Quando no mundo o Genio abandonado
expira á fome e ao frio, indignamente,
um livido remorso ensanguentado
sacode o mundo tenebrosamente.
Como o arrepio d'um terror sagrado,
alguma cousa grita intimamente:
como uma voz terrivel que suspira
nas cordas vingativas d'uma Lyra.
E essa Lyra é só feita d'ameaças.
Essa Lyra é só feita de vinganças.
Essa Lyra só falla de desgraças,
d'antigos crimes, de crueis lembranças.
Essa Lyra espedaça e quebra as taças,
calla os festins, e faz parar as danças,
e essa Lyra ai! da tragica innocencia
é a Lyra terrivel da Consciencia.
E a Lyra diz: O que fizeste, ó mundo!
das grandes almas unicas, sagradas,
das grandes frontes d'um sonhar profundo
que eram as frontes as mais bem amadas?
O que fizeste d'esse abysmo fundo
de vontades mais rijas do que espadas,
d'esses simples e santos corações
que faziam chorar as multidões?
O que fizeste d'essas linguas d'ouro
que sabiam pregar como os prophetas?
Como enxugaste o seu comprido chôro?
Como arrancaste as ponteagudas settas?
O que fizeste, ó mundo! do thesouro
que vós homens mortaes chamais poetas:
mas cujo nome d'harmonias bellas
só o sabem as Cousas e as Estrellas?
Deitaste ao lodo, á rua, e aviltamento
esses que adora a Natureza inteira,
esmagaste entre as pedras o talento,
os seus craneos quebraste, na cegueira!
As suas cinzas espalhaste ao vento!
Profanaste os seus louros na poeira!
E repousam sem lastimas nem lousas
os que viam as lagrimas das Cousas!...
Por isso me ouvirás em toda a parte
como um soluço e um grito vingador,
n'uma alta torre, atraz d'um baluarte,
entre os festins, nas convulsões do amor.
Na paz, ou levantando o estandarte
da guerra, escutarás a minha Dôr.
Por que eu, ó mundo! guarda-o na lembrança,
—Eu sou a Lyra, e a minha voz Vingança!
E o mundo escuta, indefinidamente,
a voz da Lyra a protestar terrivel.
Ouve-a na sombra, ou pelo sol poente,
se o vento dobra o cannavial flexivel,
ouve-a nos sonhos, ouve-a intimamente,
n'uma continua musica inflexivel,
até que emfim vencido n'esta liça
o mundo clama: Faça-se a Justiça!—
Era uma noute livida e chuvosa,
ermas as ruas, ermas as calçadas.
Nada cortava a solidão brumosa,
nem ais d'amor, nem gritos de facadas.
Das nuvens colossaes acastelladas
sómente a meia lua silenciosa,
boiava em morto ceu ermo d'estrellas,
como um navio que perdeu as vellas.
Quem é que cruza á chuva e á ventania,
á meia noute, as ruas solitarias?
És tu santa Miseria, que de dia
foges da luz do Sol, o pai dos párias?
Ou és tu Fome ou Vicio, que sem guia,
vaes nas noutes sem lua, mortuarias,
provocar o Deboxe e os estrangeiros
á baça luz dos tristes candeeiros?
Ó Destino! ó Destino!—eu sei a historia
de muitas das tragedias soluçantes,
de muito nome que esqueceu a Gloria,
de muitos prantos que cairam d'antes!
Sei que riscam teus dedos flammejantes,
como uma sina má, muita memoria,
e que nada ha maior e mais escuro
do que o brilhante e o bronze do teu muro!
Mas não quero contar o drama agora
do Brilhante, do Leque, e do Farrapo,
da meretriz que no bordel descóra,
do amor do Charco, do histrião, do sapo;
nem a farça de sangue a toda a hora,
do Ouro e do Velludo—o rico trapo,
nem a sina immoral sinistra e crua
da historia diabolica da Rua.
Um dia eu contarei a extranha lenda
ó Destino! dos teus encantamentos,
seguirei, passo a passo, a tua senda
ó Miseria! e direi os teus tormentos.
Para que a alma da Ralé aprenda,
contarei os crueis temperamentos,
Direi o Incesto a amamentar os filhos,
e o Parricida a esvasiar quartilhos.
Um dia accenderei a selva escura
das almas que suffocam á nascença,
das noutes só riscadas d'amargura,
como um phosphoro risca a treva densa.
E com a ponta d'um brilhante duro
marcar-te-hei ó tragica Doença
que vais, limpando as lagrimas internas,
fazer um toast á Morte nas tabernas.
Um dia evocarei os teus mysterios,
ó tragedia da Rua e os teus segredos,
mais funestos que os tristes cemiterios,
mais profundos que os bastos arvoredos:
direi sonhos, desejos quasi ethereos,
desejos que teem azas nos degredos,
d'uma alma que ama o Azul, o Azul almeja,
como a agulha da torre d'uma egreja.
