Olhai que tardes estas!
Tardes de outôno, tardes de agonía...
Começa o novo sôno das florestas...
Deixái dormir os robles e as giestas,
Que acordarão um dia.
Lá deslísa o Mondego a murmurar
As doces melopeias do passado,
(Que hoje só êle as pode relembrar...)
—Lendas de antigas moiras a cantar
Idílios de outras eras, ao luar
Ou á radiosa luz do sol doirado...
Lá deslísa o Mondego a murmurar...
Só podem perceber-lhe as melopeias
As hervinhas rasteiras e as areias...
Olhái os desgrenhados salgueiráis,
Curvados a cismar por sobre as aguas...
Parecem trovadôres medieváis,
Chorando em velhas rimas novas maguas...
Nas cordilheiras pardas e distantes
Adensam-se uns vapôres transparentes,
Doirádos, luminosos, flutuantes,
Sobre as carquêjas ásperas, dormentes...
Na poeira luminosa do sol-pôr
Agacham-se quietinhas, silenciosas,
Dormindo num beatífico torpôr,
A casaría, as arvores, as rosas...
Ha uma indescritivel atonía
Nas vagas tintas que o sol-pôr produz,
—Como um grande soluço de agonía,
Que lentamente se tornasse em luz...
Andam no ar acentos vagabundos
De fados lacrimosos,
Como endeixas de poetas moribundos,
Ao luar, pelos êrmos lutuosos...
Olhai que tardes estas...
Tardes de outôno, tardes de agonía...
Vái dormir o carvalho das florestas
Para acordar um dia...