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Urbano José de Sousa Loureiro · Modernismo

Questão do Palheiro: Coimbrões e Lisboetas — II

portugués

Uma pergunta em segredo
a respeito do Castilho.
—Sabem quem é o sujeito?—
Um velhote de respeito,
sempre co'a mão no gatilho
d'algum doirado epigramma;
que a pedido faz prefacios,
onde ha perolas e lama;
que não encontra poetas
como os Virgilios e Horacios;
que foi o author infeliz
do a-b-c repentino,
e da Lilia abandonada,
que p'lo ciume ralada
se trespassou co'um pepino.

Já o conhecem?—Pois bem!
Um dia 'stava o bom velho
co'uma das mãos n'um joelho,
n'um joelho ou n'um artelho,
(isto diz-se; não n'o juro)
meditando no futuro,
talvez prevendo da Hespanha
o rebentar da castanha;
e batem de rijo á porta.
—Quem é?—a criada indaga.
—Manoel Pinheiro Chaga.—

—Manda subir a visita.—
E de si p'ra si:—Que praga!—
E quando elle entra na sala:
—Ó meu amigo, que dita!
Como se lembrou de mim
no meio dos seus triumphos
o Méry do folhetim?—
—É lisonja; agradecido;
acabei o meu poema...—
—E vem a mostrar-m'o, sim?
Então, amigo, não trema;
o tremer é de criança;
em mim não põe confiança?
Parece pouco animoso!...—

—Bagatella! isto é nervoso!
Padeço muito dos nervos!—
—Eia, sus, ó meu irmão,
eia, vate sonoroso!
a ti a minha attenção!—

E o poeta recitou-lhe
d'um só fôl'go a Invocação:
e logo apoz o poema,
que na filha d'uma beef
(p'lo modo séria menina,
que o Chaga baptisou Emma)
fui descobrir a heroina.
E por fim o poemeto,
em que o heroe papa-fina,
p'ra não dizer papa-moscas,
á chuva, mui socegado,
medita no seu passado.

E vai e disse o Castilho
quando o Chaga terminou:
—Muito bem! dê-me um abraço,
aperte-me este espinhaço!
O senhor não leu, cantou!
Mil parabens!—
—Agradeço,
são favor's que não mereço.—

O velho deu quatro passos,
e para encobrir o riso:
—Ouça cá, tive uma idéa;
se eu lhe escrevesse um «juizo»,
p'ra o livro fazer mais bulha,
urdido á moda de tea,
e n'ella entalado um grulha,
que espirrasse co'a pitada?
—Vossa excellencia pinhora-me
—Acceita?—
—Muito óbrigada;
isso mesmo era o que eu qu'ria
p'ra os volumes não ficarem
nos lotos da livraria...—
—Então, 'stá dito?—
—'Stá dito!—
Retiro-me.—
—Adeus, amigo;
p'ra tudo conte commigo.—

E o vate desceu a escada
trauteando o pirolito.

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Expediente

Autor
Urbano José de Sousa Loureiro
Título
Questão do Palheiro: Coimbrões e Lisboetas — II
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-questao-do-palheiro-coimbroes-e-lisboetas-ii--urbano-jose-de-sousa-loureir-d6b6f2
Cita recomendada
Urbano José de Sousa Loureiro, «Questão do Palheiro: Coimbrões e Lisboetas — II», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-questao-do-palheiro-coimbroes-e-lisboetas-ii--urbano-jose-de-sousa-loureir-d6b6f2.html

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