Tinha ficado em extase profundo
Do protentoso Mausoléo co'a vista:
Mas da pasmosa suspensão me chama
A Fadiga outra vez; eis abro os olhos,
Junto ao sepulcro vejo em lédo aspecto
Matronas duas de belleza estranha:
Humanos hombros veste argenteas azas,
Na dextra mão sustenta argentea tuba;
Vi que era a Fama, que immortaes escritos
De Newton celebrou; era outra a Gloria,
Que os sustenta nas mãos, defende, e guarda.
Da Fama, e Gloria he obra, he maravilha
O immortal Cenotafio: aos pés sentada
A Verdade admirei simplice, e núa:
Ella serve de baze ao grande, illustre
Monumento immortal onde a pressága
Mente me diz, que saberão no Mundo,
Que eu no Mundo existi, tardios netos.
Do seio extractos da materia prima
Dois pedestaes estão, que no encendrado
Ouro conservão symbolos diversos,
E as bazes são de lúcidas columnas.
No meio huma Pyramide que mostra
No mui subtil triangular remáte
Do fogo, e clara luz o throno; e assento,
Qual entre os Gregos o mais douto o mostra,
Crendo que deste fogo era alma chêa,
Que qual laço entre si sustenta, e prende
Intelligivel Mundo ao Mundo inerte,
Incorporea substancia á sensitiva:
(Methafysico abysmo, ou sombra he isto,
Que eu débil, que eu mortal romper não posso).
Daquelle fogo interminavel fonte
Vi d'átomos sahir, que o Sol brilhante
Desde o seu seio luminoso espalha,
Donde o Immenso esplendor dalvez se forma.
Além do alcance do saber humano
He sua rapidez, correm velozes
Dos Ceos o immenso espaço, em toda a parte
Se difundem no ar; destas pequenas
Particulas tem luz, tem lume os corpos;
Sempre impellido vai, vibrado sempre
(Continua undulação) primeiro raio
D'outro, que delle apóz o Sol despede.
Diante da Pyramide sublime
Entre as columnas se elevava ingente,
Firme, segura baze; ordem Toscana
Com magestade seus adornos fórma;
Nella esculpido teu grão nome eu leio,
Immortal Galileo, tu preço, e gloria
Da Etrusca Sapiencia, e timbre illustre
D'alma Cidade qu'em seu gremio ouvira
Os magos sons da Cythara suave,
Que a Laura celebrou, qu'ouvira outr'ora
Da boca de Ficino auri-eloquente
Do excelso Platonismo expor mysterios;
Que dera o berço ao que descobre hum Mundo,
Que o nome seu tomou; qu'inda hoje o guarda.
Immortal Galileo, devem-te os sabios,
Da Terra aos astros o caminho aberto;
Qual deve a Magalhães o nauta a estrada,
Que cerca todo o globo em mar profundo:
He teu brazão sômente, he gloria tua
Desta mesquinha, inerte escura Terra
Avizinhar as lucidas estrellas;
E, se o Toscano ceo d'astros he rico,
Que ao throno Medicêo docel formárão,
A ti se deve, a ti!... Memoria triste!
O throno Medicêo, he sombra, he cinzas,
Depois que o Tygre, ou Vandalo do Sena
Despreza a Sapiencia, avilta os thronos!
O teu engenho inaccessivel abre
Nova estrada ao saber: Britanno illustre,
Com ella architectou obra estupenda,
Que, consagrada á lucida verdade,
Da proterva ignorancia o orgulho opprime.
Immortal Galileo, ao dia, ás luzes
Que ao Mundo trouxe teu saber profundo,
Se oppôz a cega audaz insipiencia
E inda agora se oppõe; que hum véo sombrio
Tentou no Sena despregar-te em cima.
Ah! não se lembrão que se a Italia culta
Não dera o berço a Galileo, não forão
Tão ufanas de si Gallia, e Britannia,
Hum Newton dando á luz, e á luz Des-Cartes!
Dos lados sobre a baze alta, e segura
Eu vi dois globos da pezada, e dura
Magnete, que he mysterio ao sabio, a todos:
Virtude de attracção nella reside,
Se a mente a não conhece, a vista a sente:
Pegando, unindo a si (profundo arcano!)
