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Camilo Castelo Branco · Modernismo

Um jantar de baroens. — Invocação

portugués

Musa da sopa e do cosido, inspira-me!
Pandega musa, que sorris ao vate
Em môlho d'açafrão, e de tomate,
Um cego adorador... achaste em mim.
Transforma o estro meu em lombo assado,
Da minha inspiração faz um podim.

Tu filha dos baroens, musa do unto,
Nasceste na cosinha entre caçôlas;
Saudaram-te no berço alhos, cebôlas,
Do cominho tiveste uma ovação.
Depois, trajando gallas de toucinho,
Eu vi-te nas bochechas d'um barão.

Namorado de ti, fiz-te meiguices,
Por de traz d'um pirum, e tu de lá
Sorriste-me atravez da nedea pá
De vitella gentil, rica de arroz!
Ai! era!.. e nem eu sei se foi mais linda
Aquella gorda pata... que te poz!

Tu fizeste de mim novo Claudio,
Inspiraste-me fé no rodavalho.
Traguei indigestoens, arrotos d'alho,
Bernardas na barriga supportei.
Tomei chá de marcella... e, em premio d'isto.
O teu auxilio, ó musa, não terei?!

I

Dentro e fóra illuminado
O palacio d'um barão,
Fulgurante representa
Um enorme lampião.
Jorram lympidas vidraças
Sobre as populosas praças
Ondas tremulas de luzes.
Vai lá dentro grande goso,
Nesse alcaçar radioso
Do barão dos Alcatruzes.

D'Alcatruzes é chamado,
Porque, sendo ainda moço,
Muitos baldes d'agua fresca
Dizem que tirou d'um poço.
Nenhum outro mais destreza
Revellou na ardua empreza.
De puchar acima um balde.
Um que seja tão robusto
Ha-de vir mui tarde e a custo,
Do concelho de Ramalde.

É barão; não vale a pena
Discutir-lhe os nobres feitos.
É barão dos Alcatruzes
Já tem pagos os direitos.
Inda é mais; pois além d'isto
É commendador de Christo
Com bastante indiscripção.
Mal diria Christo outr'ora,
Que seria posto agora
No peito d'um vendilhão!

E mais elle, que os tocava
Com terrivel azorrague!..
Mas os Judas vendem Christo,
Ponto é haver quem pague.
E o barão dos Alcatruzes
Neste seculo das luzes
Tambem fez de farizeu:
E, tambem, se é necessario,
Representa de Calvario,
Onde a cruz se suspendeu.

II.

N'um salão vasto, opulento,
Um banquete se vai dar;
Nos christaes reflecte o ouro,
A fulgir, a scintillar.
Os rubis, e a côr da opala
Transfiguram esta sala
Em olympicas mansoens.
Mas a alma cae por terra,
Quando vê que alli se encerra
Duzia e meia de baroens.

Da terrina a caudal sopa
Em silencio é devorada.
Só então fingiram d'homens,
Porque não disseram nada.
Mas venceu a natureza!
Um barão por sobre a mesa
Estendendo o prato, diz:
«Ó compadre! isto é qu'é bô!
Venha sopa, e acabô!
Cá de mim, torno á matriz!»

O barão de Cogumelos
Junto estando á baroneza,
Que se diz dos Sacatrapos,
Quiz fazer-lhe uma fineza.
Arrastou p'ra junto d'ella
Um pirum, e a cabidela
No prato lhe despejou.
E lhe diz: «cá isto é nosso;
Cousa que não tenha osso
É p'ró estamago, e arrimou!»

Outro diz á gorda esposa,
Que bem perto de si tem:
«Bai-lhe bebendo po'riba,
Ó mulher, come-lhe bem!»
Este pede ao seu visinho:
«Que lh'atice bem no binho
Qu'é da belha companhia.»
Diz aquelle ao seu fronteiro:
«Que lhe chegue um frango inteiro
E biba a sancta alegria!»

III.

As saudes já começam.
É um gosto agora vêl-os.
Estas caras representam
Tomates de cotovêlos.
E, a travez do escarlate
Do legitimo tomate,
Transsuda um oleo que brilha,
Cada qual tem as orelhas
Encarniçadas, vermelhas
Como as azas d'uma bilha.

Pega no copo, e exclama
O barão das Pimpinelas:
«Vito serio! um home fala
Sem preamblos nem aquellas!
Á saude e alegria
Desta bella companhia
E com toda a estifação!
P'ra que todos cá binhamos
Estifeitos como bamos
De casa do sôr barão!»

E os hurras retumbaram
Pela sala do festim.
Balthazar nos seus banquetes
Não ouviu gritar assim!
Sobre a mesa deram murros,
Saudaram com grandes urros
O barão dos Alcatruzes;
Mas alguns com magua sua,
Já cuidavam ver a lua,
Não podendo vêr as luzes.

Mas, entre elles, um existe,
Litterato em seu conceito.
A palavra pede, e reina
Um silencio de respeito.
Elle diz: «Risonhas gallas
Que refrangem n'estas salas
Repercutem, symbolisam
Acrimónias insoluveis,
Nos acrósticos voluveis
D'epopeas que eternisam.
Pandemonios exhauriveis
D'indeleveis congruencias.
Requintados se escurecem
Nos imporios das sciencias
E liberrimos se escudam
Nas façanhas que transsudam
Em fantasiosas luzes.
E, por tanto, a mais alludo,
Quando, fervido, saudo
O barão dos Alcatruzes!»

Succedeu o grito ao pasmo!
Nunca se viu cousa assim!
O orador foi abraçado
Com furor, com frenezim!
«Isto é qu'é!» dizia um,
Convertido em rubro atum,
Betarraba até não mais.
«Viva Cissro!» outro dizia,
Despejando a malvazia,
Com grasnidos infernaes.

IV.

E a pandega findou. Mas alta noute,
Disseram-nos fieis informaçoens;
Que grande movimento ouve de tripas,
E grande salto deram as torneiras
Das pipas convertidas em baroens
Ou antes dos baroens tornados pipas.

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Expediente

Autor
Camilo Castelo Branco
Título
Um jantar de baroens. — Invocação
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-um-jantar-de-baroens-invocacao--camilo-castelo-branco-987e4c
Cita recomendada
Camilo Castelo Branco, «Um jantar de baroens. — Invocação», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-um-jantar-de-baroens-invocacao--camilo-castelo-branco-987e4c.html

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