I
Tendo o terrivel Bonaparte á vista,
Novo Annibal, que esfalfa a voz da Fama,
«Oh capados heróes! (aos seus exclama
Purpureo fanfarrão, papal-sacrista):
«O progresso estorvai da atroz conquista
«Que da philosophia o mal derrama!…»
Disse, e em férvido tom saúda, e chama,
Sanctos surdos varões por sacra lista:
D'elles em vão rogando um pio arrojo,
Convulso o corpo, as faces amarellas,
Cede triste victoria, que faz nojo!
O rapido francez vai-lhe ás canellas;
Dá, fere, mata; ficam-lhe em despojo
Reliquias, bullas, merdas, bagatellas.
II
Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um d'aquelles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o theologo, o peralta,
Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:
Não quero funeral communidade,
Que engrole sub-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu tambem vos dispenso a charidade:
Mas quando ferrugenta enchada idosa
Sepulchro me cavar em ermo Outeiro,
Lavre-me este epitaphio mão piedosa:
«Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.»
III
Esse disforme, e rigido porraz
Do semblante me faz perder a côr;
E assombrado d'espanto, e de terror
Dar mais de cinco passos para traz:
A espada do membrudo Ferrabraz
De certo não mettia mais horror:
Esse membro é capaz até da pôr
A amotinada Europa toda em paz:
Creio que nas fodaes recreações
Não te hão de a rija machina soffrer
Os mais corridos, sordidos cações:
De Venus não desfructas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder.
IV
N'um capote embrulhado, ao pé de Armia,
Que tinha perto a mãe o chá fazendo,
Na linda mão lhe fui (oh ceos!) mettendo
O meu caralho, que de amor fervia:
Entre o susto, entre o pejo a moça ardia:
E eu solapado os beiços remordendo,
Pela fisga da saia a mão crescendo
A chamada sacana lhe fazia:
Entra a vir-se a menina… Ah! que vergonha!
«Que tens? — lhe diz a mãe sobresaltada:
Não pode ella encobrir na mão langonha:
Suffocada ficou, a mãe corada;
Finda a partida, e mais do que medonha
Á noute começou da bofetada.
V
No canto de um venal salão de dança,
Ao som de uma rebeca desgrudada,
Olhos em alvo, a porra arrebitada,
Bocage, o folgazão, rostia o França:
Este, com mogigangas de creança,
Com a mão pelos evos encrespada,
Brandia sobre a roxa fronte alçada
Do assanhado porraz, que quer lambança:
Veterana se faz a mão bisonha;
Tanto a tempo menêa, e súa o bicho,
Que em Bocage o tezão vence a vergonha:
Quiz vir-se por luxuria, ou por capricho;
Mas em vez de acudir-lhe alva langonha
Rebenta-lhe do cú merdoso esguicho.
VI
Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putissimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas teem reinado:
Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleopatra por puta alcança a c'rôa;
Tu, Lucrecia, com toda a tua prôa,
O teu cono não passa por honrado:
Essa da Russia imperatriz famosa,
Que inda ha pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de Virgo e honra é tudo peta.
(D.)
VII
Tu, oh demente velho descarado,
Escandalo do sexo masculino,
Que por alta justiça do Destino
Tens o impotente membro decepado:
Tu, que em torpe furor incendiado
Soffres d'impia paixão ardor maligno,
E a consorte gentil, de que és indigno,
Entregas a infructifero castrado:
Tu, que tendo bebido o menstruo immundo,
Esse amor indiscreto te não gasta
D'impia mulher o orgulho furibundo:
Em castigo do vicio, que te arrasta,
Saiba a inclita Lysia, e todo o mundo
Que és vil por genio, que és cabrão, e basta!
VIII
Vai cagar o mestiço, e não vai só;
Convida a algum, que esteja no Gará,
E com as longas calças na mão já
Pede ao cafre canudo e tambió:
Destapa o banco, atira o seu fuscó,
Depois que ao liso cú assento dá,
Diz ao outro: «Oh amigo, como está
A Rita? O que é feito da Nhonhó?»