Um dia esfiarei todo o rosario
da Innocencia e da Fome aventureira,
do Luxo, do Egoismo solitario,
do Genio soluçante na trapeira,
da Virtude embrulhada em seu sudario,
pedindo esmolla á sua irmã rameira,
e o Crime dando bailes d'apparato,
em quanto o Justo expira no grabato.
Descobrirei as contas da Avareza
junto ao esquife d'uma virgem bella,
o Tedio bocejando á lauta meza,
a Fome da mansarda na janella,
a Inveja ululando contra a preza,
como uiva á lua a lugubre cadella,
e o Suicidio, nas manhãs geladas,
espedaçando o craneo nas calçadas.
Um dia cantarei a ladainha
da Desgraça e da Forma triumphante,
da Espada que tilinta na bainha,
da Mascara que ri e passa avante,
da Fome que ergue as mãos e se definha,
do Leque, da Batina, e do Brilhante
das lagrimas mortaes do eterno Entrudo,
das miserias do Cancro e do Velludo.
Por que tem muito que cantar o imperio
e o inferno da Carne e dos desejos,
porque é eterno e livido o mysterio
da Morte. São eternos os almejos.
Por que ha lagrimas do berço ao cemiterio,
ha lagrimas no Amor e até nos beijos,
prantos communs e de grotescos traços
nas miserias dos reis e dos palhaços.
Porque tem muito que cantar as scenas
ó Rua! das extranhas odysseas
das tuas festas, procissões serenas,
do negro sangue que te agita as veias.
Por que ha remorsos, lagrimas e penas
entre os motins e os frenesins das ceias.
Por que n'esta funesta e eterna farça.
ai! tanto chora o actor como o comparsa.
Por que ha bastantes corações vencidos,
altos desejos que não mais voaram,
sinistros ais e intimos gemidos
lagrimas mudas que se não choraram.
Sim, ha soluços que não são ouvidos,
lagrimas mortas que se congelaram,
n'uma miseria, um abandono nobre
como um enterro n'uma rua pobre!
Porque ninguem conhece onde termina
o tregeito que rí, soluça, engana,
porque a eterna Mascara domina,
e é uma esfinge cada face humana.
Porque a Morte em nós ceifa uma ruina,
quando nos rouba na aza deshumana,
e esta mulher que ri com tanta graça,
é talvez uma lagrima que passa!
Mas agora eu só conto o Irrevogavel,
mais monstruoso do que um sonho ardente,
conto a historia funesta, inexoravel,
do Genio morto á fome, indignamente.
Quero narrar o que é o innarravel!
fazer sentir o que jámais se sente,
fazer chorar o choro masculino
Do Genio contra a noute do Destino!
O Genio é um archanjo refulgente
que enrista a lança contra a escura Sorte,
tem no seu gesto uma expressão potente,
que diz: eu quero! e empallidece a Morte.
Para o Vulgo porem vil inclemente,
e o Destino esse cego antigo e forte,
é um guerreiro tragico e proscripto,
e a fronte tem como um luar maldito.
Este vulto, portanto, que caminha
altas horas, ao frio das nortadas,
é Camões que de fome se definha
nas ruas de Lisboa abandonadas.
É Camões a que a Sorte vil mesquinha
faz em noutes de fome torturadas,
elle o velho cantor d'heroes guerreiros!...
vagar errante como os vis rafeiros.
Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
o seu amparo e seu bordão no mundo,
morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
no seu peito deixando um vacuo fundo.
Hoje pois triste, velho, sem abrigo,
faminto, abandonado e vagabundo,
tenta esmollar tambem pelas esquinas.
Ó lagrimas!.. Ó glorias!.. Ó ruinas!..
Mas não estende o valoroso braço,
que outr'ora trabalhou entre os guerreiros,
a mão recusa-se a suster o passo
dos transeuntes raros, sobranceiros.
A Fome roe-o, curva-o o cançasso.
Cospem-lhe a neve, a chuva, os aguaceiros.
Ó calçadas fataes! nas enxurradas
vae muito fel de lagrimas choradas.
Ó Capitães! Ó Capitães egoistas!
duras velhas mais duras que o granito!
ha caso mais sublime às vossas vistas
que mais vos deva merecer um grito,
mais negro, mais cruel para os artistas,
mais sagrado, dramatico, infinito,
que mais abale os nobres peitos francos
que um Genio pobre e de cabellos brancos!?...
O Genio continua á ventania
a errar pelas ruas silenciosas,
como um espectro que dissipa o dia,
como as grandes estatuas dolorosas.
Assim a noute vaga, na agonia
dos martyres das noutes trabalhosas,
até que o sol jorrou pelas viellas,
e ensanguentou os olhos das janellas.
Começam-se a ouvir esses rumores
das capitaes egoistas acordadas,
a musica dos carros chiadores
que chegam das aldeias retiradas.
Recomeçam as pombas seus amores
sobre as brancas egrejas penduradas,
e nas torres dos astros companheiras,
a palpitar, nas glorias, as bandeiras.
