(Imitação do hespanhol)
N'um povo, perto de Cintra,
foi o rev'rendo prior
em fria cova depor
o cadaver d'um pelintra
mesmo ao pé d'um seu crédor.
Apenas se viram juntos
por toda a vida sem fim
romperam n'um tal chinfrim
que, dizem velhos defuntos,
ser virgem um caso assim.
«Vossê pague! ai que vae torta!»
gritava o crédor.—Com quê?—
gemia o outro.—Não vê
que entrei nú aquella porta
porque nú me poz vossê?!—
E n'este rosnar eterno,
n'este diz tu direi eu,
o crédor, que era judeu,
enreda o outro n'um inferno
como o inferno em que viveu.
Se em meu derradeiro instante
eu tiver crédor voraz,
permitte, ó Deus, se te apraz,
que por cá fique o tratante
p'ra que eu, morto, viva em paz.