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Gregório de Matos · Barroco

Á mulata Joanna Gafeira — Estando queixosa do poeta a haver satyrisado romance

portugués

Não posso cobrar-lhes medo,
Joanna, a vossos focinhos,
Que como sois tão formosa,
Cede á verdade o fingido.
Tanta olhadura a travez,
Tanto focinho torcido,
Tanto pescoço empinado,
Tanto esguelhado beicinho,
São modos tão extrangeiros,
Alheios e peregrinos
Das perfeições naturaes
Do vosso rosto divino,
Que jámais podem fazer
No meu peito amante e fino
Retroceder as tenções,
Nem arribar os designios.
Sempre caminhando ávante,
Nunca deixando o caminho,
Ando atraz de ver si posso
Chegar a vosso captivo.
Si me ferraes esta cara
Co’um favorzinho de riso,
Me hei de rir de farto então
Do mundo e seus regosijos.
Hei de pôr-me a rir então
De sorte que a riso fito
Me hão de ter em todo o orbe
Por Democrito dos risos.
Olharei para a Beleta,
E me rirei dos meninos,
Que andam sempre a belisca-la
Qual mono com seus bugios.
Olharei para Apollonia,
E de a ver entre os corrilhos
De tanta canastra honrada,
Que é a nobreza do sitio.
Rirei de ver cada um
Ir-se d’aqui despedido,
Entonces mais carregado,
Porque entonces mais vazio.
A elles pelas estradas
Suspirando pelo sitio,
A ella pelos oiteiros
Zombando de taes suspiros.
A elles tomando o tolle
Para o sertão fugitivos,
Tanto fugindo dos amos,
Como da conta fugindo.
A ella por capoeiras
Estreando co’ os meninos
A baetinha dos pobres,
A serafina dos ricos.
Para a Ursula olharei,
E rirei de a ver no Sitio
Parafuzando pivetes
Pela tarracha do embigo.
Rirei de ver os amantes,
Rirei de ver os queridos,
Que tendo-se por ditosos,
São em seus gostos mofinos.
E só feliz eu serei,
Si lógro os vossos carinhos,
E me impingis nesta cara
Da vossa bocca um beijinho.
Tende-me na vossa graça,
E a queixa se torne em riso,
A malquerença em amor,
E o desfavor em carinho.

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Autor
Gregório de Matos
Título
Á mulata Joanna Gafeira — Estando queixosa do poeta a haver satyrisado romance
Lengua
portugués
Época
Barroco
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-mulata-joanna-gafeira-estando-queixosa-do-poet--gregorio-de-matos-7cee74
Cita recomendada
Gregório de Matos, «Á mulata Joanna Gafeira — Estando queixosa do poeta a haver satyrisado romance», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-mulata-joanna-gafeira-estando-queixosa-do-poet--gregorio-de-matos-7cee74.html

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