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PoetósferaLa BibliotecaRaimundo António de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Modernismo

Num album

portugués

(Improviso)

Se eu fôsse um vate inspirado,
Cantor das rosas singelas,
Ah! quantas coisas tão bellas
Tinha aqui para dizer!
Mas eu tenho horror á brisa,
Odio ao prado, odio ás estrellas,
E então aos vates das ellas
Nem sequer os posso ver.

Tu tambem, posto que a vida
Para ti sorria agora
Como sorri uma aurora
Dos puros dias de abril,
Não morres pela açucena,
Nem deliras contemplando
A lua que vai passando
Pelos vastos ceos d'anil.

E inda bem que a Providencia
Te livrou de tal abysmo;
Ó terrivel romantismo,
Quando has de um dia acabar?
Eu conheço uma menina,
Bella, gentil, seductora,
Mas, meu Deus, é tão doutora
Que se não pode aturar!

Arranja umas taes carinhas,
Toma umas taes posições,
Falla em sonhos e illusões
No seu romantico ardor!...
Pois é pena, que é bonita,
Talvez seja até formosa;
Se não fosse preciosa
Era um ente encantador.

Se lhe dizem que é feliz,
Solta um suspiro profundo,
Porque ninguem neste mundo
Até hoje a comprehendeu!
Salvo um ente idolatrado
Porém esse... oh! desventura!
Para a fria sepultura
Na flor da vida desceu!

Emfim, se alguem lhe protesta
Que inda ha de viver tranquilla,
Ergue em extasi a pupilla
Pondo a mão no coração!
Imagina o desgraçado
Que tenha a louca mania
De ir batter comsigo um dia
Neste abysmo de paixão!

Oh! Bem hajas tu que és bella,
Gentil, graciosa, elegante;
A alegria em teu semblante
Co'a innocencia anda a saltar:
Bem hajas tu que detestas
Todos os vates das ellas,
E as romanticas donzellas,
Que andam sempre a declamar!

Janeiro de 1862.

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Autor
Raimundo António de Bulhão Pato
Título
Num album
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-num-album--raimundo-antonio-de-bulhao-p-1a0a74
Cita recomendada
Raimundo António de Bulhão Pato, «Num album», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-num-album--raimundo-antonio-de-bulhao-p-1a0a74.html

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