Anjo es tu, que esse podêr
Jamais o teve mulher,
Jamais o hade ter em mim.
Anjo es, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu podêr.
Anjo es tu, não es mulher.
Anjo es. Mas que anjo es tu?
Em tua frente annuviada
Não vejo a c’roa nevada
Das alvas rosas do ceo.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o veo
Com que o soffrego pudor
Vela os mysterios d’amor.
Teus olhos têem negra a côr,
Côr de noite sem estrêlla;
A chamma é vivaz e é bella,
Mas luz não tem.—Que anjo es tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jehovah ou Belsebú?
Não respondes—e em teus braços
Com phreneticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... Lagryma?—Escaldou-me...
Queima, abraza, ulcéra... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo malditto,
Que este ardor que me devora
É ja fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?
Em que mysterios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo es tu ou es mulher?