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PoetósferaLa BibliotecaGregório de Matos

Gregório de Matos · Barroco

A Antonia

portugués

Fui hoje ao Campo da Palma,
Onde com subito estrondo
Me investiu um marimbondo,
Que me picou dentro da alma:
Era já passada a calma,
E eu me sentia encalmado,
Corrido e injuriado,
Porque sendo obrigação
Metter-lhe eu o meu ferrão,
Eu fui o que vim picado.

Fiz por fecha-lo na mão,
Mas o marimbondo azedo
Me picava em qualquer dedo
E escapava por então:
Desesperada funcção
Foi esta, pois me fui pondo
Tão abolhado em redondo
Por cara, peito e vasios,
Que estou com febres e frios
Morrendo do marimbondo.

Dizem que a vingança está
Em lhe saber eu da casa,
Porque deixando-lh’a em braza,
Um fogo outro abrandará:
Mas temo não arderá,
Por mais que toda uma matta
Lhe applique com mão ingrata,
Porque o que eu lhe hei de pôr
Ha de ser fogo de amor,
Que inda que abraza, não mata.

Nesta afflicção tão penosa
D’onde me virá o soccorro?
Morrerei, pois por quem morro,
Morro uma morte formosa:
Esta dôr tão tormentosa
Me levará de maneira,
Que, ou ella queira ou não queira,
Em chegando á sua rua,
Si acaso se mostrar crua,
Tudo irá numa poeira.

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Expediente

Autor
Gregório de Matos
Título
A Antonia
Lengua
portugués
Época
Barroco
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-antonia--gregorio-de-matos-2c6151
Cita recomendada
Gregório de Matos, «A Antonia», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-antonia--gregorio-de-matos-2c6151.html

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