I
Era em março, e a Folia,
dando o braço ao Carnaval,
entrava em Dona Maria.
Não sei que idea fatal
me levou tambem á festa.
Sei que fui. Sei que vestia
dominó côr de giesta,
e que a mascara, que ao rosto
trago presa todo o dia,
eu trocára, ébrio de gosto,
por outra que não mentia.
II
Ia a noite em mais de meio
quando os pés na sala puz.
Os gritos, a dança, a luz
que os novos encanta, e creio
que mais os velhos seduz,
tocaram-me o coração
por tão estranha maneira,
que a não ter ali á mão
as costas d'uma cadeira,
dava co'as minhas no chão.
Persuadiam-me que a Sorte
quer que o homem seja egual
sómente perante a morte,
e vi eu que o Carnaval
tinha o mesmo poder forte!
Junto a mim o sôr Sovela,
disfarçado em lord inglez,
trata por tu o freguez,
que n'outro tu se nivela
com quem as botas lhe fez.
Ao longe o sujo vadio
que, para impingir á gente
um bilhete do Pão quente,
corre a Baixa e o Rocio
dando Excellencias a rodo,
agora vestido á turca,
turca por dentro elle todo,
grunhindo sem tom nem som
paga depois da mazurka
ponche ardente a quem tem Dom.
N'aquelle canto escondido
o calvo e gordo marido
ás moças falla d'amor;
e como deve o traidor
pela traição ser punido,
n'outro canto anda a mulher
a brincar co'o deus Cupido...
dê o brinquedo o que dér!
Cada flôr, rosa ou jasmim,
com seu calix entreaberto
embalsama este jardim,
e ás abelhas que andam perto
como que as oiço dizer:
—Oh! Bebei dôce prazer
que rendida vos offerto!—
Isto é vida! Isto aqui, sim!
que a humilde e santa egualdade
o mundo mergulha emfim
no sol da eterna verdade!...
III
«Boas noites, dominó.»
—Só isso me dizes?—
«Só.
—Pois desde já te requeiro
que ámanhã fiques na cama,
e manda o teu travesseiro
dar umas voltas por cá.
Na chalaça, no epigramma,
as lampas te levará.—
«Quem de espirito é tão fino
devêra ser mais cortez.»
—Vestiu-se de peregrino
a cortezia...—
«Talvez
d'essa longa romaria
a que foi não voltaria!»
—Assim parece. Não vês?!
IV
Quem me descobre a razão
d'esta infame grosseria?...
Consultando minha tia,
disse-me ella:—És um ratão!
Coisas tuas!...—
«Coisas minhas?!
Ora essa!»
—De quem são?
Se teu pae sem ter gallinhas
te deu boa creação?!—
Mais ainda me condemna
ser a mulher que offendi
segunda Venus de Milo!
Que remorso o que eu senti,
e que nó no gorgomilo,
quando, absorto, o que era vi!...
Que ao fallar olhei... Por Christo!
juro que olhei sem ter visto.
V
Como usa a formosa filha
da formosa Andaluzia,
sob a elegante mantilha
pelos hombros lhe caía
de negro e farto cabello
a madeixa ondeada e crespa.
Na cinturinha de vespa...
Alto lá! De vespa, não;
que é corriqueira a figura
e tola a comparação.—
A cintura... Se lhe chamo
só delgada—aqui d'el-rei!
porque é prosa. Ah! Já sei.
Delgadinha como um ramo
que sustém duas laranjas...
E da voz os sons tão finos
com que os hei de comparar?
Com voz d'anjos pequeninos,
travêssos, loiros, meninos
que andam no ceu a cantar,
aos quaes não tira o chapeu
este pobre filho d'Eva
emquanto Deus o não leva
a conhecel-os no ceu?!...
Impossivel!... Pois com quê?...
Deixe-se lá d'essas franjas,
ruim poeta! Você
não sabe que a natureza
faz coisas de tal belleza
que um homem, se logra vêl-as,
ha de pasmado ficar,
e pasmar... pasmar... pasmar;
mas não tentar descrevêl-as?!
VI
Qual a timida gazella
que no prado anda brincando
estremece e foge quando
sente rumor perto d'ella,
assim Dona Raphaela...
Podia chamar-lhe Jónia,
Mathilde, Elisa ou Antonia.
Era o mesmo. Á mulher bella
todo o nome fica bem.
Toma-lhe a graça, a frescura:
participa da candura
de su'alma... se é que a tem.
Que a minha airosa andaluza
como a gazella fugio,
se o não disse a casta musa
que me inspira, o leitor pio
(não ha calemburgo aqui)
certo de si para si
a crêl-o não se recusa;
mas o que o leitor ignora
é que eu proprio, eu que ind'agora
lhe dissera: Vae-te embora,
ao vêl-a fugir fiquei
triste, só, desamparado
como o valido d'um rei
quando cae em desagrado!...