Esse metal cruel, sagrado a Marte,
Que hoje a misera Europa em sangue inunda,
E he dos mortaes na mão rival do raio.
Esta ao sabio, esta ao vulgo ignóta força,
Como em triunfo se descobre, e mostra.
De teu contínuo meditar foi obra,
Ó Genio do Tamiza, este prodigio;
Mostra a tendencia qu'entre si conservão
Alternativamente os corpos todos,
Que a hum centro que he commum gravîtão sempre.
Ignóto nome aos seculos antigos,
Foi attracção reciproca, e foi sempre,
Centrífuga, e centrípeta ignorada,
Com que estranhos fenomenos s'explicão.
Em seu lugar as gárrulas escolas
Sonhárão Nume occulto, occulta força,
D'odio, e d'amor combate, ou guerra eterna,
Horror do vácuo, e qualidade ignóta.
N'hum dos globos está gravada em ouro
Por mãos de Ptolomeo etherea esfera,
Á qual d'ambito immenso a Terra he centro:
Acima della brilha argentea Lua,
Que o nocturno clarão do Sol recebe.
O mensageiro dos celestes Numes
Muito acima fulgura; e essa, que teve,
Alma belleza, no Oceano o berço,
No que he terceiro Ceo, resplende, e brilha;
Precede o dia; quando nasce, e surge
Quando o disco do Sol se encobre, ou morre!
D'aurea luz coroado, e ardentes raios
O Sol succede: e se descobre Marte
Sanguineo, e triste n'outro Ceo rodando.
De Jupiter o globo immenso, e claro,
Em mui remoto circulo se agita.
Inda além delle, vagaroso, e frio,
Vai do antigo Saturno o debil raio.
Immoveis pontos, lucidas estrellas
Brilhão no immobil crystallino assento.
Obra do grão Copérnico descubro
N'outro globo esculpida, immensa esfera,
Della, o Sol luminoso he centro, he fóco,
Que mui proximo a si Mercurio observa;
Vai n'hum carro apoz elle a Cypria Deosa
Roseos freios batendo ás alvas Pombas,
(Dos astros todos o mais bello, he este);
E n'outro ceo mais alto a escura Terra,
Tornada astro rotante, o gyro absolve;
Da Lua seu satéllite seguida,
Da qual ao vario movimento he centro.
Das feras armas lugubres o Nume
(A quem tanto tributo, incenso tanto,
Em lagrimas, em luto a Europa off'rece!)
Segue-se apoz da terra; e apoz de Marte
O vivo, o claro, o desmedido Jove,
De brilhantes satellites cercado
Que tu, grão Galileo, primeiro achaste!
E do tardo Saturno a immensa, e vasta
Mole apparece, de Clientes muitos,
E variante annel cercado avança.
Hum longo estudo architetou tão bella,
Tão engenhosa machina prestante,
Entre os gelos Sarmaticos levada
Á maior perfeição, pois já n'antiga
Idade a vio sahir absorto o Mundo
Das mãos do escravo do eloquente Tullio,
A quem, deposta a consular soberba,
Se dignou de escrever, chamar-lhe amigo.
Sobre os dois globos se sustenta, e firma
A illustre, sepulcral Urna estupenda;
Architetada, e repellida brilha
De Prisma em fórma, e de materia ignóta;
Se o brilho he do diamante, inda mais brilha,
Se he solido o rubim, mais dura existe.
Nas folhagens de Acanto, ou de Cypreste
Alli pôz Escultura: em vez de adorno,
Em vez dos negros symbolos da morte,
Só gravou Mathematico Instrumento,
Com que medir dos Ceos a immensa estrada
Usa idéa Astronomica segura.
Do negro Paragon moldura observo,
Que em si contém de Izác a illustre imagem;
He relevada em solida Esmeralda,
Parece q' inda volve, e q' inda espalha
Filosofica vista em torno aos astros,
Que respirando está Filosofia.
E tanto ao vivo está, tal arte o fórma,
Que, se meus olhos acredito, ainda
Cuido que solta a voz, que os labios move.