«Vieste do Palmar? Foste a Pangin?
Não me darás noticias da Russu,
Que desde o outro dia inda a não vi?»
Assim prosegue, e farto já de gu,
O branco, e respeitavel camarim
Deita fora o cachimbo, e lava o cú.
IX
Arreitada donzella em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtís pachocho estreito:
De louro pello um circulo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica, nacarada e liza,
Em pingos vérte alvo liquor desfeito:
A voraz porra as guelras encrespando
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando:
Como é inda boçal perde os sentidos;
Porém vai com tal ancia trabalhando,
Que os homens é que vem a ser fodidos.
X
Esquentado frisão, brutal masmarro
Girava em Santarem na pobre feira;
Eis que divisa ao longe em couva ceira
Seus bons irmãos seraphicos de barro:
O bruto, que arremeda um boi de carro
Na carranca feroz, parte á carreira,
Os sagrados bonecos escaqueira,
E arranca de ufania um longo escarro:
N'alma o sancto furor lhe arqueja, e berra;
Mas vós enchei-vos de intimo alvoroço,
Povos, que do burel soffreis a guerra:
Que dos bonzos de barro o vil destroço
E presagio talvez de irem por terra
Membrudos fradalhões de carne e osso!
XI
N'esta, cuja memoria esquece á Fama,
Feira, que a Santarem vem de anno em anno,
Jazia co'uma freira um franciscano;
Eram de barro os dous, de barro a cama:
Co'a mão, que á virgindade injurias trama,
Pretendia o cabrão ferrar-lhe o panno;
Eis que um negro barrasco, um Frei Tutano
O espectaculo vê, que os rins lhe inflamma:
«Irra! Vens-me atiçar, gente damnada!
Não basta a felpa dos bureis opacos,
Com que a carne rebelde anda ralada?
«Fora, vís tentações, fora, velhacos!..»
Disse, e ao rispido som de atroz patada
O escandaloso par converte em cacos.
XII
Amar dentro do peito uma donzella;
Jurar-lhe pelos ceos a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia noute na janella:
Fazel-a vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertal-a nos braços casta, e bella:
Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a bocca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de neve os dous pimpolhos:
Vêl-a rendida em fim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto, que ha no mundo.
(D.)
XIII
É pau, e rei dos paus, não marmelleiro,
Bem que duas gamboas lhe lombrigo;
Dá leite, sem ser arvore de figo,
Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:
Verga, e não quebra, como o zambujeiro;
Occo, qual sabugueiro tem o embigo;
Brando ás vezes, qual vime, está comsigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:
Á roda da raiz produz carqueija;
Todo o resto do tronco é calvo, e nú;
Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!
Para carvalho ser falta-lhe um u;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar metta-o no cú.
XIV
Bojudo fradalhão de larga venta,
Abysmo immundo de tabaco esturro,
Doutor na asneira, na sciencia burro,
Com barba hirsuta, que no peito assenta:
No pulpito um domingo se apresenta;
Préga nas grades espantoso murro;
E acalmado do povo o gran susurro
O dique das asneiras arrebenta:
Quatro putas mofavam de seus brados,
Não querendo que gritasse contra as modas
Um peccador dos mais desaforados:
«Não (diz uma) tu, padre, não me engodas:
Sempre me ha de lembrar por meus peccados
A noute, em que me déste nove fodas!»
XV
Aquelle semi-clerigo patife,
Se eu no mundo fizera ainda apostas,
Apostára comtigo que nas costas
O grande Pico tem de Teneriffe:
Celebre traste! É justo que se rife;
Eu tambem prompto estou, se d'isso gostas;
Não haja mais perguntas, nem respostas;
Venha, antes que algum taful o bife:
Parece hermaphrodita o Corcovado;
Pela rachada parte (que appeteço)
Parece que emprenhou, pois anda opado!
