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PoetósferaLa BibliotecaJosé Agostinho de Macedo

José Agostinho de Macedo · Romanticismo

Newton, — Canto II

portugués

Da Sapiencia antigos amadores,
Os Sacerdotes do celeste Nume,
Ao sacrosanto Templo alto ornamento,
Com seus bustos em porfido formavão
Do magestoso altar decóro illustre;
Puro, innocente altar, onde a profana
Mão despiedada dos mortaes infrenes
Nunca pozera victimas de sangue,
De que tanto se apraz da guerra o Nume,
Que o cego Fanatismo, ah! tão frequente!
Nas torpes aras da Ambição degolla.
São incensos aqui puros affectos,
E o remontado pensamento os votos;
São offerendas extases sublimes,
Vôos da mente, que s'eleva aos astros,
E corre o immenso espaço. Aquella Deosa,
Que o berço tem nos Ceos, qu'he dom dos Numes,
Que he mãi das Artes, e inventora dellas,
De magestade, e de belleza cheia,
Taes holocaustos no seu seio acolhe.
Vi, (qu'assombro!) de luz cercado o vulto
Do primeiro mortal, puro, innocente,
Qual já das mãos do Creador dos Mundos
Sahio primeiro, e dominou na Terra.
Do Divíno saber nasce ensinado,
Das cousas conhecia a essencia propria,
Impoz o proprio nome aos seres todos.
E junto delle fulgurando estavão
Em menos viva luz seus tardos netos,
Que delle, como herança, alta doutrina
N'huma idade de seculos colherão:
De labio em labio aos pósteros a mandão
Té qu'horroroso, universal Diluvio
Fez que de todo agonizasse o Mundo.
Via logo a Noé, que intacto surge
Do lenho guardador da especie humana:
Aos filhos seus dos fulgurantes astros
O aspecto, o moto, as posições ensina.
Sublime Sapiencia, e douto estudo,
Que tão illustres fez, depois da obscura
Confusão de Babel, nações diversas,
O innocente Caldeo, o Arabe experto,
Do Nilo o morador mysterios todo,
E o Persa audaz idólatra do fogo.
Descubro a Prometheo, e o velho Atlante
Em que a verdade a Fabula reveste
Da Poesia co'as brilhantes côres.
Hum, com fogo dos Ceos, anima o barro;
Outro o pezo sustem do excelso Olympo.
Vejo o profundo Trimegisto, e vejo.
O sublime Cantor harmonioso,
Que de Troia a catastrofe nos pinta,
Que, em brando verso, imagens lizongeiras,
Da Sapiencia os pennetraes nos abre;
A idéa em si contém das artes todas.
Pelas margens do Indo, e turvo Ganges
Meditadores Brâmenes diviso,
Que em sombra muito espessa a luz envolvem,
E a verdade entre symbolos nos dizem.
A Confucio Chinez descubro, admiro,
Que a voz escuta á sabia Natureza,
E firma o summo bem só na virtude.
Tres Zoroastros, que nas sombras plantão
Luminoso fanal, que á Persia, e Egypto
Das Artes para o Templo a estrada aplaina.
Logo dois immortaes cantores vejo,
He Lino, e o doce Orfeo, que a Lyra d'ouro
Com tanta fez soar maga harmonia,
Que doceis se tornou troncos, e penhas,
Que do cáhos no escuro horrendo centro,
Principio do Universo, Amor plantarão.
Pensativo Beroso alli contemplo,
A quem de Athenas a famosa escóla
Estatua alevantou d'ouro mais puro.
A par delle he Chilon, que o dia extremo
Sem pena, sem temor contente encára.
Do tyrannico sangue alli manchado
Pittaco á morte sobranceiro existe.
Legislador Solon de brando aspeito,
Que com vasto saber enlaça Astréa,
E ás leis soube juntar Filosofia;
Dos bons Monarchas o modello he este!
Depois Zaleuco vi, depois Carondas,
Ambos com justas leis Sicilia exaltão.
No meio bem do taciturno alvergue
De Pythagoras sabio o vulto admiro,
No rosto, e ar mysterioso em tudo,
Que da Unidade, ou centro aos seres todos,
A origem fez sahir, principio, e causa.
Cleóbulo descubro, elle a formosa,
Sabia filha gentil conserva ao lado,
Que da engraçada boca em aureo rio:
Eloquente entornou Filosofia:
Ah! nunca aos homens se mostrou tão bella!
Admiro mais além Biante o sabio,
Que digna só julgou de humano estudo
Moral, que na virtude a alma levanta,
Em sua mesma magestade occulta,
Deixando a Natureza, enigma escuro,
Indecifravel aos mortaes mesquinhos
Em quanto em fragil barro a alma se prende.
