Ja mais veloz corria o espaço usado
Que as horas marca ao dia
O deus que atrás de Daphne
—Infructuoso trabalho!—dera ás gambias;
E aos braços d’Amphitrite ia mais cedo
Dos trabalhos da luz gosar nas trevas
Desejado descanço.
Iam seccando pelo prado as hervas,
E o verde-escuro dos frondosos montes
Amarello cahia;
Sentado aopé da magustal fogueira,
Vermelho e rubicundo
O bemdito e louvado San’ Martinho,
—Que a cega antiguidade,
Por não tomar a bulla da cruzada,
Nem jejuar aos dias de jejum,
Baccho chamava em sua escandalosa
E misera ignorancia—
Bastas fazia navegar, nos máres
Da barriga sanctissima,
As puchantes castanhas;
Banhos e quintas ao socêgo antigo
Despovoados tornavam;
Voava a folha, sibilava o vento,
E em fim, sem metaphoricas periphrases,
Era ja meio outomno.
Amor, Cupido, ou Ero, ou qual mais gostem
Dar-lhe baptismo ou chrisma,
Comtanto que não chegue
A tanto o desafôro
Que ousem—como eu ouvi, por meus peccados,
Co’estes que a terra um dia
Ou mar tem de comer—
Por louca affectação de Anglo-mania,
(O que não farão modas!)
Chamar-lhe em Portuguez... chamar-lhe Love!
Amor pois ou Cupido,
—Que assim nossos avos sempre disseram
Em tempos venturosos
Que tudo se chamava por seu nome,
Que ás bellas se dizia
Em Portuguez sincero e sem malicia
O que hoje é fôrça rebuçar no manto
De alegoria equivoca—
Amor, do rebulicio da cidade,
Do barulho infastiado,
Farto ja de frexar c’os aureos tiros
Os corações tam gastos,
Usados, velhos, estropiados, frouxos
Da gente que a povoa,
Para o campo fugiu d’onde ella foge.
Lá nos singelos bosques,
Nas simplices cabanas
Singelos corações, simplices almas
Espera achar ainda
Em Daphnis e Amaryllis.
Por um ameno solitario valle,
Em seus projectos imbebido o numen,
Caminhava... eis da incosta d’um outeiro
Ve descendo gentil, esbelta dama
Que bem, no airoso infeite,
No perluxo das modas,
Conheceu que não era habitadora
Da rustica espessura.
Fugi-la quer; mas sentimento occulto,
Que entre nós ca na terra
Se diz curiosidade,
—Não sei como no ceo lhe chamam numes!—
Sentimento imperioso
No sexo lindo que nos doira a vida...
—Que a doira se gosar sabemos d’elle,
Que aos parvos a invenena—
Este o reteve, suspendeu-lhe os passos.
Quem será? Quer sabê-lo.
Ei-los junctos; e Amor que á bella dama
Cortezmente sauda:
—‘No campo ainda e só, quando á cidade
Apressurada corre toda a gente!
Tam delicada, tam formosa dama
Da quadra desabrida
Os insultos não teme?
Foge acaso o prazer da sociedade,
E n’estas mudas selvas
Vem porventura, desgraçada amante,
Chorar na soledade?’
Não gostou do cortejo e cumprimento
A nympha bella, desdenhosa e dengue;
Offendida que o nome lhe ignorassem,
Orgulhosa responde:
—‘Conhece-me o universo; em toda a parte
Templos, altares tenho;
Domino os corações, govérno as almas,
Sou uma deusa, e chamo-me Vaidade.
Por mim co’a morte, c’os revezes lucta
O guerreiro no campo;
E ante o espelho traidor consomme a vida
A belleza que aos annos se não rende:
Por mim o litterato sôbre os livros
Curva a frente abrazeada;
Por mim nos gestos, no fallar se estuda
O adamado peralta;
Por mim vivem contentes satisfeitos
Os que menos razão têem de viverem;
E o mago meu podêr se estende a tanto,
Que entro no seio mesmo aos que me offendem,
Desprezam e injuriam.
Por meu influxo, n’esse proprio escripto
Em que me insulta o sabio,
Corrige e apura o sabio o stylo, a penna,
Aos louvores armando.
