Onde está aquella imagem pura, e bella
Artificio divino entre nós raro?
Onde aquelle olhar brando, que tão caro
Me foi, e o resplendor de hua e outra estrella?
Ferreira, Soneto, 15.º
FATIMA
Cavalleiro, se é verdade
«O que acabas de dizer,
«Na minha triste orfandade
«Só tu me podes valer.
«Não buscarei disfarçar-te
«Qual é minha condição,
«De tudo vou informar-te,
«Ou sejas sincero, ou não.
«Nas terras da Andaluzia
«Mouro altivo me gerou,
«Cujo nome e valentia
«Longe a fama propagou.
«De seu braço o nobre Ismar
«Conhecendo a fortaleza,
«D'estes muros confiar
«Quiz a guarda e a defeza.
«Do Téjo a margem deixada,
«Onde outra arce regia,
«Mandou-me vir malfadada
«Para a sua companhia.
«Sobre o perigo a que me expunha
«Saudade lhe déra antolhos,
«Que elle em mim seu prazer punha,
«Que eu era a luz dos seus olhos!
«Nascendo perdi a Madre,
«Que em seu seio me formou;
«Mas achei tudo no Padre
«Que amoroso me creou.
«Quer na tregoa socegado,
«Quer na fadiga guerreira,
«Jámais fui d'elle apartada,
«Antes sempre a companheira.
«Quando, ainda tenra infante,
«Nos campos o acompanhava,
«Sobre o cavallo possante
«Um captivo me tomava;
«E quando em forças crescida
«Quiz-me elle mesmo ensinar
«A tomar nas mãos a brida,
«Os ginetes a domar.
«Ora correr me fazia,
«Dado ao venatorio trato,
«O gamo, que parecia
«Nadar nas pontas do matto;
«Ora..... Mas ha! que aproveita
«Recordar carinho seu?....
«Minha desgraça é perfeita,
«Já não vive o Padre meu!
«Não vive; que se vivêra
«Por certo que a filha cára
«O seu braço soccorrêra,
«E a todo o custo a salvára!
«Hauzeri meu Padre é morto!...
«Cavalleiro, ah por piedade,
«Se desejas dar conforto
«Á minha dura anciedade,
«Corre ao campo da batalha,
«Ao posto o mais arriscado,
«Lá na torre, ou na muralha
«Acha-lo-has traspassado.
«Do seu escudo brilhante
«Aro de ouro em torno gira,
«De ouro e purpura o turbante
«Tem por tope uma saphira:
«É seu alfange pendente
«De rico talim bordado,
«Obra da filha, e presente
«Destinado a melhor fado!
«Corre, corre, cavalleiro,
«Se tens de mim compaixão,
«Se teu peito é verdadeiro,
«Se te doe minha afflicção:
«Busca o cadaver querido,
«Faze-o á filha entregar;
«Que eu possa o sangue espargido
«Com o triste pranto lavar:
«Que eu possa triste e mesquinha
«Dar seu corpo á terra dura,
«E de quanto caro eu tinha
«Expirar na sepultura!»
Assim a Virgem moura se exprimia,
Mais de um suspiro as vozes lhe cortava,
E o pranto, que dos olhos lhe corria,
Da linda face as rosas lhe banhava.
O mancebo dos labios seus pendia
Que no ardor de servi-la se abrazava,
E mal ella acabou, aos pés prostrado,
D'esta sorte lhe volve transportado:
«Por piedade, anjo de graça,
«Mitiga a acerba afflicção
«Que a alma me despedaça,
«Que me parte o coração.
«Salvarei, pois o desejas,
«Esses despojos presados;
«E se ao furor das peleijas,
«Foram seus dias poupados,
«Verás teu pai a teu lado,
«Oh bella, n'um curto instante:
«Feliz de adoçar teu fado
«O teu extremoso amante!»