Periandro alli vejo, e vejo o Scyta
Anacharsis, Filosofo profundo,
Cujo nome immortal materia, e fama
Deo neste ferreo tempo ao douto escrito,
Que a Grecia em si contém, co'a Grecia tudo.
Vejo a Misson, que symbolo o destingue?
O nobre, e nobre só proficuo arado,
Que o seio rasga á terra agradecida:
Delle se peja a estólida vaidade;
Do Filosofo á vista he mais que hum Ceptro:
Na cultura do campo o sabio he grande;
Nem pode o estudo ter mais digno objecto;
E nunca outro mister, nunca outras artes,
Com mais afan buscasse o engenho humano!
Celeste Agricultura, oh digno emprego
Té do mortal primeiro inda innocente!
Eu distinguo Epiménides, que deixa
A escondida caverna em que medita,
Aos homens vem mostrar da luz os raios
Ferécides, Bericio, e aquelle observo,
Que a Frygia vio nascer sublime, e douto,
Que em lizongeiras fabulas esconde
Quantas depois lições do justo, e honesto
O Pórtico sublime, a Estóa derão.
Thales descubro então, brazão da Jonia,
Que he da primeira escóla excelso mestre,
Que á Grecia deo lições, deo luz, deo tudo
Quanto soube alcançar de Astronomia
Do protentoso vidro o olho despido.
Elle primeiro do Solsticio o ponto
Sobre a Terra observou, e elle primeiro
Predisse aos homens pavoroso eclypse,
Que rouba a luz á Terra, e a paz ao peito,
Deste mysterio assustador ignáro.
Elle o principio assignalou do Todo,
O humor aquoso que circunda o globo.
Vejo Archeláo, Anaximandro admiro;
Este infinita julga a Natureza;
(Ó Portuguez Hebreo, tal foi teu erro!)
Aquelle julga que as primeiras causas
Só são da geração calor, e frio.
Anaximenes do Orador Romano
Sempre admirado, alli contemplo, admiro,
No móto eterno da substancia eterna
A essencia poz de hum Árbitro supremo,
E deo ao Mundo por principio immenso,
A substancia do ar, vasto, infinito.
O profundo Anaxágoras diviso,
De fundos olhos, de enrugado aspeito
Prolixa barba, atenuado corpo,
Que ardente pedra incombustivel julga
O luminoso Sol. Vai branco, e curvo,
Calva a rugosa frente, a tez sombria,
O protentoso Sócrates, o justo,
(Quanto o ser pode a Natureza impura)
Attento sempre ao movimento interno
Do humano coração, regeita, e mófa
Dos vãos systemas fysicos do Mundo,
Que á mente dos mortaes ignotos deixa,
E s'apraz de deixar Motor Superno.
Só da austera moral segue as pizadas,
E avezado o mortal ás vans idéas
Da vacillante Fysica o procura
A estudo reduzir da essencia propria.
Só quando o homem se conhece he sabio!
Vejo Aristippo, Antísthenes descubro;
Hum busca o summo bem no inerte, e baixo
Prazer que encanta os corporaes sentidos:
(Ó lisongeiro do soberbo Augusto,
Teu systema tal foi, teus aureos versos
Aristippo sómente, e Amor respirão!)
Porém, mais sabio Antísthenes encontra
Só d'alma no prazer, ventura extrema;
Este o primeiro da assisada turba
Do Cynico mordaz. Crates contemplo,
Que julga inutil pezo a vã riqueza,
E no abysmo do mar com ella esconde
O inquieto temor, voraz cuidado.
Alli Monîmo admiro, e Zeno, e Hiparco,
Vejo a vagante habitação do Sabio
Diógenes pasmoso, e alli defronte
Em pé contemplo o assolador do Mundo;
Da esquerda parte inclina hum pouco a frente,
E a fluctuante clámyde lhe arrastra;
Pende-lhe ao lado o ferro, e delle em torno
Calisthenes contemplo, e mudo, e quedo
O grande Efestião. Elle alça o braço
De quem Persia se teme, e teme o Ganges,
E ao pobre habitador da cuba off'rece
Seus thesouros, seus dons; tranquillo, e grande,
Só lhe pede que ao Sol não véde as luzes,
Nem lhe tolha o calor que ao frio, inerte
Corpo negado tem Frugalidade.
Se houve grande Filosofo, he só este!
Com taes lições, já Menedemo he grande,
Que hum só bem conheceo, e he só virtude.
Euclides vejo, e Pontico, avezado
Á contumaz contradição de tudo.
