(A Oliveira Martins)
A ALMA
Estou lassa de ti, mundo em ruinas!—
Velho mundo cruel! nada m'ensinas!
De grande ao coração!
Acaso estás tão gasto e gangrenado?!
A CARNE
—Ah como é bom, sob este azul arcado,
Fazer a digestão!
A ALMA
Prefiro antes cerrar-me solitaria
A sós e o ideal—ó visionaria
Grande ambição do bem!
Como é que o vicio affronta as violetas?!...
A CARNE
Que olhos tão sensuaes! que tranças pretas
Que a quella mulher tem?—
A ALMA
Cansada de soffrer, em vão anceio
O Justo, o Bello!—Ó terra, abre-me o seio!
Bastante, emfim soffri!
Estou lassa do Vicio, e da Impostura!
A CARNE
Dizem que a terra é fria, a cova escura,
E tudo acaba ahi!
A ALMA
Estes tempos são vis, e sem virtude!
Os corpos sem valor e sem saude,
Os peitos sem amor!
A CARNE
Mas ha corpos mui brancos e perfeitos!
Olhos cheios de luz—formosos peitos,
Tranças de negra côr!...
Ha noutes de prazer pelo caminho!
E abunda muito velho e forte vinho
Sem ser falsificado!
Nem tudo é luto e dôr!—Ha muito riso!
—E é mais quente que o antigo Paraiso
O seio do Peccado!
A ALMA
A Morte, a Morte, é o termo das tristezas!
É ali que emfim livres das torpezas!
Se pode ser feliz!
A CARNE
Mas, mau grado essas nobres theorias,
—O que passar por mim, findos dous dias,
Tapará o nariz!
A ALMA
O que importa!—Melhor é que pereças!...
Antes na terra ali tu apodreças...
Do que eu, n'estas paixões!...
A CARNE
Assim será talvez! Santas doutrinas!
Mas as pernas gentis das dançarinas
Teem grandes tentações!
A ALMA
Calculos vãos! Contemplações pequenas!
—Seculo vil d'aspirações terrenas,
Cain do Pensamento!
Matas as creanças e bons sonhos puros!
A CARNE
Vou vêr se ponho um capital a juros,
Que dê cento por cento!
A ALMA
Hontem, foram levar á sepultura
Uma santa mulher formosa e pura,
Celeste, livre d'erros!...
Tão virginal!... Ninguem lhe orou na cova!
A CARNE
Mandei fazer uma casaca nova
Para os grandes enterros!—
A ALMA
Nada é mais triumphante que o Egoismo,
A ambição de brilhar, o vil cynismo,
—E, n'este carnaval...
Custa a encontrar um peito bom, sincero!..
A CARNE
Foram-se os castellões, o negro clero!
—Saude ao Capital!...
A ALMA
O Capital, bem sei!—A eterna historia
Do assassinio das honras e da gloria,
Do talento e da Idea!...
Vil raça de tyranos e bandidos!...
A CARNE
Silencio! que as paredes tem ouvidos!...
—Cuidado na Cadeia!
A ALMA
Tem quebrantado as almas, as mais fortes!
—Tyrano algum já mais fez tantas mortes,
Nem mais vis proscripções!
A CARNE
Talvez! Talvez! Mas fez, na Sociedade,
Guardar a Lei... firmou a Propriedade,
O juro e as inscripções!
A ALMA
É elle o protector dos seus direitos!
—Ó nobres corações, sem fel nos peitos,
Simples castos e bons!
Deixae-vos fuzillar por essas ruas...
Que vos afoguem as creanças nuas,
Sem sangue e sem coupons!
Deixae que o senhor goze—Ó Natureza!
Curvae-vos, passa agora Sua Altesa
Que o mundo assim dispôz!
Callae-vos rouxinoes melodiosos!...
A CARNE
Não sei por que!—São muito saborosos
Cosidos com arroz!
A ALMA
Velho bezerro d'ouro sobe ao throno!
—Ó alma escura, ó terra, ó abandono!...
A vil devassidão...
Roe-vos mais que o bolor, mundo em farrapos!...
A CARNE
Se as meigas andorinhas mais os sapos
Fizeram união!
A ALMA
É isso! O Capital faz maravilhas!
Elle bem sabe ás Mães comprar as filhas,
Dal-as ao lupanar!
Roubar as crenças, honras e a saude!...
A CARNE
Não fazem mais, amantes da Virtude,
Que dar-lhes de jantar!
A ALMA
Quantas tristes que a tysica asphixia...
Sem pão, sem ar, cosendo noute e dia,
Vão nas garras do açôr...
Cair cheias d'opprobrios e martyrios!...
A CARNE
—Obedecem os sapos mais os lyrios
Á lei do eterno amor!
A ALMA
Isto está desabando!... Homens cruentos!
Lançae ao mundo novos fundamentos!...
Venha o Direito e a Lei!
Venha armada, a Justiça vingadora,
E que na grande ceifa... a espiga loura...
A CARNE
Que horror!... bem sei! bem sei!...
A ALMA
Visões, visões talvez! Mas preso e adoro
Estes sonhos vermelhos e côr do ouro
De luta, vida e Acção...
Se não fosse inda a crença santa e ardente!...
A CARNE
—Deixa-me louca em paz—e emfim consente
Que faça a digestão!...