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PoetósferaLa BibliotecaRaimundo António de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Modernismo

Primavera

portugués

Contempla este ceo esplendido,
Ouve aquellas melodias
De tanta ingenua avesinha,
Que alegre, os serenos dias
Da primavera adivinha.

Não vês a olaia? vaidosa!
Só por vêr que a amendoeira,
Mais cedo desabrochou,
Vermelha como uma rosa,
De repente se tornou.

Oh! bem vinda primavera!
Ao vêr o sorriso terno
Da tua boca divina,
O prado, o monte, a campina,
Que o triste e gelado inverno
Sem piedade devastou,
Num momento se animou!

Em teu regaço a abundancia,
Esperançosa floresce;
Á sombra de teus verdores,
Entre a suave fragrancia
De tuas variadas flores,
Contente o pobre adormece.

E tu, minha vida, ao vêr-te
Sósinha a meu lado agora,
Nesta estação, nesta hora,
Neste encantado logar,
Á sombra d'essa verdura
Onde frouxa a luz desmaia,
Ante o mar que além suspira
Na loira areia da praia,
Não vês que a razão delira,
Que dentro do coração
Não cabe tanta ventura?!

Falta a vida, sim, a vida,
Para esta alegria immensa,
Das nossas almas, querida!
Viva, ardente, pura, intensa,
Nesses olhos brilha a chamma
Do amor que tua alma incerra;
Alma que ao sopro de Deus
Em divino amor se inflamma,
Alma que veiu dos ceos,
E que não cabe na terra.

Fugaz, tranzitorio, vão,
Será para nós o encanto
Que nos enche neste instante
De ventura o coração?

Será! que importa? constante
Virá depois a saudade,
Abraçar essas memorias
De infinda felicidade;
Como ao templo aonde as glorias,
De paz, de amor, de alegria,
Se celebraram um dia,
Mas templo que ao chão tombou,
Se abraça a hera viçosa,
Reveste as pobres ruinas,
Amparando carinhosa
Esse resto que ficou!

Uma lagrima extremece,
Vem de teus olhos á flor!
Minha vida, esquece, esquece,
Que póde haver na existencia
Momentos de acerba dor!
O sopro da Providencia,
Vivo está, vivo respira,
Neste ceo desassombrado,
Na corrente que suspira,
Neste cantico inspirado,
Que as aves soltam no val,
E d'elle provém a essencia
Do nosso amor immortal!

Contempla o vasto horisonte
Que o sol vivido illumina;
Olha as flores da campina;
Escuta as aguas da fonte;
Respira esta aragem pura,
Embalsamada, e suave;
Ouve o cantico d'essa ave,
Que improvisa na espessura!

Recolhe n'alma o perfume,
D'esta encantada poesia.
D'este sol, d'esta alegria,
Que em torno de nós fulgura,
E responde, minha vida,
Se a nossa alma neste instante
Póde com tanta ventura!

Abril de 1856.

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Autor
Raimundo António de Bulhão Pato
Título
Primavera
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-primavera--raimundo-antonio-de-bulhao-p-074880
Cita recomendada
Raimundo António de Bulhão Pato, «Primavera», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-primavera--raimundo-antonio-de-bulhao-p-074880.html

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