Vejo Estilpon magnanimo, que a intonsa
Cabeça traz, e descoberta sempre:
Pobre o vestido tem, e os pés descalços,
Com elles piza a vaidade, o fausto,
E quanto pede o coração lhe nega.
Ó grande Preceptor do ingrato Nero,
Se isto não foi teu animo sublime,
Ah! são por certo teus escritos, isto!!
Diofantes, Apolonio, eu bem destinguo,
Tem nas mãos o compasso, e tem na terra
Immoveis sempre os encovados olhos;
Alli descreve as trabalhosas curvas,
E além disto não mais surge esta idade;
Não foi mais Galileo, nem mais Des-Cartes!
De Estoico rigor seguindo a trilha
Eu vejo envolto em seus possiveis Zeno.
De veneravel rosto accezos olhos
Eu descubro a Platão, Platão que o Nume
Nos objectos que vê, contempla, adora;
Que a novo Amor dá luz, e alegre espera
Que a seu astro natal sua alma torne.
Ó sublime doutrina, ah tu podeste,
Dentro da Escóla de Florença outr'ora,
O eloquente escutar Policiano;
Se as letras tem na Europa apreço, estima,
Se em seu amor se me embranquece a frente,
A tão sabio mortal, tão grande o devo!
Este o tributo, que meus versos pagão:
Que mais te posso dar? Teu nome he tudo.
Vejo Espeuzipo imitador da grande
Virtude illustre de Platão sublime:
Teve commum com elle, o estudo, o sangue;
E a baze eterna lança á Academia,
A quem deo nome o milagroso Tullio.
Da belleza inimigo, e da ternura
Xenocrates descubro austero, e triste,
Vergonhoso baldão da especie humana,
Que, nem ao mago scintilar d'huns olhos
Nem ao surrizo de purpureos labios
E ás aureas ondas de madeiras d'ouro,
Sente no peito a Natureza toda,
Q'até do fundo abysmo aos monstros feios,
E sanguinario Tigre, amar ensina.
O pertinaz Arcesiláo na escola
O segue, duvidando, a alma suspensa
Entre a diversa opinião conserva.
A imagem de Carnéades descubro,
Da nova Academia he timbre, he gloria
Cuja alma excelsa da verdade indaga,
Entre o provavel sempre, a estrada incerta.
Pythéas vejo que do antigo Sabio,
A quem Samo talvez já déra o berço,
Vai seguindo as pizadas, e se julga
Continuo habitador de corpos varios.
Este aos ceos porporção, este a medida
Primeiro assignalou; dos aureos astros
Para hum centro commum conhece o móto
Naquelle antigo symbolo mostrado
Da septicórde auri-sonante Lyra,
Que Febo tem nas mãos, q'o Vate inveja;
E se lhe antolha, que escutava ao perto
Sempiterna, multiplice harmonia,
Da Esfera portentosa alto-brilhante;
Talvez nelle encontrasse o germe, a fonte
De seu systema de attracção, sublime,
Infatigado explorador Britano....
Meditador Empédocles já vejo,
Que julga (ó fraco dos mortaes discurso!)
Suor do terreo globo o vasto Oceano;
Se este, se este não foi, Buffon facundo,
Esse teu vapor humido, que a Terra,
Destacada do Sol, e ardendo em fogo
Ao mais subido d'atmosfera exhala,
E cahindo de lá se fórma em mares!
Do Italico saber brazões sublimes
Tidas, e Architas fulgurando admiro;
Ambos julgavão cada estrella hum Mundo.
Suspenso pelo ar alto infinito,
Onde hum astro central preside a muitos
Rotantes globos, q'em si mesmo opácos
Reverberante luz delle recebem:
E no globo gentil da argentea Lua
Mares, selvas, montanhas supozerão,
E de ser pensador fecundo alvergue.
Este nas margens do revolto Sena,
Que hoje escravos só vís, só ferros banha,
Teu pensamento foi, sublime engenho,
Quando d'hum Mundo n'outro Mundo ignóto
Levaste a passear matrona ímbelle,
Do prazer filosofico em ligeiras
Azas de accezo enthuziasmo ouzado.
Tal foi a idéa de profundos sabios
Que tão soberba opinião vestírão
Das côres da razão, qual tu fizeste
Nessa pasmosa extatica viagem
Com q', ó profundo Képler, te lançaste
Por entre os astros aos confins do Todo.
Na escura tez Prothagoras conheço,
Que entre sophismas envelhece, e nega,
Oh! sacrilega audacia! hum Deos ao Mundo.
Nem vê na grande architetada mole
De hum Ser eterno a mão reguladora!
Cheio de assombro, e maravilha fito
Na imagem de Demócrito meus olhos;
Abdera o vio nascer, e a mente excelsa
Na grande esfera da sciencia entranha.
