(JANOTA)
FÁBULA.
Quem de Ovidio os contos leu
Certo inda tem na memoria
A mais curiosa historia
Que elle em seus contos metteu:
—De como Jove indignado
C’uma nação de velhacos,
Para os não fazer em cacos
Os converteu em macacos.
Vendo-se assim humilhado,
Veio o povo castigado,
De contricto coração
A pedir perdão
Ao deus que fulmina o raio e o trovão.
Fazendo caretas, ganindo e guinchando
Lhe vinham bradando
Em mona e bugia:
—‘Restaura-nos, ó padre soberano,
O antigo vulto humano
Co’a perdida razão.’
O Tonnante, a quem passado
Era o primeiro furor,
Dos bugios ao clamor
Prestou ouvido apiedado;
Mas do macaco requerimento
Não despachou senão ametade,
E o resto a deidade
Mandou dispersar nas azas do vento.
Mal o acceno omnipotente
Troou na celeste abobeda,
A monaria contente
Se ergueu altiva, impavida;
Toda se impavesou
E repimpou;
E como gente
A andar por esse mundo se deitou.
O pêllo esfarripado.
Que as cabeças télli lhes ouriçava,
Em lindos caracoes se debruçava
Agora pelo rosto transmudado.
Não mudou por dentro o caco,
Que ficou sempre macaco;
E a cara por fóra
Tambem não mudou muito do que fôra.
Os mesmos focinhos,
As mesmas caretas,
E os parvos risinhos
E as fofas e as tretas.
Assim meio mudados, meio não,
Lhes fez o padre Jove um bom sermão,
E lhes mandou tomar
Aopé da raça humana o seu logar.
O homem com desprêzo o bicho olhou,
Nem siquer nome para dar-lhe achou;
Mas a mulher gostou
Da tal farofia de apparente brilho,
E á coisa pôz o nome de—CASQUILHO.
Londres—1829.