Foi grande tempo, amigo,
Aquelle tempo antigo:
Eram maiores peras e mellões...
Pois uma melancia?
Por essa casa dentro não cabia.
Bem o mostram as sábias conclusões
Do famoso Gil-Braz de Santilhana:
Guardadas proporções,
Se a conta não ingana,
Certamente sería
A maçan com que a Adão Eva inganou,
Maior do que uma abobora-menina:
E então ja bem se atina
Como ella lhe incalhou
No gargallo do pae da humanidade;
Cuja enorme hombridade,
Segundo o mesmo cálculo constante,
Devia ser maior que a d’um gigante.
N’esse tempo feliz da carochinha,
Em que pato e peru, porco e gallinha,
Burros e burras—e o rhynoceronte—
Cabreavam, ahi por esse monte,
Com toda a mais canalha
Que era da sua egualha,
Toda essa corja dizem que fallava,
Como nós, na sua lingua-mistiforio.
Não sei se Deus fez bem no seu decreto
Que a mercê lhe tirou do fallatorio;
Pois, segundo mui douto me insinava
Meu mestre José-Vaz, homem discreto
E de saber profundo,
Em toda a sociedade d’este mundo
Por fôrça hade reger
O famoso direito de accrescer.
Accresceu para nós, tristes humanos,
Toda a loquacidade
De quantos bicharrões, bichos, bichanos
D’este universo á grande sociedade
Veio a perdas e damnos:
E assim vemos fallar moços e môças,
Velhos e velhas, sabios e tarellos,
Com vozes finas e com vozes grossas,
O gentio, o christão, moiro e judeu,
Por quantos cotovellos
Deus e o direito de accrescer lhes deu.
N’esse tempo feliz então havia
Em Grecia um corcovado
Que de todo o animal, ave ou pescado
Intendia e fallava a algaravia.
Muitas ja tinha em Grego traduzido
Das famosas comedias,
Altisonas tragedias,
Entremezes chistosos e ingraçados,
A que tinha assistido,
Dos bichassos auctores mais fallados.
Um dia passeando
Por juncto de um ribeiro,
—Talvez algum dialogo pilhando
De bichitos de couve ou formigueiro—
Eis-ahi senão quando
Direito a elle em frente
Orelhudo jumento vem trotando;
E depois de o saudar mui cortezmente
Com uma cavatina
Em notas que nem ja Lablache affina,
Findado o ritornello,
Assim o nosso burro,
Em sua lingua asinina
De mui pullido zurro,
Ao corcunda fallou,
Quero dizer—orneou:
—‘Tenho um favor que te pedir, Esopo:
No apologo primeiro
Que em lingua traduzires da tua gente,
Não me faças tam zôpo
Como, useiro e veseiro,
Fazes constantemente.
Em meus discursos mette alguma graça
E pilherias com sal e com finura,
Que eu, a zurrar, sou forte na chalaça.’
O bom do Esopo olhou para a figura
Do elegante orelhudo,
E com tam destampada,
Tremenda gargalhada
Lhe respondeu ao animal felpudo,
Que elle, de orelha murcha e mui trombudo,
Se foi sem dizer nada.
Do sincero de Esopo quam diff’rentes
Andam certos auctores
Que altisonantes fallas farfalhudas
Imprestam a patetas gran’senhores,
Excelsos presidentes
De pedantes reaes academias,
Illustres senadores
Que as cachollas vazias
Inchados ornam de compradas flores!
Quantos ha ahi garraios descarados
Que vão pimpar, sem pejo, pelos pulpitos
Com os sermões espurios
Que aos padres mestres da ordem são furtados!
Quantos vates servís, lamosos gansos
Que, em vis dedicatorias campanudas,
De podres versos ranços,
Na linguagem da Phenix-renascida,
Vão dar ethica vida
A Zenobias barbudas;
E a Mecenas palhaças
De sabichões da Grecia dão fumaças!
Mas Esopo ficou qual d’antes era,
E o burro, burro estreme;
Mas aos nossos Mecenas sécca e treme
Na frente o loiro, a hera
Com que venaes poetas
Lhes coroaram as testas de patetas,
Em trovas semsabôres;
Mas os nossos modernos escriptores
Ficam asnos sem sizo
Para os homens de bem e de juizo.
Coimbra—1820.