Este relevo portentoso, e raro
He sustido nas mãos d'hum Genio illustre,
A quem deo berço d'Adria a grão Rainha,
(Hoje escrava tambem d'escravos feros)
Genio que objectos da terrena estima
Aos pés soube pizar, e além subindo
Onde o fragil mortal mui raro chega,
Teve ao lado Virtude, e teve o gosto,
Que o bello sabe achar nas artes bellas,
Rival sublime, ou vencedor de Horacio,
Na mente sempre á Poezia dada
Seguro alvergue achou Filosofia;
Pelas varedas da sciencia segue
De Newton o farol brilhante e puro.
Caro ao Monarcha, que juntou n'hum laço
De Minerva, e Bellona o genio, e as artes,
Minerva n'alma tem, nas mãos tem Marte,
E a pacifica Oliva ao louro ajunta:
Monarca invicto, que estendeo vivendo
A mão benigna ás Musas desvalidas,
E ao lado como amigo os vates senta,
E no Reino, onde agora a Guerra existe,
De Augusto, fez raiar dourados dias:
Foi-lhe caro Algarotti; oh fausto nome,
Tão doce e grato ao lisongeiro sexo,
Que une mil vezes formosura, e letras!
Da nivea mão travando-lhe o dirige
Pelas agras do calculo varedas,
E lhe ensina a não vêr com medo, e pena
Os labyrinthos das traçadas linhas
Nos cubos, nos triangulos de Newton;
Este nas mãos sustem o Oval relevo,
Que ao vivo representa, ao vivo exprime
Do grande explorador da Natureza
O magestoso, e respirante vulto.
D'Optica o Genio na moldura estende,
Moldura sup'rior, brilhantes azas:
Com septemplice luz se expandem bellas,
Que as côres todas primitivas guarda:
O corpo todo he nú, cercado apenas
D'hum sendal claro azul que estrellas bordão;
Na dextra mão sustenta, huma grinalda,
E acena de cingir com ella a frente,
De pedraria Oriental composta;
Na esquerda mão conserva os luminosos
Crystaes, em lentes que affeiçoa e pule
Co'as doutas mãos Filosofo tranquillo
O Portuguez Hebreo na Hollanda escura,
Que, a vil lisonja despresando altivo,
Banha o pão com suor, trabalha, e vive.
D' aurea madeixa o Genio hum raio expande,
Que, composto de mil, fulgura ao longe.
Resulta delle a côr candida aos olhos:
Da Urna sepulcral no seio o raio
Se refrange instantaneo, em parte opposta
Quadrilongo se vê, posto que fosse
Esferico ao partir da origem sua.
Diversos gráos, e proporção distincta
As côres entre si guardão, conservão;
O brilhante escarlate occupa o fundo,
O laranjado o meio, e, qual no Goivo
O amarello se mostra, alli campêa;
O verde então se vê, que enroupa as plantas;
Vegetação Rainha assim se veste,
Ópa com que se adorna, e o Mundo enfeita:
Do azul, que forra os Ceos, o Indico he perto,
E da saudade o symbolo tristonho,
Matiz da violeta; eis brilha o rôxo.
Escala harmoniosa! Eis della em torno
D'huma composta côr listões s'estendem,
Que outros compostos gradativos formão,
Que adornos são do Mausoléo soberbo:
E, n'hum Rubim profundamente expressas,
Estas palavras portentosas erão:
"Com suas Leis a vasta Natureza
Immersa estava em tenebrosa noite;
Surge, ó Newton, bradava a voz do Eterno;
Nasceo Newton no Mundo, e nasce o dia."
Eis tres figuras mais, do grão Sepulcro
Ornamento, diviso em torno postas;
Primeiro a de Ancião curvo, e rugoso,
Fontenelle se diz, meditabundo,
Aos Ceos aponta, e contemplando os astros,
Diz que habitados são, que a argentea Lua
He do pensante, e do mortal morada;
Qu'existem Mundos mais no éther immenso.
De vórtices cingido, outro apparece,
Em cujo seio envolve o Sol brilhante;
Em seu gyro assignala o móto aos astros.
