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PoetósferaLa BibliotecaAntónio Gomes Leal

António Gomes Leal · Vanguardias / s. XX

Canto quarto — A Lagrima de Marmore

portugués

Essa lagrima immovel que se gela
sobre as palpebras roxas dos finados,
e que eu já vi rollar funesta e bella
nas faces de dous entes bem amados,
o que é que ella nos diz? que nos revella
de profundos desejos decepados,
d'inauditas ou intimas desgraças,
que são as flores funebres das Raças?!

O que é que ella nos diz, que nos remove
até ao mais profundo das entranhas,
triste como flor onde não chove,
no cume inacessivel das montanhas?!
Dirá ella um desejo que já houve,
cheio de dôr e aspirações extranhas,
e expirou e morreu n'um mundo falso
como um amor ao pé d'um cadafalso!?...

Quando a Fome colheu do moribundo
a lagrima de marmore dorida,
poz-se logo a caminho pelo mundo
e foi vendel-a aos Principes da Vida.
Mas alguns, num desdem fino e profundo,
riram da triste offerta nunca ouvida:
outros tiveram um horror absorto
ao verem uma lagrima d'um morto!

Lembrou-se então d'um Principe potente
que vive n'um payz todo de gelo,
que ama tudo que é gélido, inclemente,
e frio como a folha d'um cutello.
Penetrou no palacio refulgente,
todo cheio de marmore e ouro bello,
e onde elle desvellava insomnias cruas
no meio de milhões d'espadas nuas.

Quando o Cesar cruel viu esse pranto
de que gostou seu genio monstruoso
á Sombra disse—Acho um secreto encanta
n'este gélido objecto curioso!...
Deixa-a ficar que causará espanto
ao meu povo selvagem tenebroso,
e assim lhe ensine n'um terror mortal
como é que gela a lagrima final!

Porém da noute no silencio frio
quando o Cesar dormia no seu leito
esta lagrima ao Principe sombrio
infundia-lhe um tragico respeito.
Das visões no terrivel desvario
via da Morte o ultimo tregeito:
e as caveiras sem olhos, nem narises,
de todos os sinistros infelizes!

E a lagrima implacavel e severa
accusava-o de todos os seus crimes
dos seus instinctos tragicos de fera,
dos mortaes que dobrava como vimes,
dos irmãos e dos Paes que elle prendêra,
e das almas viris, fortes, sublimes,
a quem seu braço sem cessar enterra
pelas entranhas humidas da terra!

E o Despota na lagrima parada
lia a lenda de todos que sem nome
sobre a neve, ou na mina bronzeada
tinham morrido esqualidos de fome:
via os prantos da plebe esfarrapada
que n'um suor esteril se consome:
e os clamores formidaveis, justiceiros,
dos prantos de milhões de mineiros!...

Fugiu logo do leito insupportavel,
e por todo o palacio vaga errante.
De manhã chama a Sombra miseravel
e entrega-lh'a, com mão febrecitante:
Leva d'aqui—lhe grita—esse implacavel
tormento, que é mais frio que um brilhante,
porque de prantos tenho um cemiterio
no gelo excepcional do meu imperio!

Lembrou-lhe então á Fome ir offertal-o
de Roma ao mais sinistro inquisidor.
Deixa á porta o seu pallido cavallo.
Penetra cheia d'um mortal terror.
Quando o sicario a viu sentiu abalo
e disse á Fome—Eu gosto d'esta flor
que florece nos mortos, como lyrios
que gelaram nos olhos dos martyrios!

Porem da noute no silencio enorme,
a fixidez da lagrima impassivel
olhava-o como um olho frio e informe,
e accusava-o de tudo que ha de incrivel,
Accusava-lhe a alma, antro desforme;
e estendia-lhe então n'um sonho horrivel
de eternos prantos um gelado mar
—como uma immovel solidão polar.

E ao bandido lembravam-lhe as torturas
dos que vira morrer nos seus flagicios,
de todas as sinistras creaturas
a quem passara a esponja dos supplicios.
E as disformes e energicas figuras,
com blasphemias, gritavam-lhe os seus vicios,
e entre injurias, mostravam, justiceiras
os braços calcinados das fogueiras.

Envia de manhã chamar a Fome,
e á Sombra grita com sorriso duro,
podes levar a lagrima sem nome,
e esconde-a bem no antro mais obscuro.
Como uma pedra que o abysmo some
faze que ella se suma; e no futuro
não me tragas jamais estes espelhos
dos que morreram contra os Evangelhos!

