Deixa, eu t’o rogo, deixa, Annalia minha,
Duros preceitos de moral sombria;
Fingiu-os a traidora hypocrisia
Que detrás d’elles, a zombar, se aninha.
Leis de tartufos, invenção danninha
Que protege a impostura e o vício cria,
O egoismo as dictou, funesta harpia
Que as horas do gosar nos amesquinha.
A mão da natureza, a mão sublime
O gran’sêllo forjou na eterna incude
Com que o signal de falsas lhes imprime.
O coração m’o diz, que não illude:
Crime sem dor, Annalia, não é crime,
‘Virtude sem prazer não é virtude.’
Coimbra—1818.