Tem sobre o Cenotáfio os olhos fitos,
O simulacro observa, e mudo o adora.
Entre elles ambos Maupertúis descubro,
E sobre hum globo estende aureo compasso,
E sem temer as cerrações do pólo,
Geómetra sublime, os gráos lhe mede.
Eternidade sobre tudo existe,
De insupportavel luz clarão diffunde,
Onde se perde, e se deslumbra a vista,
S' ousa fitar-se ao seu seio immenso.
Mal contemplava o monumento augusto,
De homem tão grande consagrado á gloria;
De tão sublimes extasis me arranca
A Fadiga outra vez: "He tempo, ó filho.
Que o transportado espirito se torne
Á habitação mortal, que desça á Terra:
Vai: quanto viste, aos homens anuncîa;
Vai declarar insólitos protentos
Sobre esta móle sepulcral gravados.
O Mundo vivirá: Newton sublime
Em quanto exista, existirá com elle.
Sobre as ruinas do acabado Mundo
A gloria existirá fastosa, inteira,
Seu throno erguendo sobre immensa, e clara
Luz, que só Newton dividio na Terra."
Disse; eis foge a visão, eis foge o Templo.
Eu, não diff'rente d'hum mortal que vôa,
Desço do cume do fadado monte.
O mesmo monte s'escondeo: vapores
Levantados em torno á vista enferma
Sobre mim denso véo de nuvens formão,
Roubão-me ao claro Olympo: a planta apenas
Se me antolhava que na Terra firmo,
Do novo dia sou chamado ao duro
Lagrimoso trabalho, herança minha,
N'huma absoluta escuridade, inglorio,
Sómente a mim deixado, e á Natureza,
Sem murmurar do Ceo que assim lhe aprouve,
Tranquillamente o tumulo esperando
(Pouco dista de mim!) repouso eterno.
Mas sem que a vil lisonja hum pão mendigue;
Nem aos soberbos porticos dos grandes
A dependencia guiará meus passos,
Nem vergonhosa súpplica, aos ouvidos
D' hum homem meu igual levei té agora.
Falte em que ponha os pés mesquinha terra,
Injusta collisão d'almas obtusas,
Menos que vermes na sciencia, em tudo,
Só grandes na ignorancia, e na impostura,
Me procure azedar cadentes dias;
Nem duro, e negro pão banhado em pranto,
E obtido com suor me escóre a vida;
Nem tenha onde evitar (paredes nuas)
Das estações a dura alternativa;
Nunca abatido o peito em males tantos,
Nem triste o rosto me verão no Mundo;
N'alma assentado o presupposto tenho
De huma voz Filosofica, que brada:
"Dos males todos, o menor he morte."
Se he preciso morrer, sou grande, e livre,
Sou nobre, independente, e sou ditoso;
Do estudo, e da sciencia o fructo he este.
Não he caduca vida hum bem q' valha
De hum vicio só, de huma vileza o preço,
Mas em quanto não finda este intervallo,
Breve entre o berço, e tumulo, desejo
Ó Patria minha, engrandecer teu nome,
Dar-te, qual hes, a conhecer ao Mundo.
Isto busco, isto quero, isto medito,
Neste seculo infausto á paz negado,
Em que tudo se esquece, excepto o sangue;
Em que he sciencia o calculo da morte;
Em que hum Tigre feroz se chama hum grande;
Em que amor do retiro, amor do estudo
Como fraqueza, e pedantismo he tido,
E a sciencia maior lembrar-se o nome
Da terra em que os mortaes seu sangue entornem.
Menos barbaro foi por certo o tempo
Em que do polo aquilonar marchando
Fero Ataúlio, ou Genserico veio
He Theodorico barbaro, mas teve
Ministro ao lado seu Cassiodoro:
Deo-se apreço ao saber, respeito ás Musas.
Filosofo he Boecio; aurea eloquencia
Apolinar, e Símacho sustentão,
E do Grego saber riqueza, e brilho
Nas escolas Ecléticas conserva
Á foz do Nilo transplantada Athenas.
Mas agora!...ah com lagrimas augmento
Do patrio rio a turbida corrente!...