Vejo a par delle Heraclito, que chora
Ao triste aspecto da miseria humana,
Em quanto aquelle no incessante rizo
Com soberba indiscreta o Mundo insulta:
Ambos no excesso opposto hum erro abrange.
Vejo a Pirron que pertinaz duvîda
Do que tem da verdade o cunho impresso;
Muda sempre de côr, muda de aspecto,
He duvidoso, e vacillante sempre;
Filosofico orgulho, e quanto, e quanto
Se fecundou teu germe em peito humano!
Teu scepticismo do erudito Baile
Os escritos manchou, q'espalhão sombras
N'hum ponto unindo o verdadeiro, o falso!
Entre guerreiras machinas envolto,
Entre abrazadas náos vejo Archimedes:
Cheio de palmas, de laureis lhe chora
De Siracuza o vencedor, a morte;
Foi esta a vez primeira, ó grão Marcello,
Que sobre a Terra fez Heroes o pranto!
Illustre pranto, que aligeira ao Mundo
O ferreo jugo do Latino Imperio!
Eis descubro Epicuro, o vulgo insano
Nelle descobre hum ímpio, eu vejo hum sabio
Frugal, modesto, taciturno, humilde,
Que d'alma no prazer, puro, e sincero
Suprema quiz constituir ventura.
Entre viçosas arvores se assenta
De hum ameno jardim; medita, ou finge
Os infinitos átomos no vácuo,
D'hum laço casual produz os Mundos.
D'alma foi erro, e da vontade engano
Não passa ao coração; tranquillo, e puro
Ama a virtude. Ó Seneca, foi este
Teu pensamento quando instrues Lucilio.
Mas erraste; he chimerica a virtude
Em quem della não vê n'hum Deos a fonte:
Quem no acaso conhece o author do Mundo,
Se não erra, e blasfema, então delira!
Eis d'Estagira o Genio, eis o prodigio
Talvez, talvez maior q' a Grecia vira.
Do Mundo he mestre, a Natureza he sua,
Não se confunde o Peripáto, e elle:
Elle foi luz, o Peripáto he sombra.
Não he seu mór brazão ter visto o Mundo
Do Mundo o vencedor posto a seu lado,
Pois de Alexandre, que conquista a Terra
Só devia Aristoteles ser mestre.
He seu tymbre maior ter da sciencia
Quasi o infinito circulo corrido.
Inda em seus livros q' a ignorancia altera
(Ignorancia dos Arabes soberba)
Saber encyclopedico descubro.
Se hoje tudo he Buffon, se Plinio he muito
Senão fora Aristoteles, não forão.
Bem como hum Nume ao Mundo as bazes lança
Quando no instante productivo o manda
Sahir do centro do confuso cahos;
Assim das artes, das sciencias todas,
Quasi no cahos da ignorancia envoltas,
Lança o grande Aristoteles as bazes.
Quando deixou de perseguir o Mundo
A Sapiencia, o merito, a virtude?
Tristes aves da noite a luz odêão:
D'Athenas Aristoteles se esconde,
Em voluntaria morte azylo encontra.
Na sublime cadeira então se assenta
(E alli brilhando estava) o douto, o grave
Da Natureza interpetre Theofrasto;
Desgraçado Calísthenes lhe escuta
As sublimes lições, e o grande Endemo,
E a respeitavel multidão dos Sabios
Affeitos sempre a passear pensando.
Do Tybre a escravidão, do Tybre os ferros
Tornão de Athenas, e Corintho o fasto
Em pobre aldêa, ou lastimosas cinzas:
Eis se transplanta a Sapiencia a Roma;
E, se da Gloria o Templo as armas abrem
A seus grandes Heroes, tambem seus Sabios
No eterno Templo da sciencia eu vejo.
Entre todos mais luz, talvez mais clara,
Que a que se espalha dos Argivos bustos,
O protentoso Cicero derrama!
Nenhum Sabio formou do Eterno Nume,
Entre as sombras Pagans, mais alta idéa!
Elle incorporeo, immenso o considera
De eterna Providencia, Amor eterno.
Existente por si, e author do Todo.
Por certo entre os mortaes nenhum té agora.
Tão profundo saber juntou co'a rica
D'aurea eloquencia exuberante vêa!
Do Epicurêo Lucrecio então descubro
O pensativo, e descarnado aspeito:
O centro tira do Universo, e Mundos
Infinitos julgou no immenso espaço.
Alli vejo Epitéto humilde escravo,
Mas entre os sabios soberano, e livre;
Cuja fragil alampada hum thesouro
Entre as joias valeo da antiga Roma.