Quando a Fome largou os dous sicarios
foi procurar o rei dos mais banqueiros,
que era tambem senhor dos usurarios,
cujos navios eram aos milheiros.
O palacio valia os mil erarios
dos principes mais ricos estrangeiros.
E as suas sallas tinham cem figuras
das mais raras e nuas esculpturas.

Quando o banqueiro viu a extranha offerta
disse n'um tom ironico e orgulhoso,
«A vida d'um poeta é pobre e incerta!
Mais mesquinho o seu pranto angustioso!
Comtudo, como a fome vil te aperta,
guardarei este pranto curioso,
e na alcova a porei, como memoria
de que vai tudo Ouro, e nada a Gloria!

Porem, de noute no silencio fundo,
a lagrima impassivel fixa, dura,
recordava-lhe os prantos que no mundo
fizera derramar a sua usura.
E n'um estar immovel e profundo,
como um espectro d'uma sina escura,
todos choravam, n'este pesadello,
—inconsolaveis lagrimas de gelo!

Levantou-se o banqueiro torturado
e mal a aurora avermelhou a terra,
chamou a Fome, e livido, aterrado,
disse á Sombra—«Confessa-me o que encerra
esse impassivel pranto amargurado
que não sei o que tem me gela e aterra,
tendo eu só n'estas salas cem figuras
das mais ricas marmoreas esculpturas?»

«Não sei—a Sombra disse:—Teem-me dito
o mesmo, muitos grandes assassinos.
É que esse pranto foi talvez o grito
do Genio contra o injusto dos destinos.
É que o Genio é o açoute do Infinito
contra os crimes, e os grandes desatinos,
e mesmo sob os goivos mortuarios
regela ainda as almas dos sicarios!

Depois d'isto ninguem mais quiz o pranto!
Todos riam do extranho d'essa offerta.
Uns fugiam da Fome com espanto.
Outros julgavam-lhe a razão incerta.
Uma virgem, porem, d'um rosto santo
bradou, a face de rubor coberta:
—Eu amei d'um poeta a fronte amada!
Ai! quem déra essa lagrima gelada!

«Porem nada te dou, por que sou pobre,
a ti que és pobre como eu sou tambem.
Sobe acima do azul que a todos cobre,
acima dos Despresos, do Desdem.
Sobe acima da Dôr que é grande e nobre,
mais acima dos astros, mais além
do Egoismo, da Inveja, e da Cubiça,
e vai leval-a ao throno da Justiça!

Então a Sombra abandonou o mundo,
e ergueu-se logo acima das espheras,
longe da Besta d'Ouro e Vicio immundo,
para longe dos Tempos e das Eras,
perto do abysmo do insondavel fundo,
onde teem corpo as lucidas chimeras:
montada n'um cavallo horrendo e feio,
sem estribos, sem redeas, e sem freio.

Quando ella contemplou em baixo a terra,
humillimo planeta grão d'areia
preza do Tempo e insaciavel Guerra
e onde a raça dos mortaes ondeia,
ella que nada já commove e aterra,
que nenhum pranto d'um estranho anceia,
sentiu brotar no secco coração
a rubra e extranha flor da Indignação.

Ella atravez passara d'almas, vidas,
e dos martyres lugubres descalços,
das jovens mães crueis infanticidas,
das illusões e dos sorrisos falsos,
atravez das eternas despedidas,
dos crimes, dos incestos, cadafalsos,
e de todos os crimes e desgraças
que são os fructos tragicos das Raças.

Ella atravez passara d'essas almas
aonde em prantos s'escreveu jámais,
das grandes solidões das neves calmas,
atravez das galés, dos hospitaes,
atravez das blasphemias e dos ais,
das glorias, dos triumphos, e das palmas,
e atravez sempre! sempre! do gemido
do Genio eternamente perseguido.

Por isso quando foi perto do throno
da terrivel Justiça, da Immutavel,
ia ainda indignada do abandono
em que se afunda o Genio inconsolavel.
Como os nordestes varrem pelo outomno
as roseiras, assim ella implacavel,
tinha varrido toda a piedade
contra a dura e egoista Humanidade.