Mas d'esta errada opinião me desço:
Pois que traz a creança no costado,
Deve ter emprenhado pelo sesso.
XVI
Porri-potente heróe, que uma cadeira
Sustens na ponta do caralho tezo,
Pondo-lhe em riba mais por contrapezo
A capa de baetão da alcoviteira:
Teu casso é como o ramo da palmeira,
Que mais se eleva, quando tem mais pezo:
Se o não conservas açaimado e preso,
É capaz de foder Lisboa inteira!
Que força tens no horrido marsapo,
Que assestando a disforme cachamorra
Deixa conos e cús feitos n'um trapo!
Quem ao ver-te o tezão ha não discorra
Que tu não podes ser senão Priapo,
Ou que tens um guindaste em vez do porra?
(D.)
XVII
Dizem que o rei cruel do Averno immundo
Tem entre as pernas caralhaz lanceta,
Para metter do cú na aberta greta
A quem não foder bem cá n'este mundo:
Tremei, humanos, d'este mal profundo,
Deixai essas lições, sabida peta;
Foda-se a salvo, coma-se a punheta;
Este o prazer da vida mais jucundo:
Se pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus porras leiteiras,
Senão para foder com liberdade?
Fodam-se, pois, casadas e solteiras:
E seja isto já; que é curta a edade,
E as horas do prazer voam ligeiras.
(D.)
XVIII
Nojenta prole da rainha Ginga,
Sabujo ladrador, cara de nico,
Loquaz saguim, burlesco Theodorico,
Osga torrada, estupido resinga:
Eu não te accuso de poeta pinga;
Tens lido o mestre Ignacio, e o bom Suppico;
De occas idéas tens o casco rico,
Mas teus versos tresandam a catinga:
Se a tua Musa nos outeiros campa,
Se ao Miranda fizeste ode demente,
E o mais, que ao mundo estolido se incampa:
É porque sendo, oh Caldas, tão sómente
Um cafre, um goso, um nescio, um parvo, um trampa,
Queres metter nariz em cú de gente.
XIX
Turba esfaimada, multidão canina,
Corja, que tem por Deus ou Momo, ou Baccho,
Reina, e decreta nos covís de Caco
Ignorancia d'aqui, d'ali rapina:
Colhe de alto systema e lei divina
Imaginario jus, com que encha o saco;
Textos gagueja em vão Doctor macaco
Por ouro, que promette alma sovina:
Circulo umbroso de venaes pedantes,
Com torpe astucia de maligno zorra
Usurpa nome excelso, e graus flamantes:
Ora mijei na sucia, inda que eu morra!
Corno, arrocho, bambu nos elephantes,
Cujo vulto é de anões, a tromba é porra!
XX
Magro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de faxa, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:
Incapaz de assistir n'um só terreno,
Mais propenso ao furor do que á ternura,
Bebendo em niveas mãos por taça escura
De zelos infernaes lethal veneno:
Devoto incensador de mil deidades,
(Digo, de moças mil) n'um só momento,
Inimigo de hypocritas, e frades:
Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram d'elle mesmo estas verdades
N'um dia, em que se achou cagando ao vento.
XXI
Na scena em quadra tragico-hynvernosa
Zaida se impingiu (fradesco drama!)
Appareceu depois, com sede á fama,
Tragedia mais egual, mais lastimosa:
O auctor prantêa em phrase apparatosa
Esfaqueado arraes, pimpão d'Alfama;
Corno o protagonista, e puta a dama,
O macho é Simeão, e a mula é Rosa:
Espicha o rabo (eu tremo ao proferil-o!)
Espicha o rabo ali o heróe na rua,
Qual Muratão nos areaes do Nilo!
Elmiro na tarefa continúa,
Já todos pela escolha, e pelo estylo
Rosnam que a nova peça é obra sua.
