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PoetósferaLa BibliotecaRaimundo António de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Modernismo

Anjo e virgem

portugués

Virgem, que era o que sentias
Quando ao vento desferias
Essas frouxas harmonias
De um incerto murmurar?
Virgem, que era o que sentias
Teu santo seio agitar?

Achavas o mundo um ermo,
Onde ao coração enfermo
Dos horisontes sem termo
Não vinha uma aura de amor?
Achavas o mundo um ermo,
Fertil só de fel e dor?

Ou teu suspirar sentido
Era por ver desmentido
De amor o sonho querido,
Que sonhaste, alma gentil?
Ou teu suspirar sentido
Foi dor ligeira, infantil?

Era o teu anjo innocente
Que passára mansamente
A sorrir divinamente,
Mas que outra vez não volveu?
Era o teu anjo innocente,
Que víras subir ao ceo?

E ficaste pensativa
Sobre esta terra captiva
D'esperança, e d'amor esquiva,
Coberta com veo de dó;
E ficaste pensativa
Ao ver-te perdida e só.

Oh! esse tenue gemido
Do seio teu despedido,
Qual anhelito sumido
Que a morte veiu cortar,
Oh! esse tenue gemido,
Que não pudeste occultar...

Foi longo adeus de saudade
Aos dias da tenra edade,
Que envoltos na eternidade
Ligeiros viste fugir;
Foi longo adeus de saudade
Ao teu primeiro sorrir!

Do ceo á terra baixaste,
E quando nella te achaste,
Tristemente suspiraste
Ao ver-te perdida e só;
Do ceo á terra baixaste,
Á terra de pranto e dó.

Virgem, virgem, mal pensavas,
Quando triste suspiravas,
E num gemido enviavas
Longo e doloroso adeus;
Virgem, virgem, mal pensavas
Que eras um anjo de Deus.

Março de 1849.

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Autor
Raimundo António de Bulhão Pato
Título
Anjo e virgem
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-anjo-e-virgem--raimundo-antonio-de-bulhao-p-0316e6
Cita recomendada
Raimundo António de Bulhão Pato, «Anjo e virgem», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-anjo-e-virgem--raimundo-antonio-de-bulhao-p-0316e6.html

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