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António Cândido Gonçalves Crespo · Modernismo

Nunca eu te lêsse, ballada!

portugués

Suspende a dura sentença
Que de teus labios ouvi.
E ergue do chão os quebrados
Teus negros olhos magoados,
Quando me acerco de ti.

Ergueste-os, encantadôra!
Mas antes do teu perdão,
Attende-me, e ouve, senhora,
Com todo o teu coração.

Escuta:
«A um rei namorado
«Sincera e fiel amante,
«Ao morrer, tinha deixado,
«De antigo affecto em penhor,
«Cinzelada taça de ouro
«Do mais subido valor.

«O rei preferia a tudo
«Aquella doce lembrança
«Que lhe trazia os arômas
«De umas fluctuantes cômas,
«E de uns labios de veludo,
«Que elle beijára em creança.

«Toda a vez que elle bebia
«Por esse vaso sagrado,
«Uma extatica alegria
«Como flôr ideal sorria
«No seu turvo olhar cançado.

«Um dia sentiu-se o pobre
«Mais triste, velho e abatido,
«Abraçou-se commovido
«Á taça, o tremulo amante:

«E as lagrimas, uma a uma,
«Deslisaram nesse instante
«Nos rudes flócos de espuma
«Da longa barba fluctuante.

«Naquella hora de agonia,
«Chamou seus filhos e herdeiro,
«Deu-lhes tudo o que possuia,
«Ouro, palacios, riquezas,
«O seu castello roqueiro,
«E as suas largas devezas.

«Dividiu tudo, contente;
«A taça guardou sómente.

«Sentindo fugir-lhe a vida,
«Manda o triste convidar
«Seus pares, filhos e herdeiro
«Para um festim derradeiro
«No castello sobranceiro
«Ás verdes aguas do mar...

«Em meio da festa, o velho
«Ergueu a taça e, sorrindo,
«Embebido o olhar no infindo,
«Um frouxo canto soltou...

«E mal o canto findára,
«No leito da onda amara
«A taça de ouro lançou...»

Eram profundos ciumes
Os d'esse rei namorado,
Que não fosse alguem beber
Por esse vaso sagrado,
E viesse a conhecer
Os cariciosos perfumes
Que o tinham embriagado...

Hontem, á tarde, beijando-a
De teu labio a viva rosa,
Lembrou-me a historia singela
D'essa ballada amorosa;
E dentro em mim de repente
Tam extranha dôr senti,
Que num impeto demente
De teu labio humido e ardente
Com tôrvo aspecto fugi!

Lembrou-me, cabeça louca!
Que se eu acaso morresse,
Talvez um outro sorvesse
Os beijos da tua bôcca...

E no azul indefinido,
Ó minha piedosa anémona!
Cuidei ouvir o gemido
Da moribunda Desdemona...

Ai, desavisado amôr!
Perdôa, sombra adorada!
Nunca eu te avistasse, flôr!
Nunca eu te lêsse, ballada!

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Autor
António Cândido Gonçalves Crespo
Título
Nunca eu te lêsse, ballada!
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-nunca-eu-te-lesse-ballada--antonio-candido-goncalves-cr-223fe7
Cita recomendada
António Cândido Gonçalves Crespo, «Nunca eu te lêsse, ballada!», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-nunca-eu-te-lesse-ballada--antonio-candido-goncalves-cr-223fe7.html

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