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PoetósferaLa BibliotecaAntónio Cândido Gonçalves Crespo

António Cândido Gonçalves Crespo · Modernismo

O minuête — Ao dr. Thomaz de Carvalho

portugués

Espaçoso é o salão: jarras a cada canto;
Admira-se o lavôr do tecto de páu sancto.

Cadeiras de espaldar com fulvas pregarias:
Um enorme sophá: largas tapeçarias.

O purpureo tapete aos olhos nos revela
Entre as garras de um tigre anciosa uma gazella.

Retratos em redor: olhemos o primeiro:
No Tóro as mãos de Affonso o armaram cavalleiro.

Era Arcebispo aquelle: esta foi açafata...
Que frescura sensual nos labios de escarlata!

Olhos revendo o azul que sobre a Italia assoma:
Em finos caracóes, a loura e ondada côma:

Collo robusto e nú: cabeça triumphante:
Consta que certo rei... passemos adeante!

Este, que vês, morreu num africano areal
Por vingança cruel do aspero Pombal.

D'esse olhar na expressão infinda e inenarravel
Desabrocha uma dôr profunda e inconsolavel.

Defronte, uma donzella, o rosto meigo e afflicto,
Num extasis adora o pallido proscripto.

O teu sonho nupcial, franzina morgadinha,
Tam cedo se desfez, ó misera e mesquinha!

No burel escondeste o viço e a formusura,
E desmaiaste, flôr, no chão de uma clausura!...

Repara nos desdens do fôfo conselheiro,
Que sorridente aspira a flôr de um jasmineiro!

Em canones doutor: no Paço foi bemquisto:
Orna-lhe o peito a cruz de um habito de Christo.

Esse outro combatendo ás portas de Bayona,
Como um bravo, alcançou a rútila dragôna.

Vibra flammas do olhar; cabeça erecta e audaz;
Illumina-lhe o rôsto a gloria de um gilvaz.

Assistímos, ao vêl-o, ás pugnas carniceiras,
E ouvimos o clangôr das musicas guerreiras...

No antiquissimo espelho, á sombra das cortinas,
Reflecte-se o primôr de argenteas serpentinas.

Sob o espelho se aninha um cravo marchetado,
Mimo outrora da casa, e prenda de um noivado.

Ao lado um cofre encerra, em amoravel ninho,
Antiga partitura em velho pergaminho.

Uma noite extendi a musica na estante,
E o cravo suspirou... naquelle mesmo instante

Da eburnea pallidez doentia do teclado
Manso e manso evolou-se o arôma do passado.

E vi descer do quadro a languida açafata
Que, ao discreto pallôr das lampadas de prata,

A fimbria alevantando azul do seu vestido
O rôsto acerejado, o gesto commovido,

A sorrir, deslisou graciosa no tapête,
Dançando airosamente o airoso minuête...

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Autor
António Cândido Gonçalves Crespo
Título
O minuête — Ao dr. Thomaz de Carvalho
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-minuete-ao-dr-thomaz-de-carvalho--antonio-candido-goncalves-cr-51f4bf
Cita recomendada
António Cândido Gonçalves Crespo, «O minuête — Ao dr. Thomaz de Carvalho», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-minuete-ao-dr-thomaz-de-carvalho--antonio-candido-goncalves-cr-51f4bf.html

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