XXII
Não tendo que fazer Apollo um dia
Ás Musas disse: «Irmans, é beneficio
Vadios empregar; dêmos officio
Aos socios vãos da magra Academia:
«O Caldas satisfaça á padaria;
O França d'enjoar tenha exercicio,
E o auctor do entremez do Rei Egypcio
O Pegaso veloz conduza á pia:
«Vá na Ullysséa tasquinhar o ex-frade;
Da sala o Quintanilha accenda as velas,
Em se juntando alguma sociedade:
«Bernardo nenias faça, e cague n'ellas:
E Belmiro, por ter habilidade,
Como d'antes trabalhe em bagatellas.»
XXIII
Rapada, amarellenta cabelleira,
Vêsgos olhos, que o chá, e o doce engoda,
Bôca, que á parte esquerda se accommoda,
(Uns affirmam que fede, outros que cheira:)
Japona, que da ladra andou na feira;
Ferrujento faim, que já foi moda
No tempo em que Albuquerque fez a poda
Ao suberbo Hidalcão com mão guerreira:
Ruço calção, que espórra no joelho,
Meia e sapato, com que ao lodo avança,
Vindo a encontrar-se c'o esburgado artelho:
Jarra, com appetites de creança;
Cara com similhança de besbelho;
Eis o bedel do Pindo, o doctor França.
XXIV
Pilha aqui, pilha ali, vozêa auctores,
Montesquieu, Mirabeau, Voltaire, e varios;
Propõe systemas, tira corollarios,
E usurpa o tom d'emphaticos doctores:
Sciencia de livreiros e impressoras
Tem da vasta memoria nos armarios;
E tractando os christãos de visionarios,
Só rende culto a Venus, e aos Amores:
A mulher, que a barriga lhe tem fôrra
Do jugo da vital necessidade,
Deixa em casa gemer como em masmorra:
Este biltre, labéo da humanidade,
É um tal bacharel Leitão de borra,
Lascivo como um burro, ou como um frade.
XXV
Não chores, chara esposa, que o Destino
Manda que parta, á guerra me convida;
A honra prézo mais que a propria vida,
E se assim não fizera, fôra indigno.
«Eu te acho, meu Conde, tão menino
«Que receio…» — Ah! Não temas, não, querida;
A franceza nação será batida,
Este peito, que vês, é diamantino.
«Como é crivel que sejas tão valente?…»
Eu herdei o valor de avós, e paes,
Que essa virtude tem a illustre gente.
«Porém se as forças forem desiguaes?…»
Irra, Condessa! És muito impertinente!
Tornarei a fugir, que queres mais?
XXVI
Se quereis, bom Monarcha, ter soldados
Para compôr lustrosos regimentos,
Mandai desentulhar esses conventos
Em favor da perguiça edificados:
Nos Bernardes lambões, e asselvajados
Achareis mil guerreiros corpulentos:
Nos Vicentes, nos Neris, e nos Bentos
Outros tantos, não menos esforçados:
Tudo extingui, senhor: fiquem sómente
Os Franciscanos, Loios, e Torneiros,
Do Centimano asperrima semente:
Existam estes lobos carniceiros,
Para não arruinar inteiramente
Putas, pivias, cações, e alcoviteiros.
XXVII
Veiu Muley-Achmet marroquino
Com duros trigos entulhar Lisboa;
Pagava bem, não houve moça boa
Que não provasse o casso adamantino:
Passou a um seminario feminino,
Dos que mais bem providos se apregôa,
Onde a um frade bem fornida ilhôa
Dava d'esmola cada dia um pino:
Tinha o mouro fodido largamente,
E já basofiando com desdouro
Tractava a nação lusa d'impotente:
Entra o frade, e ao ouvil-o, como um touro
Passou tudo a caralho novamente,
E o triumpho acabou no cú do mouro.
(D.)