No semblante da Virgem peregrina
Rubor vivo a taes vozes apparece;
Qual ao raiar da aurora purpurina
A viva côr nas nuvens resplandece;
Em seu peito porem, que a dôr domina,
A surpreza de prompto se esvaece,
Com gesto firme, e com solemne accento
Confirma assim do moço o nobre intento.
«Cavalleiro generoso,
«Segue o proposito teu.
«Se o ceo para mim piedoso
«Salvo tem o Padre meu,
«Se ve-lo, abraça-lo ainda
«Eu dever a teu cuidado
«Pela gratidão infinda
«Terás meu peito ligado;
«Mas se o Padre, vivo, ou morto,
«Me não fôr restituido,
«Não busques p'ra mim conforto,
«Meu fado ha de ser cumprido.
«Jámais Fatima opprimida
«Escrava de um vencedor,
«A tal extremo abatida
«Servirá sob um senhor;
«Que antes de ver-me aviltada
«Saberei da abjecta sorte,
«Da condição exasperada,
«Achar allivio na morte.»
«Não por certo, exclama o moço
Prompto o corpo alevantando,
«Se teu mal prevenir posso,
«Eu vôo já ao teu mando.
«Alenta o peito formoso,
«Minóra tanta afflicção,
«Confia no ceo piedoso,
«Angelica perfeição;
«Que aqui pela chamma ardente,
«Que n'este peito ateaste,
«Juro, que ante o Sol nascente
«Verás esse que choraste.»
Diz, e qual parte a pedra sibilante
Da volteada funda despedida,
De Fatima veloz parte o amante,
Obedecendo á ordem recebida,
De penhasco em penhasco salta avante,
Desdenhando escolher senda seguida,
Chega ao Castello, ao campo de batalha,
Ás torres, á mortifera muralha.
Uma vez, outra vez corre o recinto;
Mas em vão, com o empenho não atina.
Cada corpo examina em sangue tinto,
Busca de balde, e em buscar se obstina;
É mais forte o amor do que o instincto,
Entre as scenas de horror, entre a ruina
Só Fatima divisa e seu tormento,
Suffoca amor todo o outro sentimento.
Desenganado de que em vão procura,
Volve Ruy ao centro do Castello,
Com um facho acceso desce á cella escura
D'onde ha pouco arrancára o fardo bello;
Interroga os soldados, a armadura
De Hauzeri lhes descreve; mas de ve-lo
Nenhum lhe dá signaes; exasperado
Volta outra vez ao campo ensanguentado.
Na pesquiza injucunda em vão porfia,
Inutil tedio! infructuosa lida!
Nem novas nem signaes achar podia,
Nenhuns ha de Hauzeri morto, ou com vida.
No emtanto com o raiar de novo dia
Era a Lua no brilho amortecida,
E as estrellas mais proximas do oriente
Se engolfavam na luz do Sol nascente.
Do mancebo o valor succumbe á ideia
Da exasp'ração do ser idolatrado;
Fatima de antemão de afflicção cheia
Contempla em todo o peso de seu fado.
Por ve-la anhella; mas ve-la receia,
Receia o seu pesar exasperado,
Vacilla, treme; mas amor o excita
E da matta na senda o precipita.
As muralhas transpõe, na brenha escura
Já seus tremulos passos avançavam,
Receio, impaciencia, horror, ternura
Em tropel dentro n'alma lhe luctavam;
Tanto mais progredia na espessura
Tanto mais seus transportes se exaltavam,
Os pensamentos se lhe confundiam,
E convulsos os membros lhe tremiam.
Fóra de si, sem tino, e delirante
Chega emfim ao logar onde deixára
O prodigio de amor, cujo semblante
De todo o ser antigo lhe mudára......
Mas, oh pungente dôr! funesto instante!
É deserto o penedo..... a forma rara
Se esvaeceu na sua ausencia breve,
Qual com o romper do dia o sonho leve.
Ligeira barca, que a favor do vento,
Em demanda da praia desejada,
Vai rapida cortando o salso argento,
Deixando apoz a esteira prolongada,
Perde o impulso, a força, o movimento,
Em banco ignoto subito encalhada:
Tal fica aniquilado, immovel, quedo
O surpreso Ruy ante o penedo.
