CADA PIEZA VIVE EN UNA DIRECCIÓN · NADA VIVE EN UNA SOLA SALA  

PoetósferaLa BibliotecaAlmeida Garrett

Almeida Garrett · Romanticismo

Aquella noite!

portugués

Era a noite da loucura,
Da seducção, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glórias esconder.
Os felizes... e ai! são tantos!...
—Eu por tantos os contava!
Eu que o signal de meus prantos
Do afflicto rosto lavava—
Os felizes presumpçosos
Iam nos coches ruidosos
Correndo aos salões doirados
De mil fogos alumiados,
D’onde em torrentes sahia
A clamorosa harmonia
Que á festa, ao prazer tangia.

Eu sentia esse ruido
Como o confuso bramar
De um mar ao longe movido
Que á praia vem rebentar:
E disse commigo:—‘Vamos,
Os luctos d’alma dispamos,
Á festa heide ir tambem eu!’

E fui: e a noite era bella.
Mas não vi a minha estrêlla
Que eu sempre via no ceu:
Cubriu-a de espesso véo
Alguma nuvem a ella,
Ou era que ja vendado
Me levava o negro fado
Onde a vida me perdeu?

Fui; meu rosto macerado,
A funda melancholia
Que todo o meu ser revia,
Qual o atahude levado
A egypcio festim, dizia:
—‘Como vós fui eu tambem;
Folgae, que a morte ahi vem!’
Dizia-o, sim, meu semblante,
Que, onde eu chegava, o prazer
Cessava no mesmo instante;
E o labio, que ia a dizer
Doçuras de amor, gelava;
E o riso, que ia a nascer
Na face linda, expirava.
Era eu—e a morte em mim,
Que só ella espanta assim!

Quantas mulheres tam bellas
Ebrias de amor e desejos,
Quantas vi saltar-lhe os bejos
Da bôcca ardente e lasciva!
E eu, que ia chegar-me a ellas...
Para logo a fronte esquiva
De recatos se involvia
E, toda pudor, tremia.

Quantas o seio anhelante,
Nu, ardente e palpitante
Andavam como intregando
Á cubiça mal-desperta,
Gasta ja e desdenhosa,
Dos que as estavam mirando
Com vaga luneta incerta
Que diz:—‘Aquella é formosa,
Não se me dava de a ter.
E esta? É só baroneza,
Vale menos que a duqueza:
Não sei a qual attender.’

E a isto chamam prazer!
A grande ventura é ésta?
Vale a pena vir á festa
E vale a pena viver.
Como então quiz á tristura
Do meu viver isolado!
Fique-se embora a ventura,
Que eu quero ser desgraçado.

Levantei alto a cabeça.
Senti-me crescer—e a frente
Desanuviar-se contente
Do feio negrume espesso
Que assustava aquella gente.
Logo os surrisos cabiam
Para o meu lado tambem:
Ja como um dos seus me viam,
Que em mim não viam ninguem.
Eu, de olhos desincantados,
A ellas, como as eu via!
Meus enthusiasmos passados.
Oh! como eu d’elles me ria!

Frio o sarcasmo sahia
De meus labios descorados,
E sem dó e sem pudor
A todas fallei de amor...
Do amor bruto, degradante
Que no seio palpitante,
Na espadua nua se accende...
Amor lascivo que offende,
Que faz corar... Ellas riam
E oh que não, não se offendiam!

Mas a orchestra bradou alta:
—‘Festa, festa! e salta, salta!’
Os seus guizos delirantes
Sacode louca a Folia...
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem n’os ouvia?
As palavras meias dittas,
Meias nos olhos escrittas,
Voavam todas perdidas
Dispersas, rotas no ar;
Que se foram almas, vidas,
Tudo se foi a walsar.

Quem é ésta que mais voltas
Gyra, gyra sem cessar?
Como as roupas leves, sôltas,
Aerias leva a ondular
Emtôrno á fórma graciosa,
Tam flexivel, tam airosa,
Tam fina!—Agora parou,
E tranquilla se assentou.
Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o profil;
E a cabeça, tam gentil,
Como se fôra devéras
A rainha d’essa gente,
Como a levanta insolente!
Vive Deus! que é ella... aquella,
A que eu vi na tal janella,
E que triste me surria
Quando passando me via
Tam pasmado a olhar para ella.
A mesma melancholia
Nos olhos tristes—de luz
Oblíqua, viva mas fria;
A mesma alta intelligencia
Que da face lhe transluz;
E a mesma altiva impaciencia
Que de tudo, tudo cança,
De tudo o que foi, que é,
E na erma vida só vê
O raio da vaga espr’ança.

—‘Pois isto sim que é mulher’
Disse eu—‘e aqui ha que ver.’

Ja vinha a pallida aurora
Annunciando a manhan fria,
E eu fallava e eu ouvia
O que até áquella hora
Nunca disse, nunca ouvi...

Toda a memoria perdi
Das palavras proferidas...
Não eram d’estas sabidas,
Nem quaes eram não n’o sei...
Sei que a vida era outra em mim,
Que era outro ser o meu ser,
Que uma alma nova me achei
Que eu bem sabia não ter.

E d’ahi?—D’ahi, a historia
Não deixou outra memoria
D’essa noite de loucura,
De seducção, de prazer...
Que os segredos da ventura
Não são para se dizer.

Sigue explorando

Por su autor
Almeida Garrett · 66 piezas más en la casa
Dónde vive
La Biblioteca

← Anjo esAs duas rosas →

Expediente

Autor
Almeida Garrett
Título
Aquella noite!
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-aquella-noite--almeida-garrett-9ecefb
Cita recomendada
Almeida Garrett, «Aquella noite!», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-aquella-noite--almeida-garrett-9ecefb.html

Las obras de dominio público se reproducen íntegras, con atribución y en la ortografía de su impreso. ¿Ves una errata o conoces una fuente mejor? Escríbenos desde Sobre la casa.