Porém eu torno a mim, que a mim me rouba:
Melancolico véo que alma me enluta.
Trago do Templo excelso inda gravadas
Na fantazia férvida as imagens,
Que eu alli descobrira, inda me lembro
De quanto ao grão Britanno as Artes devem.
Cultas nações extaticas o louvão,
Nunca a lingua mortal cança em louvallo:
Unico Genio, cujo estudo, e fama,
Sómente ha de acabar quando se solte
A chamma voracissima do fogo,
Que a Terra, os astros lucidos consuma,
Com que do Mundo a machina vacille;
Como tu prometeste, e tu cantaste,
Ó dulcissimo Vate, a quem por louros
Deo do Tybre o Tyranno a Scitia, e morte.
Newton; foste mortal; mas quasi eu creio,
(Qual he crença de extatico Poeta)
Que d'hum astro natal vieste ao Mundo
Mostrar prodigios aos mortaes ignótos.
Tu, c'o Prisma na mão mostraste a fonte
Da septiforme côr, que a luz encerra,
Qual seja a essencia sua, e qual a vida.
A superficie dos terrenos corpos,
Em parte absorve os luminosos raios,
E, reflectidos n'outra parte, os manda
Aos olhos nossos com diversas côres.
Opáco eis apparece o corpo, quando
A luz não tópa com directos póros;
Na obliquidade a escuridão consiste,
Pois menor transparencia a luz encontra:
Tu decifraste as primitivas côres,
Ó grande Genio escrutador do Mundo!
Tu das mixtas nos dás brilhante idéa,
Que effeitos são dos reflectidos raios,
E qual seja o poder donde dimane
Á refracção, e reflexão principio.
Nem são de teu engenho obras supremas
As qu'em suave metro expuz té agora.
Não so da luz as vibrações potentes
Refrangiveis mostrou nos corpos densos,
Que no incessante, moto encontrão sempre;
Mas a mais progredindo, a mente excelsa,
Não se perdeo no calculo infinito:
Abysmos onde hum novo ignóto brilho
Aos mortaes pode abrir; sahindo ovante
Do labyrintho de infinitas curvas,
Quando a recta propoz, porque he finita;
Se hum pouco só diverge, então se fórma
Sempre em curva infinita. Ó sombra, as Musas
De ti se espantão, se intimidão, fogem:
Só lhe apraz terra donde brotem flores;
Só manejão pinceis, calculo odêão;
Ou he pequeno emprego á fantazia,
Que se escalda, se expande, e se remonta,
Juntar com sequidão cifras a cifras;
Outro quadro maior minha alma occupa.
Bastava, ó Newton immortal; bastava
A dar-te hum nome eterno, a luz, e as côres;
Mas tu, da clara luz transpondo o Imperio,
Foste os astros seguir no eterno móto.
A pestilente Inveja em vão contrasta
A teu nome immortal memoria, e honra.
Da Geometria nas valentes azas
Nunca tentado despregaste hum vôo,
E d'huma esfera n'outra esfera foste
Viver entre mil soes sem deslumbtar-te;
Lá tu foste encontrar, de lá revélas
Lei q' a hum centro commum chama os Planetas;
E a lei com que do centro os astros fogem.
O móto desigual da argentea Lua
A teus profundos calculos sugeitas.
Tu no móto annual, tu no diurno,
Vais passo a passo acompanhando a Terra.
Tu do grande fenomeno espantoso,
Exposto á nossa vista, e sempre ignóto,
Com que ora sobem na arenosa praia,
Ora descem na praia as turvas ondas,
A verosimil causa, ou certa apontas.
E teu profundo espirito em repouso,
Assombroso mortal, jámais deixaste.
Se, os tubos astronomicos depondo,
Deixas de ir vêr os Ceos, correndo os astros,
Não satisfeito de rasgar o obscuro,
Denso véo que encobria a Natureza,
Pelos sombrios pennetraes entrando
Com luminoso facho, e nunca extincto,
Tu, nascido a dar luz, rasgas as sombras
Talvez mais densas, que no seio envolvem
Marcado já periodo dos tempos,
Vai correndo teu fio, e apenas paras
No momento em q' á voz do Eterno o Mundo
Surge do cáhos, se organiza, e brilha.