Mas depois, prolongando um doce engano,
Luctando ainda contra a desventura,
Pela Moura clamando, o moço insano
Discorre aquem e alem pela espessura;
Porem o infausto, extremo desengano
Não pode recusar, quando a verdura,
Já pelo Sol nascido alumiada,
Se lhe antolha deserta, abandonada.
«Tudo perdi, desgraçado,
Exclama o moço insensato,
«Só n'esta alma o seu retrato
«Dura com fogo gravado!
«Chamma horrivel me devóra,
«Fogo intenso, fogo interno!
«Tu foges impia e traidora,
«Deixas em meu peito o inferno!
«Como?... com quem?... para onde!...
«Serpe em meu seio esquecida!
«Que valle, ou que serra esconde,
«Perversa, a tua fugida?.....
«Juro pela fé sagrada,
«Que de meus avós herdei,
«Que em tua raça odiada
«Meu tormento vingarei!
«Dos teus no perfido sangue
«Este ferro hei de ensopa-lo,
«De teu pai no corpo exangue
«Hei de a teus olhos crava-lo!
«Salvei-te a vida, e meus dias
«Daria por defender-te,
«Mal teu desejo enuncias,
«Prompto vôo a obedecer-te.
«Volvo de amor transportado,
«De puro extremo incendido;
«Sou trahido, abandonado,
«Enganado, escarnecido!......
«Nem se quer um monumento
«Restará de opprobrio tanto;
«Nem tu, oh musgoso assento,
«Nem tu, oh viçoso manto.
Isto diz... Desatinado
Prostra co'a espada a verdura.
Fere fogo o aço temp'rado
Percutindo a pedra dura.
Qual cão, de raiva atacado,
Distilando a baba impura,
Tinto em sangue o olho ardente,
Té na pedra imprime o dente;
Ou qual o touro insofrido,
A crú jogo abandonado,
Ardente dardo incendido
Tendo no corpo cravado,
Salta, brame, urra, e pungido
Do fogo sempre ateado,
Em corcovos accommette,
E contra a têa arremette:
Tal o moço furioso
Musgo, relva, arbustos, flores,
Prostra, arranca, impetuoso
Nada poupa em seus furores;
Té que emfim com gesto iroso
Volve espaldas aos verdores,
E do sitio triste, e infausto
Se arranca de força exhausto.
Affonso, em tanto, em pompa respeitosa
Dos ministros de Deus marcha cercado
Á capella da Virgem gloriosa,
Que no forte Castello havia alçado.
Segue-o dos seus a turba numerosa
Exultando por ver desagravado
Do insulto agareno o logar santo
Com o christão sacrificio sacrosanto.
Já tinham descendido a curta escada,
Que ao pavimento interno conduzia,
Da porta o cume agudo transpassado
Onde esculptado o Trino Deus se via;
Co'a sagrada aspersão tinham mundado
Do sacro pavimento a lagem fria,
Em canto baixo e triste repetido
Psalmo do Rei profeta arrependido.
O merencorio som no templo escuro
Vagaroso, e solemne resoava,
Á piedosa effusão de um zelo puro
Devota a multidão se abandonava;
Quando Ruy com passo mal seguro
Do Castello nos muros penetrava
E levado da lugubre harmonia
Na Capella entre os mais se confundia.
Neste mesmo momento o Celebrante
Ante o altar sagrado reverente
Se inclinava, e o povo circumstante
Baixava até á terra humilde a frente.
A tal vista o mancebo delirante
Seu barbaro furor desmaiar sente,
Sente expirar a raiva, e a fereza,
Trocar-se a ira em luto e em tristeza.
Os musculos contractos se relaxam,
A frente, hirta até alli, no peito inclina,
Sobre os olhos as palpebras se abaixam,
O fogo abrazador cede e declina.
Não de outra sorte as plantas vigor acham
Do orvalho na frescura matutina,
Como adoça ao mancebo o horrendo estado
A pompa augusta, o cantico sagrado.
