Tal está morta e pallida Donzella,
Seccas do rosto as rosas, e perdida
A branca e viva côr co'a doce vida.
Camões, Lus., C. 3.º, E. 134.ª
Soberbo ondeia a crina fluctuante
De Ruy o ginete bellicoso,
Atravez da floresta segue ovante
No accelerado trote pressuroso.
Excita o nobre bruto o ledo amante,
Vivo obedece o animal fogoso
Á redea, ha tanto tempo abandonada,
Que outra vez com vigor sente empunhada.
Seguindo vai o nobre aventureiro
Transportado de goso e de alegria
A direcção do campo, que o guerreiro
Povo de Christo alevantado havia.
Doce aspecto, risonho e lisongeiro,
Em vez da dôr, lhe exalta a fantezia,
Todo quanto carpira, quanto amára
A fortuna propicia lhe entregára.
Do ginete nas ancas assentada
Levar se deixa de Hauzeri a filha,
Entregue a amor, e por amor guiada,
Suave esperança nos seus olhos brilha.
O rosto lindo, a fórma delicada
Da natura primor, e maravilha,
A pár do Cavalleiro armado e forte,
Realisam Cyprina com Mavorte.
Sob o braço da Bella, que o estreita,
O coração do moço arde e palpita,
Elle o sente, ella o palpa, e satisfeita
Partilha o goso, que innocente excita.
Se ella suspira, elle o suspiro aceita,
Se olha-la intenta, ella o olhar lhe evita,
Pejando-se que lêa o terno amante
Nimia expressão de amor em seu semblante.
Assim o bosque frondoso
Vão prestes atravessando,
Um silencio deleitoso
Bella, e amante guardando.
Silencio, que amor prefere
Á mais ardente expressão,
Que no fundo da alma fere,
Que transpassa o coração;
Que identifica, que enlaça
Os que a mesma idéa prende,
Que a compaixão, que a desgraça,
Que amor, que a ternura entende.
Silencio não avalia
Alma mesquinha, apoucada,
Que sempre placida e fria
Do sacro fogo é privada.
Em silencio a natureza
Vê rolar no immenso espaço
Dos orbes a redondeza
Que impelliu do Eterno o braço,
Em silencio a vaga ondosa
Rola no lago profundo,
Séria a noute magestosa
Envolve em silencio o mundo.
Em silencio o vate absorto
Antes de pulsar a lira
Recebe o influxo e conforto
Do talento que o inspira.
Em silencio meditando
Alcança o sabio a verdade,
Vai-se um silencio mirrando
O filho da adversidade.
Silencio da alma nascido,
Caracter do sentimento,
Tu es o grau mais subido
Ou do goso, ou do tormento.
Atraz deixam o bosque, e as claras fontes.
Que atravez a verdura vem manando,
Co'a varia crista dos erguidos montes,
Que se está sobre as nuvens desenhando,
Tingem-se de côr varia os horisontes
Co'extremo sol nas aguas mergulhando,
Os monotonos cumes apparecem
Que com o calmoso estio se encalvecem.
Ficava-lhes da parte, donde o dia
Mais refulgente vibra os esplendores,
A Arrabida, entre as nevoas, que tingia
O sol cadente de purpureas côres,
Com o ramo descendente, que estendia
Pelos equoreos campos bolidores,
Do Téjo e Sado as fozes separando
Com o Cabo do Espichel que vai formando.
Não longe, e como filho da montanha,
Ficava de Palmella o cume erguido,
Ao longe dominando na campanha,
Ao perto sobre o valle, enriquecido
Pela filha gentil de terra estranha,
Que ora alli sobre o ramo seu florido
Ostenta a um tempo a flôr, e os pomos de ouro,
De perfume e frescura almo thesouro.
Jazem-lhe á dextra as aridas campinas
Onde com o vento a loura messe ondeia,
Calcareas e basalticas collinas
Onde a arvore a vista não recreia,
Mais longe as em que a limfa cristalina
Hoje em prisão marmorea se encadeia,
Roubada aos campos, á verdura, ás flores,
P'ra alegrar de Lisboa os moradores.
Em frente se lhe antolha o pico altivo
Co'as naturaes collumnas enfeixadas,
Columnas que formára o fogo activo
Nas epochas remotas e apartadas,
Em que inda o touro, o cervo fugitivo
Não pasciam nos campos co'as manadas;
Mas só nadantes monstros habitavam
Mares, que até aos serros se elevavam.
Logo as nuvens rompia mais distante
De Monte-junto a molle alevantada,
Monte-junto, que a lomba culminante
Une a Minde ao nordeste prolongada;
As aguas dividindo, que ao levante
Vem buscar a planicie, que regada
É pelo Téjo, das que ao mar salgado
Directas vão correr no opposto lado.
Do sol quasi submerso os derradeiros
Raios as eminencias só douravam,
Das fontes e dos valles os ligeiros
Vapores os contornos desenhavam;
Sobre as nevoas os cumes dos outeiros
Quaes ilhas sobre o mar se alevantavam,
E as aves com a ultima harmonia
Davam o extremo adeos ao claro dia.