Vejo o vulto de Seneca, seus olhos,
De huma luz ardentissima, levanta
Meditabundo ao luminoso assento;
Piza as salas fataes d'ebano, e d'ouro,
Onde o sangue materno hum Nero entorna,
Onde jaz de Germanico o cadaver
Seneca o monstro louva, e s'entristece:
Dependencia d'hum throno a quanto obrigas
Pequeno em obras he, grande em sciencia
Elle a vida antepoz ao justo, ao pejo
Por ella perde de viver as causas:
Mas em seu gremio o tem Filosofia,
Só porque disse q' ás acções internas
He presente hum juiz, presente hum Nume.
Roma nelle acabou. Na foz do Nilo
Imperial Alexandria surge;
Ella produz o Eclético Potámon
No Templo veio fulgurar seu rosto.
Da bella Hipacia a formozura brilha;
Eloquencia, e saber da boca entorna
Entre suaves halitos de rozas,
Que transportado Origenes lhe escuta.
Em sua escola Próculo se exalta,
Amónio, Celso, Jamblico, e Porfirio,
Que mal sabido Platonismo illude.
Vejo n'hum throno, sobranceiro a muitos,
O magestoso vulto auri-esplendente
Do novo Tullio, o fluido Lactancio,
Talvez maior, que o Consular de Arpino.
Não era longe delle, em sombra envolto
Da prizão melancolica, Boecio;
Vai banhando os grilhões d'amargo pranto
Té que raiando vio Filosofia,
Que as sombras rompe, as lagrimas lhe enchuga.
Profunda escuridão, profundo luto
No vasto Imperio das sciencias pousa;
Onde apparecem Vandalos, acabão.
Quaes vemos entre nós do Sena os monstros,
Que vem das artes derrubando os Templos;
Vem do gelado, tenebroso Arcturo
Bando, de morte, e de ignorancia armado,
Apenas ficão gárrulas escólas,
Que hum só busto não tem no eterno Templo,
Té que dos gelos de Sarmacia surge
Copérnico immortal, este o primeiro
Que alli se manifesta, alli fulgura
Entre os astros envolto, entre as esferas:
Vio Sol immobil, vio rodar a Terra,
E apenas o immortal pasmoso escrito,
Ao respeito dos seculos entrega,
O templo augusto da sciencia todo
De protentosos sabios se povôa.
Eis se me amostra Galileo, dos astros
O novo Cidadão, tem curva a frente,
E descarnadas mãos co'as vís cadêas.
Cinge-lhe Jove na enrugada testa
As q' elle achára incognitas estrellas.
D'antiga Resia veio o alto ornamento,
He Bernúlli immortal. Na margem fria
Do discordante Baltico diviso
O grande author das Mónadas, q' encontra
No composto mortal mága harmonia
Entre a composta, e simplice substancia.
Nascido a meditar, modesto, e mudo,
Da nebulosa Hollanda em canto escuso,
Do grão Des-Cartes magestoso vulto
Entre as sombras, e a luz plantado admiro.
Hum globo tinha aos pés nas mãos hum facho
Q' ao globo espanca a tréva da ignorancia.
Legislador sublime além brilhava,
Verulamio infeliz, primeiro as portas
Da recatada Natureza abria.
O desprezado á cinte, e ignoto a muitos,
O frugal Espinosa aqui surgia.
Errou que he homem, mas errou com elle
Toda a escóla Eleática, e tu mesmo,
Ó Seneca immortal, com elle erraste:
E Campanéla, e Bruno, e a nós mais perto
Contradictorio Mirabaud, deliras.
Mas quem, profundo Hebreo, te nega engenho?
Em força d'alma hes unico entre todos
Dos que além penetrar julgão que he dado
Do que foi dado a pensamento humano.
Eu te posso impugnar, e outros te insultão.
Talvez eu sorte igual no Téjo alcanço
Não penetrando da Sciencia o Templo,
Porém no ingénuo dom d'ingenuos versos,
Que a si por premio tem, por méta a Patria:
Béja te deo teus pais, teu berço o Douro:
Alguma cousa tens commum comigo.
Alli d'Obergio, Mallebranche, e Locke
Os aureos bustos luminosos via,
Que em transcendente fluido brilhante
Para hum Mundo ideal seus passos guião,
E, as sombras methafisicas rompendo,
Sem fallar ao sentido as almas fallão,
Abrindo o geometrico compasso
Quantos talentos assombrosos vejo!
Entre o Germano agudo, e ameno Franco
Do Italico saber vejo os milagres.
O que Diofante, o que Apolonio excede,
Do grão Toscano a par, brilha Viviani.
