Não, Rachel, não desvario.
Venus, o estylo é antigo,
os seus dotes repartio
bem largamente comtigo.
Deu-te esse corpo divino!
esses seios palpitantes!
Fosse eu inda pequenino
e tu minh'ama! Que instantes!
Por ser branca e por ser loira
tem o loiro em menos preço;
por isso te deu da moira
o negro cabello espesso.
Chega aos olhos... De repente
vê que não tem na palheta
côr nenhuma refulgente
para imitar um planeta.
Corre logo á fonte limpa;
e procedeu com acerto
que em ocios não se repimpa
quem se encontra em duro aperto.
«Ó dôce noite», ella exclama.
«Tu tens estrellas a esmo.
Duas quero em rubra chamma,
quasi soes; dois soes. É o mesmo.»
A Noite, que é velha fina,
e foi sempre a Venus dada,
responde:—Minha menina,
só para a outra fornada.—
«Pois ao forno! e já! que eu pago!»
A Noite, ouvindo-a, lampeira.
A estrada de São Thiago
deitou logo na caldeira.
Fogo ao lado, e fogo ao centro!
Quando a fervura era viva
o sete-estrello p'ra dentro!
e folhas de sensitiva!
Ao cabo de poucas horas
em duas orbitas fundas
despejou duas auroras
com que est'alma em luz inundas.
Venus pulou de contente;
mas depois... (que são mulheres!)
disse á outra em tom plangente:
«Adeus!... O que tu quizeres!...
«Fizeste-a fresca! Eu reinava.
Era no Olympo a mais bella.
Passei de rainha a escrava.
A Venus agora... é ella!»