Na belleza da scena que os rodeia
Fatima nem Ruy não attentavam,
Amor as faculdades lhe encadeia,
Ao delirio de amor se abandonavam.
Qual forte olmeiro a branda vide enleia,
Tal a bella e mancebo se estreitavam;
É elle o seu apoio, o seu sustento,
É ella de Ruy só pensamento.
Continúa o silencio dos amantes
Nos vivos sentimentos engolfados,
Nada sôa nos valles circumstantes
Mais que do bruto os passos compassados;
Só lá dos valles nos cazaes distantes
Ladrar se ouvem os cães, sôar dos gados
Monotonos chocalhos tangedores,
Com o debil som das gaitas dos pastores.
De um fraco ribeiro,
Que a calma escaceia,
Que na fralda ondeia
Do arido outeiro,
Cortava o carreiro
O leito escabroso:
O solo ondoloso
Alli se abatia,
E a senda descia
Ao váo pedragoso.
Ao pé da torrente,
Gosando a frescura,
De um chôpo a verdura
Ornava a corrente;
Da lua nascente
A luz estorvando,
A sombra alongando
Na estreita passagem,
Co'a verde folhagem
A senda toldando.
O corcel, que excita
O bellico amante,
Na marcha prestante
Um momento hesita;
Logo a orelha fita
E o trote accelera,
Ruy, que o modéra,
O fogo percebe
Que o bruto concebe
Na batalha féra.
Com o braço valente
A lança endereça,
Preme o bruto, e á préssa
Transpõe a corrente.
«Cinge estreitamente,
«Bella, o teu consorte,
«Que seu braço forte,
«Por ti animado,
«Do mais esforçado
«Desafia o córte.»
Fatima obedece,
Seu seio palpita....
N'isto uma voz grita
A Bella estremece;
No grito conhece
A aravia expressão,
Que no coração
O sangue lhe esfria.
Fugir quereria;
Mas tenta-lo é vão.
Quem vem lá?... Com voz alta e sonorosa
Na arabia lingua um mouro perguntava,
Brandindo a ferrea lança temerosa
O corcel co'as espóras despertava;
Com haste igual de sangue sequiosa
Outro mouro apoz elle se mostrava:
Ruy, que os vê, e em seu valor confia;
«Christo e ElRei Affonso:» respondia.
Diz. O ginete arremeça,
Salta o bruto ardente e forte,
Co'a lançada vôa a morte
Do mouro a cotta atravessa.
Espadana o sangue infido,
De um só golpe a alma vôa,
Cahe o mouro, e com o ruido
Das armas o valle atrôa.
Torce a redea o Cavalleiro
Contra o segundo inimigo;
Mas menos forte o guerreiro
Encarar não ousa o perigo:
Do ginete á ligeireza
Da vida confia o preço,
Parte, vôa, e com destreza
Vibra a lança de arremeço.
Parte a hastea sibilando,
O fado dirige o tiro,
Cahe Fatima, e ao golpe infando
Responde um longo suspiro.
Ella cahe, ella suspira,
No seu seio palpitante
Um covarde ferro aspira
O sangue da doce amante.
Ruy no peito a sustenta
Mudo, louco, exasperado,
Nelle o olhar Fatima attenta
Quasi da morte apagado.
Fitta nelle os olhos lindos
Onde amor lucta co'a morte:
«Os meus dias estão findos,
«Adeus suave consorte!
«Amei-te mais do que a vida
«Desde esse primeiro instante
«Em que a ti fui submettida
«Por teu braço triunfante;
«Nem a crença, que então tinha,
«Nem a ausencia, nem meu fado,
«D'esse amor, essencia minha,
«Haveriam triumfado.
«Nenhum poder sobre a terra
«De Ruy me apartaria,
«Na ausencia, na paz, na guerra
«Fatima tua seria!.....
«Mas Deus não quiz que embebido
«Em doce paixão terrena,
«O premio de um escolhido
«Fosse corôa tão pequena:
«Não quiz esse Deus clemente
«Que a dita nos deslumbrasse,
«Que o nosso amor innocente
«Sobre a terra se gozasse.
«Nasci de um crime, e no crime
«Involuntario educada,
«Esse Deus, sua Lei sublime,
«Foi por mim aos pés calcada:
«Tarde conheci seu nome,
«E quando a Elle voltei
«Um peito, que amor consome,
«Imperfeito lhe votei.
«Do sangue meu a abundancia
«Possa expiar, oh Senhor,
«Os erros da minha infancia,
«O excesso do meu amor!
«Eu vejo a mãi, que me estende
«Desde o ceo amantes braços,
«Ella a alma me desprende
«Dos terrenos embaraços.
«Eu vôo, oh esposo, eu vôo
«Ao seio da Divindade
«Jà seu hymno eterno entôo
«Nos umbraes da Eternidade.
