Olhái ao longe os hervaçáis distantes,
Vereis uma figura desvairáda,
Esbracejando rábida na estrada
Com maneiras sinistras, delirantes...
É um louco enrodilhádo em panos rôtos,
Que anda por aí fugído aos manicómios:
Tem fome; vái, por isso, aos gafanhôtos,
E, se os encontra, apânha-os e cóme-os.
Irôso, magro, sujo, esguedelhádo,
Passando a urrar por entre as oliveiras,
É a relíquia talvêz dum revoltado,
Que prégou sedições pelas ladeiras...
Vêde-o... De olhos bravios e sangrentos,
De mão crispáda para os céus erguída,
—É bem a sombra trágica da vida,
Que vaga pelo mundo, a passos lentos...
Quando na râma ulúlam ventaneiras,
E a chuva tamboríla nas vidráças,
Passeia, em noite escura, plas ladeiras,
Profetisando trágicas desgráças...
Vagueia pelo campo, a horas-mortas,
E a adormece nas encruzilhádas,
Quando os sapos, de negras pernas tortas,
Rastêjam pelas rosas orvalhadas...
Convíve cos fantasmas vagabundos,
Entre as sombras dos altos carvalháis...
Por isso sabe os misterios profundos
Dos sombríos destinos dos mortáis...
E ha quem o visse, em horas tormentosas,
Ao lívido clarão das trovoádas,
Sentado sobre as rochas alterosas,
De longas cabeleiras desgrenhádas...
Vái passear de noite ao cemitério
A trautear umas toadas lentas,
Como se um velho vínculo funério
O prendesse ás ossádas fedorentas...
Se acáso os sinos dobram a defuntos,
O doido rompe em fundo soluçar,
Resmungando nuns místicos assuntos,
Que acabam num raivoso praguejar.
É amigo dos bichos e das rosas...
De manhã vái colhê-las orvalhadas,
E ajunta-as num monte, ás chapeládas,
Como se fossem pedras preciosas...
Como vêdes, seu rosto é negro, horrífico!
No verão, quando o sol arde nas ladeiras,
Vai-se deitar nas cálidas torreiras,
E adormece num sôno beatífico...
Para fugir aos negros manicómios,
Esconde-se nos humidos esgôtos;
Se tem fome, procura gafanhôtos,
Apanha-os e cóme-os...