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Francisco Palha · Modernismo

Requerimento

portugués

Meu Couto Monteiro,
senhor da Justiça
que nunca, que eu saiba, saíu do tinteiro,
e pae dos famintos que engolem á missa
o corpo sem mancha do santo Cordeiro.
Não rondo as arcadas
fazendo-te esperas.
Não subo as escadas
que ascendem aos atrios das altas espheras,
levando no bolso memoria sebenta
que ha mais de mil annos requer um despacho,
nem ponho o toutiço, já calvo aos cincoenta,
em ar de tapete,
em ar de capacho,
no teu gabinete.
Só quero dizer-te que tenho defronte
da casa onde habito
um sino maldito.
Não sei se t'o conte...
De dia, de noite, ao sol, ao luar,
não faz outra coisa
senão badalar!
Nem elle repoisa
nem deixa na rua ninguem repoisar!...

Ha quem me assevere que o demo mofino
montado no sino
se foi baloiçar!...
Baloiça-te, pêrro! Engendra um badalo
do vil pé caprino
e dá-lhe um estalo!
e dá-lhe a matar!
Não tremas, sabujo! que o sino foi bento;
mas sabes que as bençãos são cruzes no ar;
levou-lh'as o vento.

Entrasse em teus ossos o meu rheumatismo;
roesse a medulla; por noites e dias
chumbasse-te o corpo n'um duro colchão;
então saberias,
ó filho do abysmo,
verias então
se assim te mexias!

O caso é que tu
commigo caçôas e ris dos doutores,
pois nunca tens dôres,
e nem te constipas! e, mais, andas nu!

Parece impossivel! Dá volta á cabeça!
Eu cá, homem serio, que gema e padeça;
que em vindo janeiro
me rape um catarrho!... E haver um brejeiro
que passa o inverno
sem chuvas nem lamas!
quentinho nas chammas
do próvido inferno!
rival do Eterno!
eterno elle mesmo! Sagaz Providencia,
e és da justiça, do amor és a essencia!

Bem sei que o tal sino foi feito, fundido
na terra dos cirios, da Carta, do hymno,
d'aquelles quarenta
de pêllo na venta
que ao reino opprimido
quebraram algemas d'um jugo ferino;
e a Carta era um mytho, são presas do olvido
os nomes e as glorias de heroes legendarios
se os sinos dormirem nos seus campanarios
qual dorme a memoria
dos feitos illustres nas sombras da Historia.
Ó Couto Monteiro, se a Carta está morta,
o que é que lhe importa,
que importa aos guerreiros em pó transformados,
que toque ou não toque
nas torres da Graça, da Sé, de S. Roque,
o sino importuno masurkas e fados?!
Nem isso os aquece, nem ha desafôro
qual este que os templos agora profana
passando dos palcos aos orgãos do côro,
aos sinos de igrejas, a copla mundana.

Nem tu me perguntes: «Quem é que armarieis
com mais alegria
que o meigo innocente, do somno lethal
que á treva o prendia,
nos braços do Christo resurge immortal?
Qual voz, como aquella, dos vivos implora
por alma dos mortos a prece final?»
Por isso!... por isso, meu Couto Monteiro!
O vil não repica, nem geme, nem chora,
senão por aquelles que teem dinheiro!

Que nasça, que viva, que durma na valla
quem é pobresinho, sem festas nem dobres!
O sino só tange conforme a tabella,
só diz:—Baptisou-se, dos mortos só falla
se o manda o sob'rano
do reino dos cobres,
a libra amarella!
No ceu, felizmente, vigora outra escala
na qual os primeiros são elles—os pobres,
e poucos ricassos, que vão por engano.

Se és, qual eu julgo, christão verdadeiro.
Meu Couto Monteiro,
é justo que ponhas no prego o sineiro
que á patria com fome
propines uns nacos
de sino em patacos:
verás como os come.

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Autor
Francisco Palha
Título
Requerimento
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-requerimento--francisco-palha-0fc826
Cita recomendada
Francisco Palha, «Requerimento», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-requerimento--francisco-palha-0fc826.html

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