Eu as suberbas, elevadas cupulas
Ergo de vãos palacios;
E até na estancia gellida da morte,
Nas mentirosas lapidas
Lavro pomposas lettras
Que a inganado porvir levam memorias
De parvos, de maus reis, sanctões Tartufos,
De tonsuradas bêstas.
Eu em certa famosa academia
As charamellas tanjo,
As conclusões defendo,
Em vandalo Latim peroro ás turbas,
Tufo a brilhante borla
Com que as caveiras jumentaes adórno.
Emfim até d’amor perturbo o imperio:
Por mim, por meus auspicios,
A parvoa chusma dos galans mais parvos,
Dos fofos petimestres
Ja do sexo gentil não quer favores:
Indiff’rentes ao gôso e á ventura,
Basta que o mundo os tenha por felizes...
Por mim a dama desdenhosa e bella
Ja não procura amores,
Nem de Venus suavissimos deleites,
Mas o gaudio maior, mais lisongeiro
De que os outros a creiam
Cercada de servis adoradores,
De humildosos escravos’...
Ia por diante; mas o deus zangado,
Furioso a interrompe:
—‘Basta; o numen d’amor sou eu: não entra
Tam facil em meu reino
Teu sacrilego pé: sobejas vezes
De muitos corações tenho extirpado
Teu petulante vício.
Em vão esse Hymeneo, que deus se chama
E egual amim se inculca.
Ousa pleitear commigo:
Os nós lhe quebro que appellida sanctos,
E em seu templo introduzo
—Embora a testa doia
Aos miseros maridos—
Quem me apraz, quem me segue, e a quem eu quero.
Por mim se eguallam desvairadas sortes,
Que as baixas condições uno ás mais altas.
Lidia, a orgulhosa Lidia
Que a ladaínha dos avós impurra
A todo o instante e a todos,
Lidia que nunca ri... c’um tiro as pompas
E as sombras dos avós lhe desfiz n’alma:
Puni-a, fi-la escrava,
Fi-la escrava... e de quem!... do seu lacaio.
Togas, aureos bastões, borlas, espadas,
Mittras, coroas, toucas e capuzes
Ao meu imperio tudo está sujeito.’
Desdenhosa e surrindo ouviu a deusa,
E em submissa ironia lhe responde:
—‘Pois bem: assim será; não valho nada
No coração das bellas.
Mas expliquem sem mim seu vário peito;
Isso que o mundo appellidou capricho,
Que em sua alma domina,
Dize-me o que é? será sem causa o effeito?
Suas obras tam variaveis, tam confusas,
Com que os amantes pasmam,
Não as deciphro eu só, de mim não partem?’
Esquentou-se a questão: denovo os deuses
Pro e contra razões allegam, mostram.
É cabeçudo Amor, ella teimosa...
Não acabavam nunca.
Ficariam na mesma,
Se o meio de findar contendas tantas
Não acordasse á deusa:
—‘Prescindamos’ clamou ‘de vans palavras,
Argumentos deixemos;
Vamos a factos, e de nossas armas
Façamos experiencia.’
Sahia a ponto do vizinho bosque
Pastorella innocente:
Alma inda nova, coração ingenuo,
No simples do vestido,
No mal composto dos cabellos louros,
De sobejo mostrava:
Era toda ao pintar para a exp’riencia.
Consentem ambos em provar, na bella
E timida pastora,
O podêr de suas armas.
Jurou Amor de dar-se por vencido
Se de seus magos tiros
Podésse defendê-la a Vaidade.
Com lisonjeiro, placido semblante
E com doces palavras,
Tomando-a pela mão, a affaga a deusa;
Pungente frexa Amor no arco imbebe,
E mostrando-lhe a um tempo
Joven pastor que dera inveja a Páris,
O tiro lhe dispara.
Voa a setta fatal... mas no momento
Em que lhe toca o peito,
Subito a deusa aos olhos lhe apresenta
No mesmo instante crystallino espelho...
Pasma extasiada e fixa
A simplice donzella,
O semblante gentil contempla immovel;
Nem um só volver d’olhos para o bello
Mancebo lhe escapou.
Sorriu-se a deusa; Amor de invergonhado,
De corrido fugiu.
Coimbra—1818.