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Gregório de Matos · Barroco

Á uma mulata — De Pernamirim chamada Luzia

portugués

Parti o bolo, Luzia,
Que a mim mesmo me acommoda:
Não deis a fatia toda,
Dae-me parte da fatia:
Quem pede como eu pedia,
Pede tudo o que lhe importa
E acceita o que se lhe corta,
E quem dá com manha e arte
Seus dados sempre reparte,
Si tem mais pobres á porta.

Não é bem que tudo eu cobre,
E é bem que um pouco me deis;
Dae-me um pouco e alegrar-me-heis:
Com pouco se alegra o pobre;
Não deis coisa que me sóbre,
Dai-me siquer um bocado;
Mas o que vos persuado
Que deis com manha e com arte,
Dando vós e de tal parte,
Sempre será grande o dado.

Si á todos cinco sentidos
Não tendes coisa que dar,
Dae ao de vêr e apalpar,
Os dois sejam preferidos:
Não deis que ouvir aos ouvidos,
Mas dae aos olhos que vêr
E ao tacto em que se entreter;
Deitemos á bom partir
Os dois sentidos a rir
E os demais a padecer

As mãos folgam de apalpar,
Os olhos folgam de vêr,
Os dois logrem seu prazer,
Os tres sintam seu pezar:
Que depois que isto lograr,
Virá o mais por seu pé,
Que inda que ninguem me dê,
Nem eu o tome á ninguem,
Morrerá vosso desdem
Ás forças de minha fé.

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Expediente

Autor
Gregório de Matos
Título
Á uma mulata — De Pernamirim chamada Luzia
Lengua
portugués
Época
Barroco
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-uma-mulata-de-pernamirim-chamada-luzia--gregorio-de-matos-3be57b
Cita recomendada
Gregório de Matos, «Á uma mulata — De Pernamirim chamada Luzia», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-uma-mulata-de-pernamirim-chamada-luzia--gregorio-de-matos-3be57b.html

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