XXVIII
Uma noute o Scopezzi mui contente
(Depois de borrifar a sacra espada
Que traz da rubra fita pendurada
Com cuspo, e vinho, que vomita quente:)
Conversava co'a esposa em voz tremente
Sobre a grande ventura inesperada
De ser a sua Placida adorada
Por um Marquez tão rico, e tão potente;
A velha lhe replica: «Isso é verdade;
Em quanto moça fôr, nunca o dinheiro
Faltará n'esta casa em quantidade.
«Mas tu sempre és o tafulão primeiro;
Pois tendo cabrão sido n'outra edade,
És agora o maior alcoviteiro!»
(D.)
XXIX
Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cú de tanta alvura;
Mas ver cagar, comtudo, a formosura
Mette nojo á vontade mais gulosa!
Ella a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura:
Uma carta d'amores de alimpadura
Serviu áquella parte mal cheirosa:
Ora mandem á moça mais bonita
Um escripto d'amor, que lisonjeiro
Affectos move, corações incita;
Para o ir ver servir de reposteiro
Á porta, onde o fedor, e a trampa habita,
Do sombrio palacio do alcatreiro!
(D.)
XXX
Quando do gran Martinho a fatal Parca
O termo fez soar no seu chocalho,
Levou tres dias a passar caralho
Do medonho Charonte a negra barca:
Eis no terceiro dia o padre embarca,
E o velho, que a ninguem faz agasalho,
Em premio quiz só ter do seu trabalho
O gaudio de ver porra de tal marca:
Pegou-se ao cão trifauce a voz na goela
Ao ver de membro tal as dianteiras,
E Plutão a mulher pôz de cautela:
Porém Dido gritando ás companheiras:
«Agora temos porra, a ella, a ella,
«Que as horas do prazer voam ligeiras!»
(D.)
XXXI
Dizendo que a costura não dá nada,
Que não sabe servir quem foi senhora,
A impulsos da paixão fornicadora
Sobe d'alcoviteira a moça a escada:
Seus desejos lhe pinta a malfadada,
E a tabaquenta velha seductora
Diz-lhe: «Veiu, menina, em bella hora,
Que essas, que ahi tenho, já não ganham pada:»
Matricula-se aqui a tal pateta,
Em punhetas e fodas se industría,
Em quanto a mestra lhe não rifa a grêta:
Chega, por fim, o fornicario dia;
E em pouco a menina de muleta
Passêa do hospital na enfermaria.
(D.)
XXXII
Piolhos cría o cabello mais dourado;
Branca remella o olho mais vistoso;
Pelo nariz do rosto mais formoso
O monco se divisa pendurado:
Pela bôca do rosto mais corado
Halito sái, ás vezes bem ascoroso;
A mais nevada mão sempre é forçoso
Que de sua dona o cú tenha tocado:
Ao pé d'elle a melhor natura móra,
Que deitando no mez podre gordura,
Ferido mijo lança a qualquer hora:
Caga o cú mais alvo merda pura;
Pois se é isto o que tanto se namora,
Em ti mijo, em ti cago, oh formosura!
(D.)
XXXIII
Se o gran serralho do Sophi potente,
Ou do Sultão feroz, que rege a Thracia,
Mil Venus da Georgia, ou da Circassia
Nuas prestasse ao meu desejo ardente:
Se negros brutos, que parecem gente,
Ministros fossem de lasciva audacia,
Inda assim do ciume a pertinacia
No peito me nutríra ardor pungente:
Erraste em produzir-me, oh Natureza,
N'um paiz onde todos fodem tudo,
Onde leis não conhece a porra teza!
Cioso affecto, affecto carrancudo!
Zelar moças na Europa é ardua empresa;
Entre nós ser amante é ser cornudo.
(D.)
XXXIV
Não te crimino a ti, plebe insensata,
A van superstição não te crimino;
Foi natural, que o frade era ladino,
E experta em macaquices a beata:
Só crimino esse heróe de bola chata,
Que na eschola de Marte inda é menino,
E ao falso pastor, pastor sem tino,
Que tão mal das ovelhas cura, e tracta:
Item, crimino o respeitavel Cunha,
Que a frias petas credito não dera,
A ser philosopho, como se suppunha:
Coitado! Protestou com voz sincera
Fazer geral, contricta caramunha,
Porém ficou peor que d'antes era!
