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PoetósferaLa BibliotecaAntónio Cândido Gonçalves Crespo

António Cândido Gonçalves Crespo · Modernismo

Confidenza

portugués

Perguntaste-me um dia a vida que eu levava.
Mimosa e eburnea flôr,
Em antes de te vêr; respondo-te: sonhava...
Ouviste, meu amôr?

Não era bem sonhar: ás vezes largo espaço
Ficava-me a sorrir
Para os quadros que eu via em luminoso traço
Nas télas do porvir.

Presta-me o ouvido attento, escuta-me, querida,
Os que me lembram mais:
Assim, fita nos meus, ó pomba estremecida,
Os olhos teus leaes!

Olha este quadro e vê: o campo alegre e franco,
Uma aurora de abril:
Da larga estrada á beira um campanario branco,
O céu profundo anil.

De uma casa á janella uma creança loura,
Loura como um trigal:
Fiando á luz do sol que leve a sobredoura
De aureola ideal.

Toda risos e festa a doce creatura
Olhava para mim,
E eu repetia a sós: «alcanço-te, ventura!
Serei feliz emfim!»

De um outro quadro então recordo-me saudoso,
E alongo os olhos meus
Para o quadro gentil, o sonho mais gracioso,
Que me cahiu dos céus!

Fica ao longe da vil poeira das cidades
E do seu vão rumôr,
O palacio esquecido; ás horas das trindades,
Entremos nelle, flôr!

Deixemos os jardins, as aleas, o arvoredo,
E o oloroso pomar;
Subamos essa escada, agora, a furto e a medo,
Comecemos a olhar.

É vetusto o salão; em flaccida poltrona
Repoisa e scisma alguem:
Alguem que nos recorda a imagem da Madona,
Grave e sizuda mãe.

D'esse alguem no regaço um anjo se reclina
Confiado e feliz,
Sáe-lhe um arôma subtil da bôcca pequenina.
Falla, não sei que diz.

É casta essa creança e pura entre as mais puras,
Que em sonhos vi jámais;
Tem o vago esplendôr das biblicas figuras
Dos antigos missaes.

É moça e é menina: olhar nenhum ainda
De leve a maculou.
Dorme no seio della o amôr, a crença infinda
Que Deus lhe confiou.

Quando ella abre, sorrindo, as palpebras franjadas,
Ficamos a pensar
Nos mysterios do céu, nas cousas ignoradas
Que descobre esse olhar.

Deixa que eu me ajoelhe extasiado e mudo,
Cego de tanta luz,
E que tremulo beije o tépido veludo
De seus pésinhos nús!

E não córa, bem vês, a candida creança!
Antes meiga sorri,
E entre risos me diz, compondo a escura trança:
«Pensava agora em ti!

«Porque tardaste tanto, ó poeta? eu te esperava
«Na minha solidão!
«Vem os segredos vêr que para ti guardava
«Dentro do coração!»

Concertáe vossa orchestra, harmonicas espheras,
No célico esplendor!
Maria, essa creança, ó flôr das primaveras,
Eras tu, meu amôr!

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Autor
António Cândido Gonçalves Crespo
Título
Confidenza
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-confidenza--antonio-candido-goncalves-cr-052dd7
Cita recomendada
António Cândido Gonçalves Crespo, «Confidenza», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-confidenza--antonio-candido-goncalves-cr-052dd7.html

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