Sexo, sexo gentil, na Italia hes grande;
Nos Labyrinthos do profundo Euclides
A formosa Ardighelli, e Agnezzi entrarão
Outra Laura maior, q' essa, que outr'ora
Do vate, todo amor, deo força á Lyra,
Nos penetraes da Natureza entrando,
A Spalanzani explica altos mysterios.
Com ella Boscovich subiste aos astros.
Não te vence hum Maraldi, e nem Cassini:
Talvez, talvez, que a formosura as graças
Me pareça que dão luz ás sciencias.
Algaroti, teu vulto alli contemplo,
Tão grato foste ao Salomão do Norte;
Porém mais grato a mim, e ás artes foste;
Entre o fulgor da purpura mais brilha
Do grande Passionei a excelsa imagem;
Issocrates te cede, inda que venha
Do grão pezo dos seculos seguido;
Não tem que oppôr-te, ou q' igualar-te o Sena,
E menos tem q' equiparar-te o Mundo
Encanto omniscio, universal Roberti:
Não me cega a paixão, q' ao Tibre eu guardo,
Nem o clarão de Italica sciencia
Tanto me cega, e me deslumbra tanto,
Que não veja raiar no Templo augusto
D'Anglia, e Germania os protentosos sabios.
Alli d'Hobbes descubro a imagem triste;
Alli vejo Stanley das Artes Livio;
E o que nasceo para illustrar o Mundo
Desde o frio Danubio, o grão Bruckéro;
E Kant, a si clarão, e enigma a todos.
Alli brilhava Degerando illustre,
Que em mui douto suor banha os escritos,
Que eterno fazem nos umbraes da Gloria
De ti, Filosofia, ávido amante.
Meigos olhos lançou tambem no Téjo
(Quando ha de, ó Téjo, conhecer-te o Mundo?)
E, entre inda sombras Arabes descobre
O profundo Vernei, o ameno, o rico:
E, que dissera se encontrára hum Nunes;
Astros, astros do Ceo, prendeo-vos elle
E, o subtil instrumento ao nauta entrega,
Ao nauta Portuguez, senhor dos mares:
Sem elle Cook o globo ah! não cortára!
Mas lá foi Magalhães sem elle, e cerca,
Porque a si se levava, o mar, e o Mundo!
Tu nos meus versos mofarás do Lethes,
E a gloria que te nega a Patria ingrata
Em suaves canções te outorga hum vate.
Ah! permittira o Ceo, q' o preço humano
Á morte não pagára alma tão grande!
Eu não deprimo o merito, o talento;
Naquelle alcáçar resplendente estava
(Deposto hum pouco o Tragico cothurno,)
O florido Voltaire, Sceptico illustre,
Emilia tinha ao lado, Emilia o tymbre
Talvez maior do feminil engenho;
Com ella corre a passear nos astros.
Eu lá vejo Nollet, Brisson descubro.
Salpicado Bailly de fresco sangue,
Indagador Sonnini a quem Fortuna
Se honras na vida deo, na morte as néga;
Vive em sciencias, na pobreza expira.
Além dos mares a Franklîn descubro,
Que o raio foi prender nas mãos de Jove.
De Prussos vejo o busto; o nome ignoro,
Ou barbaro talvez não cabe em versos;
Aurea lingoa do Téjo em vão procura,
Em seus cadentes numeros suaves,
E na Lira ajustar, que a Grega imita,
Os acres sons dos Hyperboreos nomes:
Mas não faz dura a metrica harmonia
O teu nome ó Linneo, tu sacerdote
Do Sanctuario d'alma Natureza;
Alli vejo teu busto, alli cercada
A frente tens de peregrinas plantas,
E tu, qual novo Adão, dás nome a todas.
Hum ramalhete de purpureas flores
A Europa, a Lybia, a America t'off'rece;
A Asia de tantas maravilhas chêa
Das margens do Mecón, do Ganges, do Indo
Grinaldas te prepara, e lá tas manda,
Tão bellas quaes as pinta o China astuto:
Ceilão entre seus balsamos as tece.
E o suave vapor, q' a Aurora exhala,
Lá no berço onde nasce, e espalha rozas,
Em dourados túribulos te invia.
Não tiverão os Reis, tributos destes!
Ao poder se negou, dá-se á sciencia.
Maior gloria me chama, hum novo busto
Que entre todos maior, mais luz derrama.
Este he Buffon, que não mortal parece.
He seu louvor, universal silencio:
Nem lingoa humana diz, nem mente abrange
Tudo o que foi Buffon; contemplo, e calo.
Se he mais q' a Poezia, he mais que humano
Rafael co'os pinceis, Buffon co'a lingoa....
Só Natureza he mais, porq' elles morrem,
Morre, não ella, taes rivaes supplanta.
Só Newton he maior; que entrego a palma.
