Sentados pelas orlas dos caminhos,
Olhái os lacrimosos pobresinhos...
Doentes, velhos, rôtos, corcovados,
Alforges para os hombros, resignados,
Pernas sêcas, cambáias, retorcídas,
Contando-se uns aos outros suas vidas,
—Olhái que inegualaveis odissêas...
Aquelas engelhadas caras feias,
Escaveirádas, sujas, com barbáça,
Contráem-se num rictus de desgraça
Riscado pelo dêdo da miseria...
Sob a abóbada azul, celeste, etéria,
Sem palacios, sem camas, sem pousadas,
Desde o sol-posto á luz das alvorádas,
Percorrem varias terras a pedir
Côdeas de pão...
Á noite vão dormir
Sobre a palha dos velhos alpendráis,
Juntamente cos ratos e os pardáis,
E cos escrofulosos canzarrões
(Expulsos da cosinha plos patrões)
Repartindo com êles das esmolas,
Que tiram lentamente das sacolas...
E comem de uma vêz jantar e ceia...
Ainda assim vós não fazeis idéa
Como êles são felizes, os mendigos...
No estio vão deitar-se pelos trigos,
De bandulhos pró ar, a meditar
Nas velhas aventuras, ao luar,
Dos tempos da bizárra mocidade,
De que inda têm uns restos de saudade...
Rastêjam pela terra as salamandras;
Chilreiam delambidas as calhandras,
Picando por alí o loiro grão...
Que pacífica, ideal consolação
A existencia dêles descuidada:
—Pedir, rezar, comer, dormir... Mais nada.
Tardes mornas...
As nuvens, pelo azul,
São flotilhas, que vogam para o sul,
Em demanda das Indias encantadas
Onde vivem serêias, silfos, fadas...
No outôno, passam líricas manhans
Ferrando os dentes pôdres nas maçans;
E em tardes murmurosas vão-se pôr
Nos êrmos, murmurando com fervôr
As perfumadas orações antigas
Ensinadas plas mães (pobres mendígas,
Que o bom Deus desde ha muito já lá tem...)
Oh! Nunca esquecem orações de mãe...
Chilrêiam cotovias nos valádos...
Nas largas noites invernais, coitados,
É que êles sofrem gêlos e frieiras!
Por horas mortas, quando as ventaneiras
Lhes fogem cos colmados das cabânas,
Abandonam a enxérga das choupânas,
E vão-se recostar pelos portais
Aonde o frio os mortifica mais!
O vento ulúla rouquidões e pragas...
Andam no ar escuridões preságas,
Que põem calafrios na espinha...
Maldita chuva!—Quanto mais se aninha
O pobresinho, mais se ensópa e alága!
Ó santa primavera, Deus te traga...
Primavera! Que tardes deleitosas
Andam no ar ondulações radiosas,
Exalações miríficas das flores...
Que perfusão esplendida de côres
E os pobres, pelas tardes perfumosas,
Corôam-se de mirtos e de rosas,
E atafulham de rosas a sacóla...
Santa abundancia, abençoada esmola
A tua, ó primavéra do Senhor...
—Alvorada de rosas e de amôr...