XXXV
Se tu visses, Josino, a minha amada
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto
Ás mais formosas não inveja nada:
Na sua bôca Venus faz morada;
Nos olhos tem Cupido as settas posto;
Nas mammas faz Lascivia o seu encosto,
N'ella, em fim, tudo encanta, tudo agrada:
Se a Asia visse cousa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!
Belleza mais completa haver não pode;
Pois mesmo o cono seu, quando palpita;
Parece estar dizendo: «Fode, fode!»
(D.)
XXXVI
Cante a guerra quem fôr arrenegado,
Que eu nem palavra gastarei com ella;
Minha Musa será sem par canella
Co'um felpudo coninho abrazeado:
Aqui descreverei como arreitado
N'um mar de bimbas navegando á vela,
Cheguei, propicio o vento, á doce, áquella
Enseada d'Amor, rei coroado:
Direi tambem os beijos susurrantes,
Os intrincados nós das linguas ternas,
E o aturado fungar de dous amantes:
Estas glorias serão na fama eternas;
Ás minhas cinzas me farão descantes
Femeos vindouros, alargando as pernas.
XXXVII
Fiado no fervor da mocidade,
Que me acenava com tezões chibantes,
Consumia da vida os meus instantes
Fodendo como um bode, ou como um frade:
Quantas pediram, mas em vão, piedade
Encavadas por mim balbuciantes!
Fincado a gordos sessos alvejantes
Que hemorroidas não fiz n'esta cidade!
Á força de brigar fiquei mammado:
Vista ao caralho meu, que de gaiteiro
Está sobre os colhões apatetado:
Oh Numen tutelar do mijadeiro!
Levar-te-hei, se tornar ao tezo estado,
Por offrenda espetado um parrameiro.
XXXVIII
Eu foder putas?.. Nunca mais, caralho!
Has de jurar-m'o aqui, sobre estas Horas;
E vamos, vamos já!… Porém tu choras?
«Não senhor (me diz elle) eu não, não ralho:»
Batendo sobre as Horas como um malho,
«Juro (diz elle) só foder senhoras,
Das que abrem por amor as tentadoras
Pernas áquillo, que arde mais que o alho.»
Co'a força do jurar esfolheando
O sacro livro foi, e a ardente sede
O fez em mar de ranho ir soluçando....
Ah! que fizeste?.. O ceo teus passos mede!
Anda, heretico filho miserando,
Levanta o dedo a Deus, perdão lhe pede!
XXXIX
«Ora deixe-me, então… faz-se creança?
Olhe que eu grito, pela mãe chamando!» —
Pois grite (então lhe digo, amarrotando
Saiote, que em baixal-o irada cança):
Na quente lucta lhe desgrenho a trança,
A anagoa lhe levanto, e fumegando
As estreitadas bimbas separando
Lhe arrimo o caralhão, que não se amança:
Tanto, a ser giria, não gritava a bella;
Que a cada grito se escorvava a porra,
Fazendo-lhe do cú saltante pella!
— Ha de pagar-me as mangações de borra;
Basta de cono, ponha o sesso á vela,
Que n'elle ir quero visitar Gomorrha.
XL
Pela rua da Rosa eu caminhava
Eram sete da noute, e a porra teza;
Eis puta, que indicava assás pobreza,
Co'um lencinho á janella me acenava:
Quaes conselhos? A porra fumegava;
«Hei de seguir a lei da natureza!»
Assim dizia, e effeituou-se a empresa;
Prepucio para traz a porta entrava:
Sem que saude a moça prazenteira
Se arrima com furor não visto á crica,
E a bella a molle-molle o cú peneira:
Ninguem me gabe o rebolar d'Annica;
Esta puta em foder excede a Freira,
Excede o pensamento, assombra a pica!