Ai! se o pensamento é vário
mais varía o coração.
Coração—Contradicção—
affirma-me o diccionario
que dois synonymos são.
VII
Amar depois que trinta annos
nos pesam sobre o cachaço;
quando os frios desenganos
guias são do incerto passo
que nos vae levando á campa;
quando a edade a correr vem
e nas faces nos estampa
oitenta rugas, ou cem!
amar sem crenças; amar
sem possuir attractivos;
é padecer, é penar
dôres do inferno entre os vivos.
Sabia-o; mas se fadado
fôra eu já para essa dôr!
e diz Garrett, o doutor
em taes materias versado,
que ninguem foge ao seu fado!
Funesto foi sempre o meu!
Est'alma, que Deus me deu,
em quantos affectos nutre
que devorou Prometheu!.
VIII
Da rósea estancia em que mora
com seu limpido clarão,
sorrindo, ao ceu vinha a aurora
soltar do prégo as azelhas
d'onde pende a escuridão
sobre chaminés e telhas.
A festival harmonia
pouco e pouco esmorecêra;
e co'a luz do novo dia
d'outra oschestra a afinação
mais altos cantos rompêra,
pois que entre os rocios do orvalho
levantára escopro, e malho,
um hymno de gratidão
ao Deus, author do trabalho.
Este aranzel, espremido
n'uma phrase clara e chã,
quer dizer:—era manhã,
e a solfa dos caldeireiros
matava o bicho do ouvido
na rua Augusta aos parceiros.
IX
Cheguei a casa. Quem ama
tambem dorme o seu bocado;
nem ha nada como a cama
para amor ser bem tratado.
Vêde as ratices do mundo!
Sentados no mesmo throno
amor, que é vida;—e o somno,
que da morte é irmão segundo!...
Em tão doloroso trance
é praxe no bom romance
surgir a pallida insomnia
beliscando a cachimonia
do que ás paixões não se poupa;
mas eu, que sigo outra lei,
fui-me enroscando na roupa,
e dormi. Fiz mais: sonhei.
Sonhei, sim. O que é sonhar?
É fugir do captiveiro
d'esta bola sublunar.
A noss'alma, que gemia
entre os ferros, encontrar
a paz, o amor, a alegria,
vivo, real, verdadeiro,
o mundo da phantasia.
É n'um divinal momento
conquistar, possuir, haver
o que nunca o pensamento,
por mais audaz, ousou crêr
que um dia á mão nos viria.
Sonhar é vêr palpitante
a toda a luz da existencia
o pae, os filhos, a amante
que a morte apartou de nós!
Ouvir-lhes a dôce voz...
interromper essa ausencia
eterna, a eterna saudade
que nos deixára o perdêl-os!
Sonhar é esta piedade
do ceu pelas nossas dôres;
esta mão cheia de flôres
que Deus esparge nos gelos!—
Tudo mais são pesadelos.
Pois eu sonhei, e não digo
o sonho que tive então.
Não por ser segredo, não,
que á terra desça commigo;
mas quem tem, como eu, vergonha,
mesmo ao leitor seu amigo
nem sempre diz o que sonha.
X
No outro dia ao almoço,
frugal almoço invejado
ao pobre e triste empregado
a quem aos mezes o Estado
permitte rilhar um osso,
muitas vezes esbrugado;
no outro dia a Gertrudes,
velha magra, feia, teza,
inda cheia, á portugueza,
de calvas e de virtudes,
as quentes papas de milho
veio pôr-me sobre a meza.
A mim a quem nada escapa
logo ali me deu no gôto
O vêl-a andar n'um sarilho
a peneirar-se, e á socapa
sorrindo com ar garôto.
—Gertrudes, que historia é esta?—
E ella a rir.
—De que ri?!...—
A rir-se mais.
—Temos festa!
Vae grande baralha aqui
se me não diz, como quero,
porque essa bocca escancára,
e se desengonça, e rebola...
Ella, atalhando:
«Salero!
Soy, señorito, española!»
Figurem-se a minha cara!!
A visão, a Raphaela
com quem ha pouco sonhára,
o bello typo andaluz,
a flôr de um dia... era ella
saída das mãos do Cruz!
XI
A moral d'este meu conto
implica artigos de fé:
1.º
Quem vê masc'ra não vê rosto.
2.º
Belleza vista de dia
dê-se-lhe sempre o desconto
de trinta por cento em cré.
3.º
Depois do sol se haver posto
até a Virgem Maria
precisa ser vista ao pé.
4.º
Mesmo assim, inda que perto,
não se diga nunca ao certo
que se está longe da Sé.