Mal a viu a Justiça disse—ó Fome
o que é que trazes da sombria Terra?
Trazes um ai do que morreu sem nome?
Sonho de virgem que teu braço enterra?
Trazes um riso que o infeliz consomme?
Ultimo beijo em que um amor s'encerra?
Trazes um grito, um desalento fundo?
Trazes um pranto de que riu o mundo?

Trago mais que isso replicou sombria
a magra Fome, apresentando o pranto:
—Eu trago-te esta lagrima tão fria
como o gume da Espada justo e santo.
Eu trago-te este pranto d'agonia,
e que a ti mesmo causará espanto,
pranto que gelou como uma esperança,
pranto que clama um grito de vingança!

A Fome então narrou, succintamente,
a historia da lagrima marmorea.
Narrou toda essa vida descontente,
toda essa tragedia tão sem gloria;
seu genio, seu destino, e febre ardente
do Bello, e de gravar-se na memoria,
e esse pranto tão triste e tão profundo,
que só o quiz uma mulher no mundo!

Ao acabar ergueu-se ferozmente
a Justiça em seu throno, commovida,
e clamou com um brado omnipotente
tal que as origens abalou da Vida:
«—Eu juro pelo sangue do innocente,
por mim, por esta lagrima caida,
pelo Ceu, pela Dôr, e pelo Espaço,
por minha espada, e força de meu braço;

por tudo que ha de justo e de terrivel,
por tudo que ha de santo e d'implacavel,
pelo pranto que cae no Invisivel,
e o soluço que rolla no insondavel,
que não destruo ó mundo, ó insensivel,
planeta! essa vida miseravel,
por ter havido uma mulher que quiz
um desolado pranto d'infeliz!

«Mas já que o não quizeste ó Terra fria,
quero-o eu, de continuo, na presença!
Quero tel-o de noute, quer de dia,
como um sonho constante em que se pensa!
Quero ter esta lagrima sombria,
para um dia lavrar tua sentença!
Quero tel-o ante mim, como lembrança:
para lembrar-me de que sou Vingança!

«Quero tel-o ante mim, ah! como um grito,
que me recorde os tristes que sem nome
hão estendido os braços no Infinito,
na sêde de Justiça que os consome!
Quero tel-o ante mim, como o afflicto
brado do Genio que morreu á fome,
e que vos prove d'esta espada os brilhos,
de que vós, ó Poetas, sois meus filhos!»

Assim disse a Justiça. E desde então
ante ella jaz o pranto eternamente,
para provar que se não verte em vão
a lagrima, na terra, do innocente:
que a natureza é mãe, e o Genio irmão
do espirito dos astros refulgente
e que a Justiça sopra a sua ira
nas cordas vingadoras d'uma Lyra.

Eu não sei se entendestes o sentido
Occulto e justo d'esta allegoria,
se fiz ondular bem a vosso ouvido
os tenebrosos sons d'esta agonia?
E vós, ó tristes! tristes! que haveis ido
tranzidos repousar na valla fria,
esquecidos, inglorios, sem um pranto
a lagrima acceitai d'este meu canto!

Acceitai este canto, como preito
craneos de lava que não orna o louro!
e emfim morrestes, porque o vosso peito
bateu nas pedras, d'entre as nuvens d'ouro.
Acceitai n'esta lagrima o respeito,
vós que encontrastes só riso e desdouro!
e que em vez do festim do que trabalha,
não tivestes nem louros, nem mortalha!

Acceitai n'esta lagrima o protesto
de muitas gerações de rebellados
contra o abandono insolito e funesto
do mundo silencioso aos vossos brados!
Em vez do riso, insulto, e do doesto,
acceitai nossos pezames irados,
e n'este canto, ó mortas existencias!
os protestos de muitas Consciencias!

E tu, ó mundo, aprende-o! D'ora avante
não mates mais o Genio que irradia!
Não s'ergam nunca mais ao ceu distante,
Contra ti, magros braços d'agonia!
Por que hoje, sabe-o bem! fixa e brilhante,
está clamando e bradando noute e dia,
acima d'Odios, Prantos, e Cubiça,
a lagrima marmorea ante a Justiça.

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Autor
António Gomes Leal
Título
Canto quarto — A Lagrima de Marmore
Lengua
portugués
Época
Vanguardias / s. XX
Sala
La Biblioteca
Identificador
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Cita recomendada
António Gomes Leal, «Canto quarto — A Lagrima de Marmore», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-canto-quarto-a-lagrima-de-marmore--antonio-gomes-leal-f448c3.html

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