XLI
«Apre! Não mettas todo… Eu mais não posso…»
Assim Marcia formosa me dizia;
— Não sou barbaro (á moça eu respondia)
Brandamente verás como te cóço:
«Ai! por Deus, não… não mais, que é grande, e grosso!..»
Quem resistir ao seu falar podia!
Meigamente o coninho lhe batia;
Ella diz: «Ah meu bem! meu peito é vosso!»
O rebolar do cú (ah!) não te esqueça....
Como és bella, meu bem! (então lhe digo)
Ella em suspiros mil a ardencia expressa:
Por te unir faze muito ao meu embigo;
Assim, assim… menina, mais depressa!…
Eu me venho… ai Jesus!… vem-te comigo!
XLII
Vem cá, minha Maria, tão roliça,
Co'as bochechas da côr do meu caralho,
Que eu quero ver se os beiços embaralho
Co'esses teus, onde amor a ardencia atiça:
Que abrimentos de bôca! Tens perguiça?
Hospeda-me entre as pernas este malho,
Que eu te ponho já teza como um alho;
Ora chega-te a mim, leva esta piça....
Ora meche… que tal te sabe, amiga?
Então, foges c'o sesso? É forte historia!
Elle é bom de levar, não, não é viga.
«Eu grilo!» (diz a moça merencoria)
Pois grita, que espetada n'esta espiga
Com porraes salvas cantarei victoria.
XLIII
Dormia a somno solto a minha amada,
Quando eu pé ante pé no quarto entrava;
E ao ver a linda moça, que arreitava,
Sinto a porra de gosto alvoroçada:
Ora do rosto seu vejo a nevada
Pudibunda bochecha, que encantava;
Outr'hora nas mamminhas demorava
Soffrega, ardente vista embasbacada:
Porém vendo sair d'entre o vestido
Um lascivo pésinho torneado,
Bispo-lhe as pernas, e fiquei perdido:
Vai senão quando, o meu caralho amado
Bem como Enéas acordava Dido,
Salta-lhe ao pello, por seguir seu fado.
XLIV
Eram oito do dia; eis a creada
Me corre ao quarto, e diz: «Ahi vem menina
Em busca sua; faces de bonina,
Olhos, que quem os viu não quer mais nada.»
Eis me visto, eis me lavo, e esta engraçada
Fui ver in continenti; oh ceos! que mina!
Que breve pé! Que perna tão divina!
Que mamminhas! que rosto! Oh, que é tão dada!
A porra nos calções me dava urros;
Eis a levo ao meu leito, e ella rubente
Não podia soffrer da porra os murros:
«Ai!.. ai!.. (de quando em quando assim se sente)
Uma porra tamanha é dada aos burros,
Não é porra capaz de foder gente.»
XLV
Pela escadinha de um courão subindo
Parei na sala, onde não entra o pejo;
Chinelo aqui e ali suado vejo,
E o fato de cordel pendente, rindo:
Quando em miseria tanta reflectindo
Estava, me appareceu nympha do Tejo,
Roendo um fatacaz de pão com queijo,
E para mim n'um ai vem rebolindo:
Dá-me um grito a razão: — «Eia fujamos
Minha porra infeliz já d'este inferno…
Mas tu respingas? Tenho dicto, vamos…»
Eis a porra assim diz — «Com odio eterno
Eu, e os socios colhões em ti mijamos;
Para baixo do embigo eu só govérno.»
XLVI
Eram seis da manhan; eu acordava
Ao som de mão, que á porta me batia:
Ora vejamos quem será… dizia,
E assentado na cama me zangava.
Brando rugir de seda se escutava,
E sapato a ranger tambem se ouvia…
Salto fora da cama… Oh! que alegria
Não tive, olhando Armia, que arreitava!
Temendo venha alguem, a porta fecho;
Co'um chupão lhe saudei a rosea bôca,
E na rompente mamma alegre mecho:
O caralho estouvado o cono aboca;
Bate a gostosa greta o rubro queixo,
E a matinas de amor a porra toca.