Não ao que pinta, ao que conhece as causas;
Se este he só venturoso, este he só grande.
Com tanta luz atonito, e suspenso
Volvo os olhos de hum lado, e bem no meio
Do magestoso Templo o altar estava.
Por argenteos degráos se avança e sobe,
Mas com trabalho, á baze alabastrina.
Alli sentada—Experiencia—estava.
Eu prompto a conheci no rosto antigo
Na longa veste, e diamantina tarja,
Em q' esta li gravada, aurea sentença:
"Das cousas mestra eu sou, dos homens mestra"
N'hum quadrado Geometrico se assenta
O sacrosanto altar, e em cima posto
Vi como hum vaso de alabastro puro,
Que não de Fídias o cinzel abrira;
Teve artífices dois, Estudo, e Tempo.
Do seio lhe rompia etherea chamma,
Q' ante o Nume brilhando aos Ceos subia
Inextinguivel lampada, que os annos
Vão augmentando progressivamente.
Formão á Deosa os seculos hum throno
Mais que os rubins precioso, e mais segura
Materia tem, que o sólido diamante.
Tem cheio o rosto de Viveza, e graça,
Que amor no humano coração desperta,
Que encadêa a vontade, a alma levanta.
D'estatura commum se me antolhava;
Mas logo a vi subida até co'a frente
Ir topetar na abóbada do Templo.
De fios subtilissimos tecidas,
Mas de materia indissoluvel, erão
As vestes q' ella traja, e que formadas
Forão por ella mesma, obra pasmosa,
Que do candido pé, ao collo eburneo
Forma diversos gráos: hum véo sombrio
(Por mão proterva lacerado em parte)
De negra antiguidade a envolve toda
Nas mãos tem livros de diversas lingoas,
Onde eleva tambem dourado sceptro.
Pasmado, á quasi omnipotente Deosa
Todo me inclino, a magestade acato.
Titubeante, e tremulo dest'arte,
Soltando a voz hum pouco, á Deosa fallo:
"Ó tu do estudo emprego, ó Madre excelsa
Da intelligencia dos arcanos todos
De que he fecundo o Ceo, fecunda a Terra;
Tu da verdade indagadora, e facho
Luminoso da vida. Ó tu do vicio,
Tu da ignorancia rispido flagello,
Tu, q' hes tudo ao mortal, q' hes luz, q' hes vida,
Ante os teus olhos me conduz Fadiga:
Misero Vate eu sou, no peito acôlho
Desejo de saber: sempre afanoso
Apoz a imagem da verdade eu corro;
Mas a alma envolta em sombra, em sombra os olhos,
Enigmas vejo só, eu palpo enigmas:
Sentir, gozar, não perceber, he esta
Da existencia mortal partilha, e obra....
Mas qual te vejo, ó Deosa, e q' orgulhosos
Amadores te cercão! Que ignorantes
Do acatamento q' a teu lume immenso,
Deveo sempre guardar o engenho humano!
Deve, qual pobre, pequenino rio,
A quem agua não deo caudal torrente,
Correr tranquillo, e murmurar nas pedras,
Ao Pastor innocente, á Ninfa ingenua
Objectos de prazer offerecendo.
Mas o desejo audaz, e o louco orgulho
O torna rio impetuoso, e bravo
Soberbo, ufano vai d'agua não sua.
Eis se despenha, qual torrente Alpina,
E os campos cobre furioso, e turvo;
Leva comsigo os troncos, leva os gados,
Leva o Pastor, e a misera choupana,
Té que cesse do ar fecunda chuva:
E, serenado o ceo primeiro orgulho
Então depõe deixando a marge enchuta."
Mais quizera dizer eis q' o grão Nume,
Fitos em cuja frente eu tinha os olhos,
Soltou dos labios divinal surriso,
E, doce voz alevantando, exclama:
"Podem, meu filho, eternizar no Mundo
O mesquinho mortal meus dons sublimes,
E as idéas altissimas, e claras,
Q' eu co' mão destra na sua alma imprimo;
Comigo, e o sentes tu, do pezo humano
Se livra, se desfaz o entendimento;
Ao alto sóbe, e se remonta, e chega
Comigo aos claros Ceos, comigo entende
Mysterios profundissimos, e entra
Da Natureza nos occultos seios.
Essa Eterna Razão por mim conhece,
Que se difunde n'Universo inteiro,
A, que mora no germe, occulta força,
A que a tudo dá forma, e dá figura.
Por mim, por mim conhece a origem d'alma,
Qual tenha em corpo humano assento, e throno;
A que fim s'encaminhe, e quaes s'encontrem
Ou desgraças, ou bens, na vida, e morte.
