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António Gomes Leal · Vanguardias / s. XX

A uma voz celeste

portugués

A. C. de Carvalho

Na noute que passou
O Christo no Calvario,
Um rouxinol cantou
Sobre a Cruz, solitario.

Os trigueiros soldados,
E os lyrios de Salem
Perguntavam pasmados
—Que voz canta tão bem?

Como sentindo os males
Das suas proprias penas
Vergavam-se nos calix
Chorando as açucenas.

Choravam os caminhos,
Os dados, os cilicios,
A grinalda d'espinhos,
E a esponja dos supplicios.

Choravam os sem luz,
E os rijos peitos bravos,
—Começavam na cruz
A vacillar os cravos.

Pelo tranquillo espaço
Paravam as estrellas,
E o vagaroso passo
As mudas sentinellas.

E os peitos deshumanos
Resentiam mudanças;
—Deixavam os Romanos
Escorregar as lanças.

E a noute ali ficou...
Assim lembrando o Ceu!
—Quando Jesus morreu,
Do lenho emfim voou.

Ora eu mulher! que creio.
Que a Vida sae das lousas,
Eu que nos astros leio
E adoro a alma das rosas!

Que sei que o que hoje existe
Foi nuvem, flor, cypreste...
E escuto essa voz triste
A tua voz celeste!

Eterno visionario,
E adorador do Sol...
Creio que no Calvario
—Cantaste, rouxinol!

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Dónde vive
La Biblioteca

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Autor
António Gomes Leal
Título
A uma voz celeste
Lengua
portugués
Época
Vanguardias / s. XX
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-uma-voz-celeste--antonio-gomes-leal-c03438
Cita recomendada
António Gomes Leal, «A uma voz celeste», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-uma-voz-celeste--antonio-gomes-leal-c03438.html

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