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Gregório de Matos · Barroco

Á mesma Catona

portugués

Não vos pude merecer,
Pois vos não pude agradar,
Mas eu hei de me vingar,
Catona, em mais vos querer;
Vós sempre á me aborrecer
Com odio mortal e atroz,
E eu a seguir-vos veloz,
Si sois veremos emfim
Mais firme em fugir-me a mim,
Que eu em seguir-vos á vós.

Quizera vos persuadir,
Porque vos saibaes haver,
Que sou mais firme em querer,
Que vós ligeira em fugir:
Eu não hei de desistir
D’esta minha pretenção,
Quer vós o approveis, quer não,
Porque vêr me importaria
Si talvez faz a porfia
O que não fez a razão.

Mil vezes o tempo faz
O que á razão não conveio,
Metterei pois tempo em meio,
Porque elle nos metta em paz:
Vós estaes muito tenaz
Em dar-me um e outro não,
E eu, levado da affeição,
Espero tempo melhor,
Onde o que não obra amor
Vença o tempo, obre a razão.

Catona, a minha esperança
Me dá por conselho são,
Que espere, porque o rifão
Diz que quem espera alcança:
Tudo tem certa mudança,
O bem males ameaça,
O mal para bem se passa,
Que como a fortuna joga,
O braço que hoje me affoga,
Talvez amanhã me abraça.

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Autor
Gregório de Matos
Título
Á mesma Catona
Lengua
portugués
Época
Barroco
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-mesma-catona--gregorio-de-matos-0e41f5
Cita recomendada
Gregório de Matos, «Á mesma Catona», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-mesma-catona--gregorio-de-matos-0e41f5.html

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