Tal quando arrebatado, e possuido
De furias infernaes, castigo horrendo,
O do povo de Deus primeiro ungido,
Co'espirito das trévas combatendo,
Fora de si, convulso, enfurecido,
Se estava entre agonias debatendo,
Da harpa de David a melodia
Seu soffrimento acerbo adormecia.
Findou porem a pompa veneranda,
Os canticos, e os ritos terminaram;
E em alas logo de uma e outra banda
Do vestibulo as gentes se formaram;
Ao pio vencedor que os rege e manda
Mil triumfaes applausos elevaram;
E em marcha triumfal, dos seus seguido,
É Affonso ao Alcacer conduzido.
Alli chegado, próve na defeza
Dos muros novamente conquistados,
Para que nem por força, nem surpreza
Possam mais ser dos mouros retomados.
Confia defender-lhe a fortaleza
Ao valor de Monteiro, e seus soldados,
Em vez de Payo, que perdido a havia
De Theotonio co'a gente a quem regia.
Mas já n'aquelle tempo o Prior Santo,
Que tal era o pensar n'aquella idade!
O baculo depondo, e o sacro manto,
Alliando a vingança co'a piedade,
Entre os mouros fizera estrago tanto
Em despique da perda da Cidade,
Que em Arronches, por elle aos seus rendida,
Fôra de Affonso a lei reconhecida.
Ao tempo em que entre os sabios conselheiros
O Rei a paz e a guerra discutia,
E ao longo das muralhas os guerreiros
Folgavam da conquista na alegria;
Ruy, a joven flôr dos escudeiros,
Monta o cavallo, que da Andaluzia
Aos corceis os mais bellos fôra inveja
Do manejo na pompa, ou na peleija.
Mas não sustenta o moço a redea leve
Co'a costumada e dextra gentileza,
Que ao soberbo animal motos prescreve
Que lhe dobram as graças e a belleza,
Deixa-a pender no collo airoso e breve,
E submergido em lugubre tristeza,
Sair faz ao acaso o bruto bello
Pela primeira porta do Castello.
O bruto a mão usada não sentindo
Co'a frente baixa o trilho proseguia,
Tardo no passo, o collo distendido,
Partir do damno as magoas parecia;
Abandonado a si, não conduzido,
Do Lena para a margem progredia;
No sitio onde hoje sua perenne fonte
Transpõe o passageiro sobre a ponte.
O quadrupede docil, como esp'rando
A lei de seu senhor na fresca borda
Um momento parou, e o moço olhando
Com torvos olhos, como quem acorda
De sonho ingrato, e á rasão tomando,
Móres penas reaes sente, e recorda,
Distrahido lhe affaga o collo, e clina,
E para a dextra a leve redea inclina.
Não longe do logar onde se achava
Graciosa a corrente se torcia,
Alli viçosa a margem se adornava
Das plantas, que o remanso mais nutria,
Com graça ao lado opposto se elevava
Um mamillo gentil, donde surdia
Um fio de agua clara murmurando
Qual rôla entre a verdura suspirando.
A curta elevação faz que se aviste
D'alli do valle ameno a gentileza,
Ondulado terreno em frente existe
D'onde o cultura tem banido a asp'reza,
Alternada co'a vinha alli subsiste
A pallida oliveira, e a riqueza
Da loura Ceres; fecha o quadro bello
Do ceo sobre o azul negro o Castello.
Aqui pára Ruy e desmontando
A um ramo o corcel liga, e lentamente
Vai a placida fonte procurando
Onde só gemer possa livremente;
Mas junto um peregrino vê, tomando
A simples refeição, na herva jacente
Seu pobre alforje está desenvolvido,
Viatorio bordão jaz estendido.
A gorra de aba espaçosa
Calva a frente lhe obumbrava,
A concha da praia ondosa
O capello lhe adornava;
De uma correia nodosa,
Que o pardo saio apertava,
Pendente a cabaça tinha
Que a bebida em si continha.