Tu, da impostura oriental mofando,
E do fallaz mysterioso Egypto,
Só da verdade oraculos respeitas.
Petavio, Usserio te contemplão mudos
Quando outras luzes contemplando mostras
Da Natureza na observada marcha
Tão remoto não ser da Terra o berço.
A baze, as progressões, a gloria, a quéda
De Imperios vastos que ambição formára,
Interpetre das leis dos Ceos, dos astros,
Quizeste ser Legislador dos tempos.
Quem póde a gloria recuzar-te, ó Newton,
De dar ao Mundo a luz que elle não tinha?
A transcendente Geometria elevas
Ao ponto além do qual finda o perfeito.
Da Natureza sacerdote, acclaras
Mysterios que ignorára a Grecia, o Lacio.
Pelas sombras da Historia a luz derramas
Quando a baze maior, Chronologia,
Tu deixas em teus calculos segura.
Se o profundo Varennio a terra, os mares
Co'a régoa Filosofica medindo,
Este, ai! tão triste! domicilio humano
Em quadro multiforme off'rece á mente;
Tu te dignas polir, dar brilho, e preço
Talvez ao mór Geógrafo que exista;
A Newton por interpetre merece!
Nelle a luz he brazão, que tu lhe emprestas;
Em ti timbre maior, sendo tu Newton,
Confessar, conhecer merito estranho.
Da Natureza expositor, quizeste
As azas despregar n'hum ceo mais alto,
As cortinas fatídicas rasgando,
Com que a mão do Immortal cobre o futuro,
Foi teu maior estudo esse volume;
Onde as visões de extatico Profeta
Em sombra impenetravel se sepultão,
Não vadeaveis, não, que os aureos sellos
Só lhos deve romper momento extremo,
Quando de espanto agonizante o Mundo,
Vir das nuvens baixar do Eterno o filho.
Não foste grande aqui; mas são pequenos
Quantos ousão rasgar comtigo as sombras,
Em que Deus quiz guardar mysterios tantos.
No Templo Filosofico dest'arte
Tu mereceste hum tumulo sublime,
Que he seu mais nobre altar; não pompa infausta,
Qual ser dos Reis o mausoleo costuma;
Neste a gloria se acaba, o nome expira;
O teu dalli começa, e dalli manda
Raios de luz a esclarecer o Mundo.
Se tens a mente de sciencia cheia,
Tens de virtude, o coração cercado:
He mais arduo ser bom, que douto, e sabio;
E huma Virtude só tem mais valia
Que o teu compasso d'ouro, as linhas tuas,
E as leis que dás, ou que suppões nos astros.
Entre o fausto incivil entre a grandeza,
Podeste ser Filosofo modesto.
Ah! sem virtude, a sapiencia he nada!
A Inveja te assaltou, (e a quem perdoa
Este monstro o maior do escuro Inferno?)
Mas tu, qual no Oceano altivo escolho
Das negras ondas, que rebentão, zombas.
E, se hum novo Palacio á Sapiencia
Levantárão mortaes no Tybre, e Sena,
Os enfeites são seus, e as bazes tuas,
Ó feliz Albion, berço de tantos,
Magnanimos Heroes, que o Mundo illustrão,
Da honra e da virtude asylo, e Patria,
Vê que ha no Tejo quem conheça o grande
Alumno teo que legislou nos astros;
Quem seu saber adore, e seu profundo
Systema vá seguindo em todo, em parte;
Quem possa ser maior, e igual ao menos.
Este dos versos meus, tributo acceita
Que eu consagro a teu nome, á gloria tua:
Pendura-os em seu tumulo, e se tanto
Nem desejar, nem merecer eu devo,
Junto da pedra, que os despojos fecha
De Tompson teu Pintor, meus dons conserva:
Se elle traçou da Natureza o quadro,
Dos seculos té alli co'a Lyra intacta,
Eu do Interpetre seu pinto em meus versos
O grande Genio, e lhe eternizo a Fama.
Fim do III. Canto.