«Só d'alli, oh doce amante,
«P'ra sempre a dôr se desterra;
«Lá te aguardo, que um instante
«Vive o homem sobre a terra!
«Mas ah, se a vida me déste
«Quando á morte me arrancaste,
«Deva-te a vida celeste
«Aquella que tanto amaste.
«Derrama, á pressa, derrama
«Nesta fronte a agua da vida
«Que a seu seio Deus me chama,
«Em breve por ti seguida.»
Disse. Uma força invencivel
Deus infunde ao moço ardente.
Desce, e no elmo terrivel
Toma a agua da corrente.
Chega. Derrama-a na frente
Da Virgem agonisante.
Ella a sente, e ternamente
Une ao peito a mão do amante.
Apertou-a contra o seio,
A elle os olhos voltou,
Um suspiro aos labios veio
Exhalou-o, e expirou.
Dizem que junto ao ribeiro
Doces cantos se escutaram,
Que na noute almo luzeiro
Os pastores contemplaram.
Na seguinte madrugada.
Vindo ao sitio os guardadores,
Viram a terra escavada
Coberta de frescas flôres.
Sobre ellas um vulto annoso
Candidas roupas trajando,
N'um vôo ao ceo pressuroso
Alva pomba contemplando.
Dizem mais: que os que souberam
O caso digno de chôro,
Áquella torrente deram
O nome de Rio Mouro.
Que Ruy na sepultura
Longo tempo suspirára,
Deposta a nobre armadura,
Que do martyr Pai herdára;
Que alfim do pranto exhauridos
Os olhos seus se seccaram,
E seus ais, e seus gemidos
Para o Senhor se voltaram.
Que do ceo a queixa ouvida,
Com balsamo de alta espr'ança
Lhe sarou Deos a ferida,
Lhe mandou da alma a bonança.
De Cintra no ermo escabroso
No serro o mais retirado,
Além do monte viçoso
Monserrate ora chamado,
Dois penhascos se elevavam
Que immensa louza cobria,
E uma caverna formavam
Que ao ponente a porta abria;
Alli, dos homens remoto,
Dos seus proprios ignorado,
Ruy sob um nome ignoto
Terminou mistico fado.
Alli do nascer da aurora
Té ao ultimo fulgor
Entoava em voz sonora
Os hymnos ao Creador.
Das plantas da penedia,
Dos fructos do agreste monte,
Sua comida fazia,
Bebida lhe dava a fonte.
Assim consumiu seus annos
Á solidão consagrados,
Té que, cumpridos seus fados,
Poz Deus um termo a seus damnos.
Partiu-se de entre os humanos
Sua alma candida e pura,
Os anjos a sepultura
Entre as penhas esconderam,
E as memorias se perderam
Da sua triste aventura.
Longo tempo abandonada
Jazeu a selvagem gruta,
Do lobo, e raposa astuta
Foi longo tempo habitada.
Té que a prole sublimada
Do ultimo lume do Oriente
Um asylo penitente
No serro agreste erigiu,
E de novo alli se ouviu
O louvor do Omnipotente.
Os annos correram,
Que tudo mudando
Volvem derribando
O mesmo que ergueram;
Da suave amante
Perdeu-se a memoria,
Esqueceu-se a gloria
Do Joven brilhante.
No castello antigo
Berço a seus amores
Môchos piadores
Só tem seu abrigo;
Selvagem verdura
C'o a hera lustrosa
Da muralha annosa
Cobrem a structura:
De um lado inda a selva
Se mostra virente,
Matiza inda a relva
Do Lena a corrente,
Inda o musgo brando.
Vestindo os penedos,
S'ta nos arvoredos
Amor convidando;
Mas já não lastima
O echo das fragoas
Da triste Fatima
As pena, e as magoas.
Do Téjo na borda
Ind'hoje aos salgueiros
O batel co'a corda
Prendem os remeiros,
A humida esteira
Tranquillos sulcando,
Vem inda remando
De noute as bateiras,
Mas da Moura linda,
Do Guerreiro amante,
No bronco habitante
A memoria é finda.
De Cintra a viçosa
As frescas torrentes
Vem inda fluentes
Á selva frondosa,
Das aves ainda
Na matta sombria
A doce harmonia
Com o dia não finda,
Sua doce frescura,
Suas limpidas fontes,
Seus farpados montes
De altiva structura,
Sua luz clara e pura,
Seu ceo azulado,
Seu mar empolado,
Que o tempo venceram,
Memoria perderam
Do Pár desgraçado.
Tu só, tu, fantesia inseparavel
Das margens do meu Téjo, e seus verdores,
Tu, ceo da patria, ceo incomparavel,
Que n'alma, qual no campo, espalhas flôres:
Só tu resuscitaste o lamentavel
Destino de tão firmes amadores;
Só tu, do tempo alevantando o manto,
Sobre as campas de amor chamaste o pranto.