Escravo por longos annos
De um mouro, que o captivára,
Mão gentil da sorte os damnos
Compassiva lhe adoçára.
Quebrou-lhe os ferros tyrannos;
E liberto lhe inspirára
Sua devoção singella
Ir romeiro a Compostella.
Tal se mostrava o Romeiro,
Que assim Ruy saudou:
«Deus vos salve, Cavalleiro,
«Vosso humilde servo sou.
«Se do trato meu grosseiro,
«Que aqui consumindo estou,
«Vos pode o uso ser grato,
«Partiremos do meu trato.
RUY.
«Graças mil bom peregrino,
«Deus vos dê feliz successo
«Até o vosso destino
«E bem assim no regresso.
«Ao Apostolo divino
«Bom Romeiro o que vos peço
«É que na vossa oração
«Vos alembreis d'este irmão.
ROMEIRO.
«Dizei-me, bom Cavalleiro,
«Se com o nosso Rei andais,
«De Pedro Affonso o escudeiro
«Que nome tem, que signaes?
«Dizem-me ser tão guerreiro,
«De tal pórte, e de obras taes
«Que as gentes na lide espanta
«E fóra d'ella as encanta.
RUY.
«Esse escudeiro que dizes
«De Ruy o nome tem,
«Dos signaes para que ajuizes
«Elle mesmo a ver-te vem.
«Mais não busques nem pesquizes
«Novas; se as trazes de alguem,
«Falla palavras seguras
«Que eu sou esse que procuras.
ROMEIRO.
A nova de que ora tracto,
Senhor, é tão delicada,
Que heis perdoar o recato
Com que ha de ser confiada.
Dizei-me, onde existe um matto
Com um penedo musgado,
Onde na noute apparecem
Sombras que se desvanecem?
RUY.
Onde existe?...... O atrevimento
Quem te deu de pergunta-lo
Venha de sangue sedento
Em proprio, e armado indaga-lo;
Que á face do firmamento
Eu juro que hei de ensina-lo
A não juntar a ousadia
Á mais baixa covardia!
ROMEIRO.
Por Christo! não te enfureças
Escudeiro generoso,
P'ra que a verdade conheças
Traz-me acaso venturoso.
As apparencias são essas,
Mas em caso duvidoso
Quem a apparencias se afferra
Muitas vezes troca e erra.
Attenta no que te digo
Que quem partiu me dictou:
—Tu me salvaste de um p'rigo
A que o padre me guiou,
Fujo-te, o padre é quem sigo,
Foi elle quem te espiou,
Quem te seguiu á espessura
Da noute na sombra escura.
Mal par'o buscar te apartaste
O Padre me appareceu,
Tu enganado ficaste
Só elle o engano teceu;
Mas se acaso te agastaste
Com este proceder meu
Sabe que maior desgraça
Do que a tua em mim se passa.
Essa, que p'ra sempre grata
Te prometteu jurou ser,
Bem longe de ser ingrata,
Vai muito além do dever;
Amor a consume, e a mata,
E se t'o ousa dizer
É com a esperança perdida
De mais t'o dizer na vida.
Distancia, muralha armada
E das seitas o rancôr
Com barreira triplicada
Circumdam a sua dôr:
De saudades definhada
Triste victima de amor
Será de Fatima a sorte
Suspirar até á morte.—
Assim carpindo a formosa
Ouvi, que nunca enganou,
Essa cuja voz piedosa
Liberdade me alcançou,
Ouvi-lhe a queixa afanosa
Que puro amor lhe arrancou.
Ah! possa Deus por ti mandar-lhe um dia
A paz no ceo, na terra a alegria.»—
Em quanto assim fallava o viandante
O alforge e o bordão alevantava,
E mal que terminou, no mesmo instante
Da cristalina fonte se apartava.
O enternecido, transportado amante
Debalde uma, e mil cousas perguntava,
Mais não volveu resposta o peregrino,
E mudo foi seguindo o seu destino.