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Almeida Garrett · Romanticismo

Cascaes

portugués

Acabava alli a terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta arida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados
Sopravam rijos na rama,
E os ceos turvos, annuviados,
O mar que incessante brama...
Tudo alli era braveza
De selvagem natureza.

Ahi, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal-medrados,
Sêcco o rio, sêcca a fonte,
Hervas e matos queimados,
Ahi n’essa bruta serra,
Ahi foi um ceo na terra.

Alli sós no mundo, sós,
Sancto Deus! como vivemos!
Como eramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!

Que longos bejos sem fim,
Que fallar dos olhos mudo!
Como ella vivia em mim,
Como eu tinha n’ella tudo,
Minha alma em sua razão
Meu sangue em seu coração!

Os anjos aquelles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias,
Seculos na intensidade,
Por millenios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.

Ai! sim foi a tragos largos,
Longos, fundos que a bebi
Do prazer a taça:—amargos
Depois... depois os senti
Os travos que ella deixou...
Mas como eu ninguem gosou.

Ninguem: que é preciso amar
Como eu amei—ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a quem se ha dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se annulla perdida.

Ai, ai! que pesados annos
Tardios depois vieram!
Oh, que fataes desinganos,
Ramo a ramo, a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a terra!

Se o visse... não quero vê-lo
Aquelle sítio incantado;
Certo estou não conhecê-lo,
Tam outro estará mudado,
Mudado como eu, como ella,
Que a vejo sem conhecê-la!

Inda alli acaba a terra,
Mas ja o ceo não começa:
Que aquella visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
D’essa agreste natureza.

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Autor
Almeida Garrett
Título
Cascaes
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-cascaes--almeida-garrett-40b119
Cita recomendada
Almeida Garrett, «Cascaes», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-cascaes--almeida-garrett-40b119.html

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