Eu torno bello o Mundo, os homens sabios
Se ingenuos querem vir seguir meus passos,
E contemplão por mim o alto principio
Das cousas em si mesmo, os gráos, e os tempos,
Que a tudo tem prescripto a mão do Eterno.
Eu os levanto a conhecer hum Nume,
Obedecer-lhe, e venerallo sempre:
Delle, só delle a pressentirem tudo
A lei, e ordenação; eu só lhe ensino
A dar justo valor, dar justo apreço,
Ao que se mostra ou verdadeiro, ou falso.
Se o prazer, a que he misto o pranto, a magoa,
E o pungente pezar, que he tardo sempre,
Os homens sabem condemnar, eu mesma
Seu peito aclaro, o coração lhe inflammo;
He meu proprio este dom. Por mim descobrem
Que he só feliz na Terra, he só potente
Quem se domina a si: Guia incorrupta
São minhas luzes ao mortal na vida.
Eu primeiro lhe aceno, eu lhe preparo,
(Depois Religião, que he só, que he tudo)
Séde no Ceo, qu'eternamente he bella.
Do Christianismo h[~u] mestre, h[~u] sabio, h[~u] grande,
De Alexandria nas escolas doutas,
D'alta verdade, que dos Ceos foi dada,
Pedagoga me chama, eu sou por certo
Quem da luz da Razão, da Natureza
Leva os mortaes a accreditar mysterios
Qu'á razão não se oppõe, mas são mais altos.
Mas eu desço comtigo ao Templo augusto;
Q' inda que erguido o vêz, não he distante
Da terrea habitação do engano, e minha.
Olha, admira, contempla a excelsa móle
Premio d'hum Grande que he brazão do Mundo:
Este he d'honra immortal o alto ornamento,
Que eu mesma á Gloria consagrei, com elle
De hum Pontifice meu premeio as obras,
Elle as minhas expoz, dou premio ás suas."
A Deosa emudeceo, á dextra eu volvo
(Nunca confuso assim) trementes olhos;
E no meio da luz brilhante, e pura
Soberbo alçar-se Mausoléo descubro.
De Newton vi gravado o nome excelso
N'hum pórfido immortal, que nem d'Augusto;
Ou no Tybre cobrio geladas cinzas,
Ou do Grande Pompeo fechou no Nilo
Restos chorados do implacavel Julio.
Depois que vezes mil no estranho, e grande,
Monumento fitei pasmados olhos,
Por longo tempo contemplando absorto
Aquella d'alto engenho obra estupenda,
Ao Britanno immortal sagrei com votos
Inteiro o coração, minha alma inteira;
D'estima este o tributo, o feudo he este,
Que eu primeiro paguei, Nação pasmosa
De quem o mar he todo, a Terra he quasi.
Mas eu sou Portuguez, e armas não podem
Alhêas deslumbrar-me; eu vejo as Lusas,
Cuja gloria tu vêz no vasto Oriente,
E, onde levantas triplice bandeira,
Primeiro o nome Portuguez encontras.
Eu não te invejo a gloria, nem thesouros;
Se de Safyras atulhados cofres,
Fios de brancas Pérolas, se finos
Luminosos Rubins d'Asia recebes;
Já d'Asia hum Portuguez trouxe mais qu'isso:
Do Indo, Hydaspe, e Gange as aguas trouxe
Dentro em barro Chinez; e era Atayde.
Será maior teu Rodney, ou teu Nelson?
Nem teu Monk he maior, se o Sceptro engeita,
Em Regia frente o Diadema pondo.
Hes grande para mim porque em teu seio
Bolingbrocke apparece, Adisson, Pope;
Apparece Bacon, Milton tactêa
Arpa tocada só d'Hebreo Monarcha;
Em ti tiverão berço, e Locke, e Tompson,
E o que os povos do Mundo inda baralha,
E a Gallia fez tremer, Pitt, he teu filho.
Hes grande para mim, porque hum Senado
De Reis, mais que o de Roma em ti conservas,
Onde tantos Demosthenes, e tantos
Tullios sabem surgir, salvar a Patria.
He esta a fonte do respeito, e estima;
Que eu Vate, que eu Filosofo consagro
A ti grande Nação, da Europa asylo.

Fim do II. Canto.

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Por su autor
José Agostinho de Macedo · 4 piezas más en la casa
Dónde vive
La Biblioteca

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Expediente

Autor
José Agostinho de Macedo
Título
Newton, — Canto II
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-newton-canto-ii--jose-agostinho-de-macedo-29a8c4
Cita recomendada
José Agostinho de Macedo, «Newton, — Canto II», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-newton-canto-ii--jose-agostinho-de-macedo-29a8c4.html

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