(Ao Dr. Thomaz de Carvalho)
Quando eu morrer, se acaso inda presares
Aquellas nossas digressões antigas
Ao verde campo, e as joviaes cantigas
Da aldeia inda apagar os teus pezares...
Se, acaso, inda a giesta, o rosmaninho,
A larangeira e o grande muro branco...
Te lembram... e te vaes sentar no banco
Ás tardes... junto ás tilias do caminho!...
Se, acaso, aquelle nome solitario
Que eu fui gravar um dia no pinheiro,
Vinha descendo o sol... como um guerreiro
Cheio de sangue... atraz do campanhário...
Se, acaso, aquelle nome o tronco duro
Inda o guardou fiel!... e a larangeira!...
E eu não passei por este val escuro
Como uma ave lugubre e estrangeira!...
Se acaso inda te lembra d'esse, a quem
Tanta vez tu vestiste com as tranças!...
E á cova em que eu jazer vier alguem...
Sem ser as meigas pombas e as creanças!...
Se acaso aquelle fogo em que te abrasas
Inda não se apagou!... nem o encanto!...
—Mais que a ideal palpitação das azas,
Ser-me-ha doce, meu bem! ouvir teu pranto!
E n'essa cova então bella e dourada,
—Como a nossa união antiga e calma!
Colhe tu uma flor branca e raiada...
—Que n'essa flor te enviarei minha alma!
Toma cuidado n'ella... Ali se encerra
O que amaste!... e, ah! não vás como as mulheres
Curiosas d'amor, lançando á terra
As folhas virginaes dos malmequeres!...
Planta-a dentro d'um vaso predilecto...
Entre os outros, á luz... sobre a sacada...
E eu gosarei como um praser secreto,
Sentindo a tua mão pequena e amada!...
Será esse o meu goso derradeiro!...
O meu sol, meu azul, o meu espaço!...
E ao sentir-me regar pelo teu braço...
Lembrar-me-ha o teu osculo primeiro...
Lembrar-me-ha a giesta, o rosmaninho,
A larangeira e o grade muro branco...
—E quando iamos fallar no velho banco,
Ás tardes... junto ás tilias do caminho!