Começam-se a ouvir as matutinas
musicas da cidade, e as alegrias
dos gallos com as notas crystallinas
dos sinos com extranhas simphonias.
O sol lava de glorias as collinas
as torres, os beiraes, as gelosias,
e como a moça que um amante beija
avermelham-se os vidros d'uma egreja.
Dos passaros retinem os gorgeios
nas arvores, nas pontas dos eirados,
os vis riachos, os lodosos veios,
correm ralhando, ao sol, precipitados,
os cavallos remordem os seus freios,
vão passando aldeões para os mercados,
e atraz dos lentos carros os boieiros
veem sombrios, graves, e trigueiros.
Somente ao Genio uma tristeza enorme
entenebrece todos os ruidos,
como um sombrio coração que dorme,
que já não tem nem sonhos, nem gemidos!
Só sente uma saudade extranha, informe,
como aroma dos tempos revolvidos,
das grandes selvas, sombras e palmeiras
quando o sol desce as ingremes ladeiras.
Os aldeões tisnados dos trabalhos,
recomeçando as horas das fadigas,
recordam-lhes os épicos carvalhos
a sombra, os bois, as sestas tão amigas!
Fazem lembrar-lhe as curvas dos atalhos,
a ermida, a fonte, os fenos, e as cantigas,
que elle escutara, pelas luas claras,
ás louras raparigas nas ceáras!
Lembram-lhe a India, os templos monstruosos,
com seus deuses terriveis, singulares,
as arvores de fructos venenosos,
as bastas selvas, os gentis palmares!
Lembram-lhe os tigres ruivos, sequiosos,
que vão beber a rios como a mares,
e pelas noites immortaes, eternas!
o luar nas figueiras das cisternas
E elle quizera achar-se em alto monte,
em cima tendo os astros por juizes,
dizendo adeus ao sol no horisonte,
acabar os seus dias infelizes:
na boa terra Mãe deitar a fronte
e entre as vegetações, entre as raizes,
misturar sua vida e acerbas dores
com as almas das plantas e das flores!
Para o velho cantor eram fugidos
ai! como luz que para sempre expira,
os bellos tempos jovens e lusidos,
as mulheres ideaes que o Amor inspira!
Rotos, á chuva, os tragicos vestidos,
posta de parte, empoeirada a lyra,
achava-se hoje n'uma rua, ó mundo,
velho, faminto, pobre, e moribundo!
Sem ousar mendigar, como um vadio,
vaga nas ruas da Cidade egoista.
A tarde chega, o bello sol fugiu.
A noute vem, que o coração contrista.
Irrompe a lua sobre a verde crista
d'um monte ao longe, e no lagedo, ao frio,
o Genio cae emfim, hirto e sem falla,
como um cadaver que se deita á valla.
N'este momento uma mulher gigante,
que pareceu sair d'um pesadello,
pallida e triste, qual saudade errante,
deixando ao vento as ondas do cabello,
tão magra como a Sombra, o seu semblante
toldado d'um desgosto immenso e bello,
chegou-se ao Genio hirto e abandonado,
como a visão d'um sonho torturado.
E disse-lhe: Bem perto d'esta rua
dar-te-hão, ó mendigo, uma guarida,
não dormirás á lividez da lua
e terás leito onde acabar a vida.
Se a Sorte t'esmagou, a Sorte crua,
ergue a cabeça pallida e abatida,
e ri contente, ó triste, para a eça,
que em breve vai findar a tua peça!
A mulher ajudou a levantal-o.
Cingiu o braço ao Genio moribundo.
A Morte que passava em seu cavallo
deu-lhe um sorriso livido e profundo.
—O teu semblante, ó velho, dá-me abalo,
disse a mulher. Não é vulgar no mundo!
Dize-me pois que cousas tenebrosas
te hão cavado essas rugas dolorosas!
«Eu fui—o Genio disse—um malfadado
cantor d'heroes e feitos dos antigos!
Amei tudo que é grande e desejado,
e terrivel luctei contra inimigos!
Sentei-me no castello derrocado,
no deserto solar, cruzei os p'rigos!
E com saudade emfim d'estas collinas,
quiz expirar-lhe, um dia, entre as ruinas!
«Ninhos fizeram no meu peito amores,
como andorinhas sobre as cathedraes!
Conheço o aroma das malditas flores!
Sei os soluços dos compridos ais!
Sobre o deserto pallido das Dôres,
ninguem como eu peregrinou jamais!
E pelas noutes regeladas, cruas,
chorei com fome, errando, pelas ruas!
«Porém que porta negra agora abriste?
Que aspecto é este morto e desolado?
Acaso o inferno depois d'isto existe?
Acaso é pesadello desmanchado?»
—Cala-te! disse a Sombra magra e triste,
Cala-te, ó Genio immenso, desgraçado!
E com sorriso d'expressão fatal
a Sombra concluiu—É o hospital!