XLVII
«Mas se o pae acordar!.. (Marcia dizia
A mim, que á meia-noute a trombicava)
«Hoje não… (continúa, mas deixava
Levantar o saiote, e não queria!)
Sempre em pé a dizer: «Então, avia…»
Sesso á parede, a porra me aguentava:
Uma cousa notei, que me arreitava,
Era o calçado pé, que então rangia:
Vim-me, e assentado n'um degrau da escada,
Dando alimpa ao caralho, e mais á greta,
Nos preparámos para mais porrada:
Por variar nas mãos metti-lhe a teta;
Tosse o pae, foge a filha… Oh vida errada!
Lá me ficou em meio uma punheta!
XLVIII
Quando no estado natural vivia
Mettida pelo matto a especie humana,
Ai da gentil menina deshumana,
Que á força a greta virginal abria!
Entrou o estado social um dia;
Manda a lei que o irmão não foda a mana,
É crime até chuchar uma sacana,
E péza a excommunhão na sodomia:
Quanto, lascivos cães, sois mais ditosos!
Se na egreja gostais de uma cachorra,
Lá mesmo, ante o altar, fodeis gostosos:
Em quanto a linda moça, feita zorra,
Voltando a custo os olhos voluptuosos,
Põe no altar a vista, a idéa em porra.
XLIX
Levanta Alzira os olhos pudibunda
Para ver onde a mão lhe conduzia;
Vendo que n'ella a porra lhe mettia
Fez-se mais do que o nacar rubicunda:
Tóco o pentelho seu, tóco a rotunda
Lisa bimba, onde Amor seu throno erguia;
Entretanto em desejos ella ardia,
Brando liquor o passaro lhe inunda:
C'o dedo a greta sua lhe coçava;
Ella, machinalmente a mão movendo,
Docemente o caralho me embalava:
«Mais depressa» — lhe digo então morrendo,
Em quanto ella signaes do mesmo dava;
Mistica pivia assim fômos comendo.
L
Uma empada de gallico á janella,
Fazendo meia, alinhavando trapos,
Em quanto a guerra faz tudo em farrapos,
Pondo o honrado a pedir, e a virgem bella!
Vai a trombuda, sordida michela
Fazendo guerra a marujaes marsapos,
E sem que d'estes mil lhe façam papos,
C'o sesso tambem dá ás porras tréla:
Tudo em metal por dous canaes ajunta;
Recrutas nunca teme, e do Castello
Se ri, que aos belleguins as mãos lhes unta:
Nas publicas funcções vai dar-se ao prelo;
Minh'alma agora, meu leitor, pergunta
Se o ser puta não é officio bello?
LI
Com que magoa o não digo! Eu nem te vejo,
Meu caralho infeliz! Tu, que algum dia
Na gaiteira amorosa filistria
Foste o regalo do meu patrio Tejo!
Sem te importar o feminino pejo,
Traz a mimosa virgem, que fugia,
Fincado á terna, afadigada Armia,
Lhe pespegavas no coninho um beijo:
Hoje, canal de fétida remella,
O mysantropo do paiz das bimbas,
Apenas olhas candida donzella!
Deitado dos colhões sobre as tarimbas,
Só co'a memoria em feminil canella
Ás vezes pivia casual cachimbas.
LII
Que eu não possa ajuntar como o Quintella
É cousa, que me afflige o pensamento;
Desinquieta a porra quer sustento,
E a pivia tracta já de bagatella:
Se n'outro tempo houve alguma bella,
Que a amor só désse o cono pennugento,
Isso foi, já não é; que o mais sebento
Cagaçal quer durazia caravella.
Perdem saude, bolsa, e economia;
Nunca mais me verão meu membro roto;
Esta a minha porral philosophia.
Putas, adeus! Não sou vosso devoto;
Co'um sesso enganarei a phantasia,
N'uma escada enrabando um bom garoto.