d'onde nasce o amor;
mas hoje sei que amor no mesmo dia
nasce, esmorece, e morre como a flôr.
Da meiga briza o tépido bafejo,
a rosa perfumada, o pôr do sol,
as nuvens d'oiro,—esplendido cortejo
do astro-rei, a voz do rouxinol;
Esse hymno immenso com que a terra exprime
viva saudade pela extincta luz,
se para mim então era sublime,
ai! que já por meu mal me não seduz!
Quando contemplo agora o fim da tarde,
quando ao sumir-se no crystallino mar
o facho accêso sobre as ondas arde
e vae depois nas ondas mergulhar;
Sabeis vós o que penso em tal instante?
—Vêde a que prosa vil isto chegou!—
Sabeis vós o que penso?'... o que lamento?...
O dia mais de vida que passou.
De vida, sim, meus senhores,
que não ha pechincha egual!
Só algum sarrafaçal
em horas de maus humores
grunhirá sombrio e rouco
que pelo seu fim anhela!
Eu cá por mim acho pouco
e morro d'amores por ella!
A vida saboreada
de um certo modo que eu sei.
Nem limpa-botas nem rei;
trazer camisa lavada;
bem lavada a consciencia;
libras velhas na algibeira;
ter um trem e por decencia
um garoto na trazeira.
Cadeiras... todas de braços,
fôfas como pão de ló.
Nunca dar ponto sem nó
nem pôr ponto em dar abraços.
Caçadas... feitas no prato,
e sobre a caça café.
Charutos... dos de contracto
Lib'ra nos! antes galé.
Vejam se eu dava o cavaco
ou se quebrava o toutiço
por ser tudo quebradiço
n'este mundo como um caco!
Em se quebrando... acabou-se.
Ora, adeus! Fortes lamechas!
Era bonito se fosse
ficando tudo p'ra mechas!
Amor de marrafa branca
como o cão e a cadellinha
sempre fiel! Que gracinha!...
Ao chá por baixo da banca
dando ternas pizadellas
que as meias deixam de luto,
que fazem vêr as estrellas,
e provam que o par é bruto.
Ter sempre o mesmo barbeiro
e sempre o mesmo topete!...
Á mesa do voltarete
defronte o mesmo parceiro!...
O molle ser sempre o molle!...
sempre esperto o serigaita!...
Na mesma gaita de folle
soprar quem sopra tal gaita!...
Quem pensa assim... ai! coitado!
ou perdeu todo o juizo,
ou se tem dente do sizo
pelo alveitar foi achado.
Para mim que sou amante
do que muda e do que mexe,
como havia ser seccante
o tal mundo de escabeche!
Beijar nos pulsos a algema
com que Amor nos manietava;
amanhã mandal-a á fava;
a belleza eis do systema.
Ser hoje amigo do Brito,
amanhã sêl-o dos Soisas!...
Viajar hoje no Egypto;
vêr ámanhã novas coisas!
Isto, sim, que é prazer certo!
Quem julgar que assim não presta
diga adeus a esta festa
que o cemiterio está perto!
Pois póde haver tolerancia
na China, aqui, ou em Gôa
com quem defende a constancia
que é a maçada em pessoa?!
Aqui d'el-rei porque mente
toda a humana geração!...
Grande pena!... pois então,
se mente, mente-lhe a gente.
Por mentira, mentirola.
Por esparrella, esparrella.
Assim vae esta charola:
assim é que eu gosto d'ella!
Dizem que a vida os assusta
porque em tudo encontram móca;
que o bem a todos não toca,
que a Justiça não é justa.
Eu, por mim, quero-a mais larga,
que, se acaso um dia fôr
parar-lhe ás mãos, menos carga
sobre os hombros me ha de pôr.
E se o bem me não tocar
tambem uma vez sómente,
ferro commigo no quente
e, lá, desato a chorar.
Não é mau. Dou de conselho
a quem quizer divertir-se
que chore em frente do espelho
e por força acaba a rir-se.
Chorar é bom! Quem me dera
nos tempos que já lá vão
quando, moço, o coração,
ao romper a primavera
sobresaltado tremia,
e da terra toda em flôr
juntava á meiga harmonia
doces lagrimas d'amor!
Se á vida não acham geito
porque todos têm chorado,
cá para mim vem barrado
quem lhe põe este defeito.
Elles que foram pequenos
e contra as lagrimas chiam,
de lacrima christi ao menos
um copo não beberiam?
Tal resmuneia e se queixa
que as filhas não fecha a mãe;
que a mãe namora tambem,
e mais que torna e que deixa!
Ih! Jesus!... Que gritaria!
Se a mãe as filhas fechasse,
nenhuma as portas abria.
Ai de quem as arrombasse!
Caturras! Se ha quem supponha
nas politicas regiões
que inda póde haver Catões
sendo tão rara a vergonha!...
O galante é que no jogo
cada qual puxa o seu trunfo
quando sem armas nem fogo
alcançar póde o triumpho!
Deploram republicanos
que lhes tosquiam as azas?
Pois vão lá p'ra suas casas
fazer dos creados—manos.
Os outros temem que os thronos
se despedacem? Demonio!
Não lhes resta ainda, monos,
os thronos de Santo Antonio?—
Tudo aqui se remedeia;
tudo tem facil saída
se as honras dermos á vida
d'um jantar ou d'uma ceia.
Quem tentar pôl-a a direito
perde o tempo e a razão
porque luta peito a peito
com phantastica visão.
Eu nunca fui poeta. Agora vêdes
que menos do que nunca aspiro a sêl-o.
Se espalmar-me tentei pelas paredes
do teu Parnaso, Apollo, vae-me ao pêllo!
Põe-me nú se conservo n'este fato
algum resto de parvoas pretensões,
já que o mundo como é, o mundo ingrato,
despir-me soube as dôces illusões.
Dormi. Sonhei. Do sonho hoje acordado
na prosa da verdade emfim caí;
mas como tudo tem sempre um bom lado
ganhei gordura se illusões perdi.