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António Gomes Leal · Vanguardias / s. XX

A uma andorinha

portugués

Nas brisas da tardinha
Pára teu vôo um pouco;
Ouve um poeta, um louco,
—Escuta-me andorinha!

Um pouco deixa os ninhos;
Attende as vãs loucuras,
—Tambem nas sepulturas
Vôam os passarinhos!

Nem sempre o azul ethereo
Quaes flexas vão cortando,
—Tambem riem, voando,
No chão do cemiterio!

Lavam os pés rosados
Nas urnas funeraes;
—Tu, mesmo, nos telhados
Moras das cathedraes!

Não fujas d'um poeta,
Que ha nuvens mais sombrias!
—Tu já moraste uns dias
No nicho d'um propheta!

Por tanto, tu que adoras
A primavera e o Sul,
Dize-me,—no alto azul,
Quem faz sempre as Auroras!

Quem dá tintas vermelhas
Ao Sol poente que arde?
—Quem coze as nuvens velhas,
E accende o astro da tarde?

Os campos dão renovos
Tambem, n'outras espheras?
—Quem faz as primaveras?
—Quem faz os astros novos?

Quem faz a ave-flor?
Quem tinge o temporal?
—Quem faz a pomba, côr
Do lyrio virginal?

No Sol ha violetas,
E rios, campos, vinhas?
—Dize, se nos planetas?...
Tambem ha andorinhas...

E tu que mais almejas?
Tens sol, astros e ninhos—
Tens tudo o que desejas...
—Luz, grãos, pelos caminhos!

Ó triste ambicionar!
Ó santo e vão delirio!
—Talvez, ó filha do Ar
Quizesses ser um lyrio!

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Dónde vive
La Biblioteca

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Expediente

Autor
António Gomes Leal
Título
A uma andorinha
Lengua
portugués
Época
Vanguardias / s. XX
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-uma-andorinha--antonio-gomes-leal-a1f7c9
Cita recomendada
António Gomes Leal, «A uma andorinha», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-uma-andorinha--antonio-gomes-leal-a1f7c9.html

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