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Gregório de Matos · Barroco

Á Annica — Uma mulata da Cajahyba

portugués

Annica, o que me quereis,
Que tanto me enfeitiçaes,
Uma vez quando cantaes,
E outra quando appareceis?
Si por matar-me o fazeis,
Fazei esse crime atroz
De matar-me sós por sós,
Para que eu tenha o soccorro,
Que vendo que por vós morro,
Viva de morrer por vós.

Matar-me eu o soffrerei,
Mas soffrei tambem chegar-me,
Que ter asco de matar-me
Jámais o consentirei:
Fugir e matar não sei,
Anna, como o conseguis?
Mas si a minha sorte o quiz
E vós, Anna, o intentaes,
Não podeis matar-me mais
Do que quando me fugis.

Chegae e matar-me já:
Não chegando estou já morto;
Coisa que se me tem absorto,
Matar-me quem não me dá:
Chegae, Anna, para cá,
Para dar-me essa ferida,
Porque fugir de corrida
E matar-me d’essa sorte,
Si o vejo na minha morte,
O não vi na minha vida.

Não sei que pós foram estes
Que na alma me derramastes?
Não sei com que me matastes?
Não sei o que me fizestes?
Sei que aqui me apparecestes,
E vendo-vos com antolhos,
Topei com tantos abrolhos
Na vossa dura conquista,
Que me tirastes a vista
E me quebrastes os olhos.

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Autor
Gregório de Matos
Título
Á Annica — Uma mulata da Cajahyba
Lengua
portugués
Época
Barroco
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-annica-uma-mulata-da-cajahyba--gregorio-de-matos-eb6559
Cita recomendada
Gregório de Matos, «Á Annica — Uma mulata da Cajahyba», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-annica-uma-mulata-da-cajahyba--gregorio-de-matos-eb6559.html

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